21/07/2026

O olhar acolhedor do indiano Sandeep Kumar aos imigrantes no documentário "Happy"

Diretor do dramaHappy - que faz sua première mundial na Mostra -, Sandeep Kumar nasceu na Índia e foi à Áustria para cursar a universidade. Há cerca de 25 anos vive na Áustria, descrevendo-o como “um país maravilhoso”. Um país muito pequeno, apenas oito milhões de habitantes - pouquíssimo, se comparado à sua Índia natal e seu bilhão e meio de habitantes. O filme tem sua última sessão neste sábado (19), às 17h, no Instituto Moreira Salles.

Em Viena, Sandeep não pôde deixar de rapidamente notar a grande quantidade de indianos vendendo jornais em pequenos estandes na rua. Pessoas que ficavam ali o dia inteiro, 12 horas por dia, sob chuva, sol, neve, como se fossem máquinas. Eles o inspiraram para realizar Happy, o sétimo longa de sua carreira.

Evidentemente, não escapou ao olhar atento do cineasta o contraste entre uma Viena que é uma das cidades mais ricas do mundo e esses imigrantes ilegais que ganhavam não mais do que um euro por dia, mesmo trabalhando sete dias por semana, 365 dias por ano, sem assistência médica porque não estavam legalizados, como constatou em sua pesquisa para o roteiro. Isso o comoveu muito: “Eu pensava, qual é a diferença entre eles e eu? Apenas um pedaço de papel, que me garantia o acesso a uma vida tão diferente. Todo mundo quer ter uma vida feliz, a melhor vida possível. E apesar de viverem num país tão rico, não tinham meios sequer de comprar um café numa cafeteria em Viena. E as pessoas em volta apenas passavam por eles e nem os viam. Ninguém se importava com eles. Eram invisíveis”, diz o diretor, que veio a São Paulo, em entrevista exclusiva ao Cineweb.

Então, Kumar começou a procurar apoios, pensando em fazer um documentário. Mas, ao longo do tempo, foi mudando de ideia. Primeiro, por não ser um documentarista - todos os seus trabalhos até aqui foram ficções. Depois, por acreditar que “documentários são apenas informação. Você lê uma notícia sobre uma guerra, digamos, e no momento seguinte, você passa a outro assunto. Aquele já foi esquecido”. O cineasta, ao contrário, queria que “o público fosse ao cinema e fosse confrontado com um rosto. Essas pessoas não tinham rostos, ou nomes. Queria que o público fosse confrontado num nível emocional, que não pudesse desviar o olhar”.

O diretor também não queria que seu filme fosse apenas mais uma história sobre imigração e sim que retratasse um microcosmo. O detalhe do nome do personagem - Happy, ou seja, “feliz”, em inglês -, por sua vez, também veio da realidade, de uma região da Índia em que as pessoas realmente tem nomes assim. Além disso, o nome do protagonista também visa remeter ao grande tema do filme - a procura da felicidade.

Esta, aliás, não é uma busca que afete apenas o protagonista, como observa o diretor. “Será que as pessoas em torno dele são felizes? Mesmo as que parecem ter poder também estão lutando em alguma direção. Este é o problema de toda a espécie humana. Ninguém é totalmente feliz”. Por isso, o diretor ressalta que uma de suas cenas favoritas é quando Happy conversa com o burocrata que está conduzindo seu processo de deportação. “Chorei quando escrevi esta cena, porque os dois estão se conectando de uma forma bastante emocional. Os dois sofrem um mesmo problema, sem saber. Ali eles são dois pais conversando, o que é bastante inusitado”. O diretor observa que foi uma cena bastante difícil de filmar, porque não queria que se tornasse excessivamente dramática. No final, acha que “ambos os atores fizeram um ótimo trabalho”.

Elenco

O processo de casting do filme foi igualmente desafiador. Kumar não queria simplesmente um ator indiano que decorasse seus diálogos, que são em boa parte em alemão. Ele procurou por esse ator por cerca de um ano, na Áustria, na Alemanha e na Suíça. Depois, pensou em escolher alguém da própria comunidade indiana na Áustria e treiná-lo como ator. Mas isso também não estava funcionando. Então, resolveu procurá-lo na Índia, um processo que levou outros seis meses. encontrando o ator Sahidur Rahaman, que interpreta Happy.
Mas, como observa o diretor, “este também era outro desafio”. Isso porque o ator tinha que aprender bem o alemão, o que ele conseguiu em quatro meses. “É a primeira vez que um ator indiano aprende o alemão para ser o protagonista num filme falado em alemão. Era um risco, mas ele é um ator brilhante. Ele vem de uma escola de atuação na Índia que todo ano recebe cerca de 100.000 candidatos e seleciona apenas seis”, destaca Kumar. Os outros atores foram escolhidos na Áustria.

O diretor destaca o quanto este aspecto era crucial: “50% do meu trabalho é casting. Se eu seleciono a pessoa certa, o filme vai bem. Mas ainda é uma aposta, até o fim. Você pode selecionar os melhores ingredientes para cozinhar e ainda assim a receita não sair boa”. E, logo de início, há uma cena longa e desafiadora, a da entrevista de Happy com o burocrata que prepara sua deportação e que o diretor quis que transcorresse praticamente em tempo real. “O que gosto dessa cena é que as pessoas não podem desviar o olhar. Elas tem que olhar para ele, vê-lo”.

Première mundial

Kumar também comemora o fato de o filme ter sua première mundial no Brasil. Esta é sua primeira viagem à América do Sul e ele confessa que ficou um pouco surpreso pelo convite, e pensou: “O que este filme terá a ver com o Brasil?” Evidentemente, atentou para o detalhe de que este ano a Mostra de SP tem um foco na Índia, mas também para o fato de ao ao tratar de imigração, “alguns países podem compreendê-lo melhor”. Ele está curioso sobre o modo como o público brasileiro irá reagir nas sessões do filme.

Kumar acredita que o seu filme também é importante para abordar o tema do tráfico humano. “Esses traficantes exploram as pessoas, prometendo-lhes um paraíso. Então, elas vendem tudo o que têm e depois não podem voltar. Ficam num beco sem saída, sem dinheiro e esperando a deportação”.

Sobre o Brasil, também manifesta curiosidade. “Não gosto de sair vendo paisagens e monumentos, prefiro conversar com pessoas, saber o que se passa com elas, como se sentem. São as pessoas que fazem um país”. Kumar não conhece bem o cinema brasileiro, mas ouviu falar das nossas novelas e como são populares. E gostaria de falar sobre isso também com as pessoas daqui.