Imigrantes do Líbano e histórias da Itália, Índia, África e República Dominicana
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 29/10/2024
- Tempo de leitura 8 minutos
Retrato de um Certo Oriente
O romance "Relato de um Certo Oriente", de Milton Hatoum, é a inspiração para este novo filme de Marcelo Gomes, com elenco internacional, falado em cinco idiomas (árabe, francês, inglês, português e tucano) e ostenta uma fotografia em preto e branco (de Pierre de Kerchove). Mas não se espere uma adaptação literal ou completa do livro e sim uma recriação de parte de seu enredo, a partir dos personagens Emilie (Wafa’a Celine Halawi) e Emile (Zakaria Al Kaakour). Eles são dois irmãos que se tornam órfãos, no Líbano conturbado de 1948, e decidem partir para o Brasil.
Na viagem de navio, em que Emile entra como clandestino, escondendo-se na cabine de Emilie, ela acaba conhecendo um comerciante muçulmano, Omar (Charbel Kamel), que negocia mercadorias entre o Líbano e Manaus. Surge imediatamente uma atração entre os dois, que acaba sendo de conhecimento de Emile. Ele reage violentamente, por um ciúme doentio da irmã e também por alegadas diferenças religiosas - ele e Emilie são católicos. Antes da partida para o Brasil, inclusive Emilie havia se refugiado num convento, onde talvez se tornaria freira. A madre superiora deste convento, aliás, é a atriz brasileira Tuna Dwek, numa breve e marcante participação na primeira sequência do filme.
O conflito entre Omar e Emile se prolonga, culminando num incidente em que Emile acaba ferido. Por intermédio de uma passageira indígena, Anastácia (Rosa Peixoto), o grupo recorre à ajuda de seu pai, permitindo uma breve incursão ao mundo dos povos originários, reforçando o contraste com o ambiente dos imigrantes e remetendo a uma atmosfera mágica.
No entanto, o tom geral do filme, que tem roteiro de Marcelo Gomes, Maria Camargo e Gustavo Campos, segue mais um tom realista, alimentado pela paixão de Emilie e Omar e o comportamento obsessivo de Emile, que finalmente introduz uma nota trágica. No livro de Hatoum, além das diferenças nos acontecimentos, o transcurso temporal vai bem mais adiante na vida dos personagens e incorpora outros. (Neusa Barbosa)
CINEMATECA SALA GRANDE OTELO - 29/10 - 14h
CINEMATECA SALA OSCARITO - 29/10 - 21h10
Tiguere
Para criar o drama Tiguere, o diretor e roteirista dominicano José Maria Cabral partiu de suas memórias e experiências quando era criança e foi mandado para um acampamento que “transformariam meninos em machos, verdadeiros tigres”, nas palavras do personagem do longa.
“Era uma prática comum no país, não era nenhum segredo. Os meninos eram mandados pela própria família, para passar um tempo nesse acampamento, onde aprendiam um comportamento meio selvagem”, conta em entrevista ao Cineweb.
O protagonista do longa é Pablo (Carlos Fernández), filho do dono do acampamento e principal instrutor, Alberto (Manny Perez), que, finalmente, tem a chance de preparar seu próprio garoto para ser um tigre na vida. No entanto, o rapaz não mostra ter o comportamento apropriado, sendo questionador e tendo suas próprias ideias para seu futuro.
Nesse acampamento, os meninos aprendem a lutar, e passam por processos como banhos em baixa temperatura e disputas por liderança em troca de comida. É um processo abusivo, que os transformará em homens tóxicos.
O filme foi rodado numa construção exuberante e abandonada no topo do Pico Duarte, que serve como cenário do acampamento de Alberto. Já o elenco mirim é formado por atores de diversos países latino-americanos. Fernández, que interpreta o protagonista, por exemplo, é cubano.
“Os meninos são atores excelentes. Havia um coach ajudando-os a colocar-se no lugar da discussão que o filme traz, mas eles também tiveram muita liberdade para criar. Inclusive alguns diálogos são criados por eles.”
Já Perez é um ator mais conhecido e experiente, que tem no currículo longas como o sucesso cristão O Som da Liberdade e Força Policial. Seu personagem é durão, mas, ao mesmo tempo, é possível notar que não foi uma escolha sua essa vida, a sim uma aprendizagem que ele mesmo assumiu para se tornar um tiguere.
