Cannes entre a crítica do colonialismo e a homenagem à Nouvelle Vague
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 18/05/2025
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes - Representante luso-brasileiro na seção competitiva Un Certain Regard, O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, envereda pelo interior da Guiné-Bissau para compor um relato sobre a permanência do colonialismo através das experiências de um engenheiro, Sérgio (Sérgio Coragem). Português, ele chega a uma localidade que se prepara para a construção de uma estrada que afetará profundamente a vida dos moradores locais. O recém-chegado é encarregado de escrever um relatório de impacto ambiental, urgente para liberar a obra, receptora de fundos internacionais.
Desde o começo, o filme de Pedro Pinho (conhecido por seu magnífico trabalho anterior, A Fábrica de Nada), arma uma atmosfera de estranheza, amparada no choque cultural, na demolição das certezas, inclusive as bem-intencionadas e politicamente corretas, de que o jovem engenheiro vem imbuído. Ele não tarda a receber lições de vida de duas descoladas figuras locais, Gui (o ator brasileiro Jonathan Guilherme) e Diára (a atriz cabo-verdiana Cléo Diára), por quem, aliás, se sente sexualmente atraído. E, também nessa esfera íntima, Sérgio terá muito a aprender.
Ao longo das extensas 3 horas e meia de duração, O Riso e a Faca - que colhe seu nome de uma música de TomZé - , insere todo um contexto, que permite vislumbrar tanto a vitalidade cultural guineense quanto uma crônica pobreza e falta de estrutura, esta uma herança maldita de uma colonização portuguesa que, como todas as outras, fixou-se na exploração extensiva dos recursos naturais, abandonando a população negra à própria sorte, sem educação, sem saneamento básico, sem estradas, criando essas lacunas que perduram até agora.
O engenheiro, então, torna-se um personagem à deriva em muitos desses embates, abalado por preocupações éticas com esse povo que começa a conhecer e a gostar e as pressões dos próprios patrões para que produza rapidamente o relatório que libera a obra da estrada. Também é sintomática a sequência que mostra outros funcionários portugueses da empresa, que se comportam exatamente como seus antecessores colonizadores em relação aos empregados locais. Nada mudou nessa mentalidade.
Integrado por vários brasileiros em sua equipe técnica, como a montadora Karen Harley, o filme tem distribuição brasileira pela Vitrine.
Nouvelle Vague
Desde o nome, o filme do norte-americano Richard Linklater homenageia o movimento que renovou o cinema francês no final dos anos 1950, gerando frutos pelo mundo inteiro. Com uma bela fotografia em preto-e-branco, o relato acompanha as tumultuadas filmagens de Acossado, o primeiro filme do até então crítico da revista Cahiers du Cinéma Jean-Luc Godard (Guillaume Marbeck), a partir de um roteiro do colega François Truffaut (Adrien Rouyard), que acaba de triunfar em Cannes com um prêmio de direção para
Os Incompreendidos.
Mesmo delicado e simpático como inegavelmente é, não se pode evitar uma sensação de que o filme de Linklater, de um lado, prega para convertidos, porque todo cinéfilo que se preza conhece a maioria deste incidentes que marcaram Acossado, que deslanchou a carreira do diretor e dos atores Jean Seberg (Zoey Deutch) e Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin), contra toda a expectativa em contrário, até mesmo deles.
Por outro lado, pode ser que, para novas gerações, esses incidentes da filmagem e a personalidade controvertida de Godard não sejam tão conhecidos, então, a obra poderá ter, de algum modo, um aspecto didático, talvez mais para plateias norte-americanas do que francesas, evidentemente. Mas, em nenhum momento, se tem a sensação de que o filme irá passar desse sutil retrato de uma época.
De todo modo, Nouvelle Vague é inegavelmente uma homenagem terna, o que transpira inclusive nesta fotografia em P&B (de David Chambille) que imita um álbum de retratos e nos lembra que o movimento é, a esta altura, História. Por tudo isso, poderia muito bem ter sido o filme de abertura, substituindo o musical chatinho Partir un Jour.
Die My Love
Diretora conhecida pelo manejo de personagens psicóticos em suas histórias, como Precisamos Falar sobre o Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017), a escocesa Lynne Ramsay entrou na competição pela Palma com outro filme nessa linha, Die My Love. Adaptando romance de Ariana Harwicz junto com a parceira Enda Walsh, Ramsay constrói a trajetória de Grace (Jennifer Lawrence), jovem que mergulha na psicose após uma depressão pós-parto.
Há elementos para colocar em questão não só as turbulentas raízes familiares da jovem, como as expectativas lançadas pelo próprio casamento com Jackson (Robert Pattinson), no seio de uma família disfuncional num remoto interior dos EUA. A sexualidade intensa dos primeiros tempos do casamento cede depois do nascimento do primeiro filho, lançando Grace numa rotina bastante solitária, em que seus fantasmas interiores tornam-se mais agudos e sombrios, reforçando uma tendência à autodestruição.
Jennifer Lawrence abraça com paixão essa personagem em acelerada vertigem, que está no centro de uma narrativa que sucumbe totalmente a isso. A competente diretora parece contentar-se com o potencial indiscutível de choque de algumas cenas - como uma em que a protagonista se atira contra uma porta de vidro - mas, por isso mesmo, perde algumas chances de humanizá-la mais.
Não se aproveita a contento também a presença de uma veterana do quilate de Sissy Spacek, vivendo a sogra de Grace, e que simboliza, por sua própria vida, assim como outras mulheres locais, o quanto esse aprisionamento das individualidades femininas pelo peso dos papéis tradicionais impostos pelo casamento e a maternidade está no centro de vários distúrbios mentais afetando as mulheres.
Die my Love é, sem dúvida, um grito primal, em que Robert Pattinson interpreta um personagem às vezes bizarramente parecido com o que viveu na ficção científica Mickey 17, de Bong Joon-ho.
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