Longa mineiro “Suçuarana” abre a competição em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 02/12/2024
- Tempo de leitura 5 minutos
Brasília - Clarissa Campolina e Sérgio Borges são dois nomes incontornáveis do cinema mineiro. Ela, conhecida como montadora e por filmes como Girimunho e Trecho (codirigidos com Helvécio Martins), Ainda Estamos Aqui (codireção com Luiz Pretti) e Canção ao Longe. Ele, especialmente por O Céu sobre os Ombros, grande vencedor do 43º Festival de Brasília. Ambos cineastas versados num cinema da sensibilidad]e, atento aos detalhes e humanista sem perder de vista o quanto as minúcias do cotidiano expressam o todo da sociedade e da política.
Os dois se unem para dirigir Suçuarana, primeiro longa em competição, em Brasília, em que a protagonista é Dora (Sinara Teles), uma mulher solitária numa jornada de busca de suas raízes. Ela é o tipo da heroína que o cinema colocou como um personagem masculino, uma andarilha que vaga pelas estradas, solitária, endurecida, resistente a laços afetivos - inclusive a um cão que resolve segui-la e se torna um símbolo de toda essa afetividade que lhe faltou e que agora ela não sabe como lidar. O cão, que acaba recebendo o nome de Encrenca, aliás, é um dos trunfos do filme, carregando consigo camadas de humor e afeto que quebram a dureza das condições de vida de Dora.
Ela é, aliás, um símbolo das condições precárias de vida dos trabalhadores no Brasil, oscilando entre empregos instáveis e sacrificados, e que acaba caindo na estrada em busca de um certo vale, onde sua mãe teria lhe prometido que morariam um dia, num pedaço de terra finalmente seu. Da mãe, uma trabalhadora itinerante numa antiga região mineradora, não se sabe o destino. Dora foi criada pela avó, crescendo embebida nessa esperança, nessa utopia de um lugar que ela nem mesmo sabe se existe.
Nas estradas, tudo o que encontra são paisagens devastadas de montanhas destruídas pela mineração predatória ao longo de décadas, deixando atrás de si fábricas hoje fechadas, abandonadas. No que restou de uma delas, Dora encontra uma comunidade de ex-operários, que se apropriam do maquinário abandonado pelos proprietários, e que agora eles desmontam para vender como ferro-velho. Pessoas vivendo de sobras, mas que formam uma comunidade onde finalmente Dora encontra alguma solidariedade, ainda que não a quietude de seu espírito.
Comunidade
Na comunidade, ela conhece, por exemplo, Ernesto (Carlos Francisco, de Marte Um), uma espécie de líder, figura paternal, dentro de um grupo em que, aliás, há muitas mulheres, dividindo esse trabalho duro e também dando escuta e acolhimento. Desses encontros, como com uma cantora de estrada e sua filha, o filme constrói uma atmosfera que une o particular e o social, apontando o quanto são precárias ainda as condições de vida dos trabalhadores do País, até como resultado de tantas reformas e mudanças políticas impositivas. Tudo isso num tom sutil, amarrado nesse roteiro denso e complexo, assinado por Clarissa e Rodrigo Oliveira, num filme que ressoa tão profundamente em tantas camadas que é capaz de somar - inclusive incorporando a força de resistência traduzida nas expressões culturais de origem africana, retratadas num belo momento de dança de máscaras que remete à participação da Guarda de Moçambique de Ouro Preto, grupo de manifestação afro-religiosa do qual veio também um dos atores do elenco, Kedson Guimarães.
Um trunfo inegável está nessa protagonista, Sinara Teles, uma experiente atriz de teatro, vista em filmes como No Coração do Mundo, Temporada e Canção ao Longe, que faz aqui sua primeira protagonista.
Curtas
Veio do projeto Nós do Audiovisual, de São Miguel do Gostoso (RN) o curta concorrente Maremoto, das diretoras Cristina Lima e Juliana Bezerra. A prrotagonista é Léo (Eloísa Ferreira), a jovem filha de um pescador que largou o mergulho em alto-mar e abriu uma oficina de motos e quadriciclos. Seu irmão, porém, a procura para que ela volte a mergulhar, em busca de um suposto tesouro conhecido pelo pai dos dois, e que agora está doente. Léo deve escolher entre sua nova e a velha vida, num filme que reflete uma busca de empoderamento feminino.
Do Rio Grande do Sul veio o documental Chibo, dos diretores Gabriela Poester e Henrique Lahude, que retrata os impasses na vida dos moradores de uma pequena cidade fronteiriça. Tiradentes do Sul. Às margens do rio Uruguai, os habitantes vivem da travessia clandestina de mercadorias entre o Brasil e a Argentina, um dos poucos meios de subsistência, mesmo correndo riscos com a polícia. Ao mesmo tempo, Dani, filha mais velha de uma família, prestes a concluir o ensino médio, está no limiar de uma decisão sobre seu futuro, procurando uma alternativa à vida que conheceu até ali. São, aliás, três gerações de mulheres, incluindo a mãe e a irmã caçula de Dani, cada uma com diferentes perspectivas.
Sérgio Borges e Clarissa Campos Inácio, diretores do longa "Suçuarana", durante o debate
Crédito: Neusa Barbosa