“Manny é excelente, e há muito queríamos trabalhar juntos. Era preciso um ator capaz de trazer essa dubiedade do personagem, sua força e também sua vulnerabilidade. Ele quer o melhor para o filho, mas vive num mundo onde as pessoas querem total domínio, controle.”(Alysson Oliveira)
CINESYSTEM FREI CANECA 3
- 29/10/24 - 15:20
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 30/10/24 - 22:00
Cartas da Sicília
Exibido em competição no mais recente Festival de Veneza, o filme dos diretores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza tem no elenco dos sonhos o seu ponto forte, começando por Toni Servillo. Ele interpreta Catello, um político ligado à máfia que acaba de sair da prisão e se vê pressionado pela polícia a usar seu contato íntimo com o chefão Matteo Messina Denaro (Elio Germano) para capturá-lo, entrando num jogo duplo perigoso mas ao qual ele não tem meios de resistir.
O chefão, por sua vez, há muito vive escondido num apartamento, tendo como principal companhia uma mulher (Barbara Bobulova) a viúva de um fiel colaborador seu. Cada contato com Messina é intermediado por ela, especialmente por meio de cartas. Suas saídas são praticamente inexistentes e cercadas de um forte esquema de segurança, em que ele circula disfarçado e protegido por seus capangas.
Não é a primeira vez que Servillo interpreta um papel deste tipo, mas, mesmo sem maior novidade, o filme é um eficiente retrato de um mundo onde os valores parecem ter-se perdido e nenhuma autoridade merece respeito. Por conta disso, trata-se de uma obra bastante sombria, ainda que não menos realista. (Neusa Barbosa)
CINESYSTEM FREI CANECA - 29/10 - 20h30
KINOPLEX ITAIM SALA 1 - 30/10 - 16h30
Cultivando a Revolução
Um dos mais duros e persistentes movimentos de protesto contra o governo do primeiro-ministro indiano Narendra Modi foi o dos agricultores, em 2020. A aprovação de leis que obrigavam os produtores agrícolas a venderem seus produtos a grandes empresas distribuidoras, eliminando os centros estatais, foi o estopim de uma imensa revolta, que mobilizou sindicatos de produtores agrícolas em diversos estados daquele país e que durou mais de um ano.
Vencedor do prêmio de melhor documentário internacional no Festival Hot Docs, o filme da diretora Nishtha Jain acompanha as movimentações de milhões de manifestantes pelas estradas que levavam à capital, Nova Déli, mostrando sua resistência contra as tropas do governo, que procurou impedi-los de chegar à cidade, sem sucesso. Os manifestantes vinham preparados, trazendo seus caminhões, cobertores e mantimentos que lhes permitiam fazer a própria comida e não depender de fornecimento externo. Não faltavam também palcos, onde discursavam as lideranças e também se apresentavam os cantores que seguiam a multidão.
Muitas das manifestações de protesto contra Modi, que resistiu por meses a derrubar a legislação que incomodava os agricultores, também era expressa por meio de canções com letras humorísticas, ironizando o primeiro-ministro. Para contrapor a narrativa de boa parte da imprensa corporativa, que descrevia os manifestantes como “terroristas” ou “separatistas” (sendo que boa parte deles eram Sikhs), eles mesmo confeccionaram jornais, distribuídos à população, para defenderem seus argumentos.Certamente, o filme retrata bastante bem esta forma de organização e resistência, que enfrentou uma dura repressão e teve mais de 700 mortos. (Neusa Barbosa)
CINESYSTEM FREI CANECA 6 - 29/10 - 19h40 (ÚLTIMA SESSÃO)
Hanami
Prêmio de diretora revelação no Festival de Locarno, Denise Fernandes, uma lisboeta filha de pais cabo-verdianos, realiza em seu filme um primor na identificação entre ambiente e seus habitantes. Através da saga de uma pequena família feminina, retrata a sorte destes moradores de uma ilhota vulcânica, de beleza selvagem e árida, forçados a partir em busca de empregos.
Nia (Alice Da Luz) partiu dali mas porque sofria de uma doença que ali não podia tratar. Deixou para trás, com sua mãe, a sua filha, Nana (Daílma Mendes), menina que cresce nesse ambiente despojado e carente de laços pessoais.
Nana também começa a sofrer de uma estranha febre, que coloca em funcionamento o recurso a toda sorte de simpatias a que moradores de um lugar tão distante de tudo tem que recorrer, na ausência de outros métodos. E um dia sua mãe, Nia, volta para uma visita. Para Nana, há todo um estranhamento, porque Nia partiu enquanto ela era um bebê. Portanto, não se conhecem. Há todo um caminho para que possam conhecer-se e identificar se podem criar finalmente um vínculo.
Um breve capítulo inusitado retrata a visita de um japonês (Yuta Nakano) que, apesar de falar uma língua diferente, parece entender-se às mil maravilhas com um velho habitante do lugar. (Neusa Barbosa)
CINESYSTEM FREI CANECA 1 - 29/10 - 13h30 (ÚLTIMA SESSÃO)
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