"O Agente Secreto" torna-se um dos favoritos em Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 19/05/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Cannes - A segunda-feira (19) amanheceu com sol e ótimas críticas para o concorrente brasileiro à Palma de Ouro, O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho. Críticos internacionais, como David Rooney, da Hollywood Reporter, já apontaram o filme como seu favorito na competição, como “uma realização superior” e, desde já, “um dos melhores filmes do ano”. Lembrando de outro filme brasileiro, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, Grande Prêmio do Júri em Berlim, em fevereiro, Rooney lançou a pergunta: “Será que o Brasil pode ganhar dois Oscars em seguida?”, lembrando a recente vitória de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.
Da esq. para a dir: Isabel Zuaá, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Kléber Mendonça Filho, Wagner Moura, Alice Carvalho e Robério Diógenes Crédito: Neusa Barbosa
O jornalista Peter Debruge,da Variety, descreveuO Agente Secreto como “um deslumbrante filme de época” e “um incrível thriller dos anos 1970”. E Wendy Ide, da Screen International, definiu a obra como “selvagemente divertida”.
Tudo isso repercutiu também na tabela do júri da revista Screen em Cannes, que reúne 12 críticos de diversas nacionalidades, que colocaram O Agente Secreto em terceiro lugar nas suas preferências, empatado com Nouvelle Vague, do norte-americano Richard Linklater, e atrás apenas do drama Two Prosecutors, do ucraniano Sergei Loznitsa, e de Sound of Falling, da alemã Mascha Schilinski.
Na coletiva desta manhã, foi apontada a coincidência de que tanto o filme de Kléber Mendonça quanto Ainda Estou Aqui abordam a memória da época dos anos 1970, ditadura militar no Brasil. Mendonça Filho concordou, comentando: “São dois irmãos que não sabiam que existiam. Bem diferentes, mas com uma frequência interior em comum, em tema e sentimento”. O diretor reiterou que os dois filmes foram feitos num mesmo ano “sem combinação, nem planejamento, falando de uma memória histórica com efeitos sobre o tempo presente”.
Para Mendonça Filho, “o Brasil tem um grande problema de amnésia autoaplicada”, decorrente da anistia de 1979, “propiciada pelo próprio governo militar, que praticou inúmeros atos de violência”. Isto, para ele, “causou um trauma, porque foi normalizado cometer todo tipo de violência e depois passar um pano. Esse foi um elemento muito forte para eu querer fazer esse filme, essa ideia de memória”.
Volta ao Brasil
Com uma sólida carreira internacional, escudada na série Narcos e filmes como Guerra Civil, o ator Wagner Moura comemorou sua volta, depois de 10 anos, ao cinema brasileiro neste filme em que ele interpreta o protagonista, Marcelo, e também é o coprodutor. Ele destacou que sua aproximação com Mendonça Filho veio “menos pela arte do que pela política”. “Nós brasileiros vivemos um período muito difícil, em que a academia, a imprensa e os artistas foram atacados. Nos ligamos neste lugar, pensando em como podíamos nos ajudar”.
Moura lembrou ter dirigido Marighella, em 2017, um filme “sobre uma pessoa que lutou contra a ditadura”. Seu personagem em O Agente Secreto, um professor universitário perseguido, “só quer poder manter os valores que tem. Este é um filme sobre valores, sobre o quanto é difícil ser o que você é, se manter fiel ao que você é. Nesse contexto, você ser gay, preto, indígena, já é um risco”.
Num elenco que registra a presença de inúmeros atores consagrados em pequenos papéis - caso de Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Hermila Guedes, Isabel Zuaá e outros -, o filme se aproveita das participações de cada um para dar um sólido contexto da época. A atriz portuguesa Isabel Zuaá ressaltou que, apesar da pequena participação, “não se sentiu fazendo uma pontinha”. “Sinto que houve uma democracia na montagem e que cada pessoa ajudou a contar a história desse protagonista”.
Assista ao primeiro teaser de "O Agente Secreto"
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