Cannes para para lembrar Cacá Diegues
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 20/05/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Cannes - Teve mais Brasil em Cannes nesta segunda-feira (19) à tarde, com a exibição do documentário Para Vigo me Voy, em que os diretores Lírio Ferreira e Karen Harley repassam a carreira de Cacá Diegues. A exibição do documentário em Cannes, em estreia mundial, coincidiu com no dia do aniversário do premiado diretor alagoano-carioca, um dos fundadores do Cinema Novo e um dos cineastas mais influentes do cinema brasileiro nas últimas cinco décadas, que morreu em fevereiro último - contribuindo para aumentar a emoção da sessão, na sala Buñuel, em que estavam presentes sua família e vários de seus amigos e colaboradores.
Atração da seção Cannes Classics, Para Vigo me Voy - que toma emprestado o mote do personagem Lorde Cigano (José Wilker) em Bye Bye Brasil - concorre ao Olho de Ouro, prêmio de melhor documentário do festival e que em 2016 foi conquistado por Eryk Rocha com o filme Cinema Novo.
Diegues esteve no Festival de Cannes com oito dos 17 longas que dirigiu sozinho, participando três vezes da mostra competitiva
— com Bye Bye Brasil, em 1980; Quilombo, em 1984; e Um trem para as estrelas, em 1987 — e outras três vezes da Quinzena dos Realizadores — com Os Herdeiros, em 1969, Joanna Francesa, em 1973; e Chuvas de Verão, em 1978. O cineasta foi membro do júri da principal mostra competitiva, em 1981, e participou também da Semana da Crítica, com Ganga Zumba, em 1964, apresentou, fora de competição, O Grande Circo Místico, em 2018, além de ter marcado presença com o longa Cinco Vezes Favela – Agora por nós mesmos, em 2010, do qual assinou a produção.
Cinema Novo
Muitas imagens do Cinema Novo, aliás, percorrem as cenas do saboroso documentário de Lírio e Karen, incorporando bastidores daquele movimento de renovação do cinema brasileiro nos anos 1960 que, como diz Cacá no filme a certa altura, queria mudar não só o Brasil, como o mundo. A garra, a ambição e a energia daquela geração que uniu Cacá, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros, realmente é um capítulo magistral, de curta duração, mas efeitos indeléveis em tudo o que se seguiu.
Cacá aparece em imagens recentes, ao lado da mulher, a produtora Renata de Almeida Magalhães, e recebendo amigos em sua casa. Estava debilitado fisicamente mas mentalmente a energia e a memória continuavam a mil.
Várias outras preciosas imagens de arquivo o mostram jovem, em entrevistas, nos sets de filmagem e em suas várias batalhas ao longo da vida, como quando combateu o que chamou de “patrulhas ideológicas” - que era como ele classificava os intolerantes contra opiniões e posições alheias, cobrando uma uniformidade que ele rejeitava.
Como não poderia deixar de ser, o filme inclui diversas cenas dos muitos filmes de Cacá, começando por Bye Bye Brasil, passando por Os Herdeiros, A Grande Cidade, Tieta do Agreste, Chuvas de Verão, Deus é Brasileiro, O Grande Circo Místico, compondo um painel de uma obra incontornável. É um filme amoroso e também didático, no melhor sentido. Todo dia é dia de lembrar a importância de Cacá e driblar a falta que ele já nos faz. Felizmente, será em breve distribuído nos cinemas brasileiros (ainda não há uma data fechada).
Esquisitices andersonianas
Foi bem decepcionante a passagem por aqui do novo filme de Wes Anderson, um habituê na competição de Cannes. Em The Phoenician Scheme (O Esquema Fenício), o diretor norte-americano empunha o seu habitual esmero na direção de arte, que constrói um universo paralelo e muito preciso em todos os detalhes, para encaixar um elenco sempre imenso e estelar. Desta vez, encabeçado por Benicio del Toro, na pele de um empresário pilantra, Anatole Zsa Zsa Korda, empenhado em extorquir de inúmeros parceiros as quantias que faltam para construir seu ambicioso projeto no país fictício da Fenícia. Antes, ele convoca sua filha, Liesl (Mia Threapleton, filha de Kate Winslet), noviça num convento, para torná-la sua única herdeira e gestora dos negócios sombrios da família, além de uma leva imensa de pequenos irmãos.
Daí em diante, desfilam pela tela Tom Hanks, Bryan Cranston, Mathieu Amalric, Jeffrey Wright, Michael Cera, Benedict Cumberbatch, Scarlett Johansson e muitos outros, todos envolvidos de algum modo nos inúmeros imbróglios, sem que o filme alcance de verdade uma graça e um ritmo que justifique tantos artifícios, apesar de algumas boas cenas - como o basquete na linha do trem - e da revelação promissora de Mia Threapleton. O filme tem estreia nos cinemas marcada no Brasil para dia 28 de maio.
Mundo sombrio
Vencedora de uma Palma de Ouro em 2021 com Titane, a diretora francesa Julia Ducourneau volta a invocar um universo sombrio no concorrente à Palma Alpha, nome da protagonista adolescente, interpretada por Mélissa Boros.
Num tempo indeterminado, entre os anos 1980-1990 - não há celulares nem internet à vista -, o mundo sofre os abalos de uma pandemia, que lota os hospitais e transforma a carne das vítimas numa espécie de mármore. Existe uma sugestão de menção à AIDS, ainda que sem nomeá-la, já que a doença se espalha pelo sangue, infectando viciados em drogas injetáveis e também pela via sexual, provocando o pavor do contato com os doentes e sua ostracização.
Com 13 anos, Alpha, filha única de uma médica (Goldshifteh Farahani), vive seu despertar sexual nesse contexto, atraída pelo colega de escola Adrien (Louai El Amrousy). Quando aparece em casa com uma misteriosa tatuagem no braço, que pode ter sido feita com uma agulha infectada, ela provoca o pânico na mãe - que é a protetora de um irmão, Amin (Tahar Rahim, quase irreconhecível com 20 kg a menos), viciado e já contaminado pela misteriosa doença.
Como uma espécie de sucessora do canadense David Cronenberg, Julia Ducourneau é adepta incondicional do body horror, que ela é capaz de compor em algumas cenas de indiscutível impacto e terror, instaurando um clima de pesadelo. Há mérito na segurança de sua direção num filme de gênero que não deixa de incorporar menções a temas como racismo, bullying e homofobia, acirrados de maneira radical em tempos de epidemia. É um filme pesado mas, de algum modo, mais humano do que Titane, ao dedicar bastante atenção a essa ligação familiar entre a médica, o irmão e a menina, que muitas vezes parece mais velha do que sua idade na percepção da dor à sua volta. Ainda assim, a dramaturgia não se sustenta a contento ao longo de todo o filme, parecendo girar em falso e um pouco além no tempo atribuído a algumas situações.
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