Depois do choque com apocalipse americano, documentário sobre Bono Vox
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 16/05/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Cannes - Uma das tendências na seleção do 78º Festival de Cannes sem dúvida são os filmes de apocalipse - e o estado do mundo autoriza de sobra este sentimento.
O primeiro filme nessa linha na competição foi Sirât, de Oliver Laxe. O segundo, bem mais radical, foi o norte-americano Eddington, de Ari Aster, que capta cada uma das maiores neuroses dos EUA, transformando-as num quase épico de horror sobre uma loucura que une fixação por armas, incesto, negacionismo, proselitismo político num feixe que contamina inclusive a família e o ativismo.
Assim, compõe-se um mosaico que explora a incapacidade de encontrar uma saída, até porque o establishment mostra uma espantosa capacidade de reconstruir-se sobre as próprias cinzas, adotando um discurso pretensamente moderno que, no caso do filme, é a energia limpa.
Toda essa batalha se deflagra numa história ambientada em maio de 2020, em plena pandemia, a partir da rivalidade entre um prefeito populista em busca de reeleição, numa cidadezinha do Novo México, Ted Garcia (Pedro Pascal), e um xerife negacionista e recalcado, Joe Connor (Joaquin Phoenix). Desse rastilho de pólvora, nascem seitas, matam-se indígenas (que tanto já foram expropriados, começando por suas terras) e se alimenta o rancor dos afro-americanos, eternamente enquadrados como os suspeitos habituais para todas as culpas.
Diretor conhecido por Hereditário e Beau Tem Medo, Ari Aster exercita um tipo de horror social coalhado de extrema violência e em que todo o humor eventual é sombrio. Mesmo se não atinge uma reflexão tão aguda quanto Pecadores, de Ryan Coogler, até por ser bem mais caótico, certamente dá sua contribuição para analisar o que se tornou a América que há pouco reelegeu Donald Trump. No elenco, Emma Stone, Austin Butler, Micheal Ward e Deirdre O'Connell.
Sexualidade e religião
A atriz francesa Hafsai Herzi estreia na direção com o concorrente à Palma La Petite Dernière, em que ela explora os dilemas de uma jovem de 17 anos, Fatima (Nadia Melliti), que se descobre lésbica dentro de uma família muçulmana de origem argelina.
Assinando o roteiro, Hafsia parte de um romance homônimo da autora Fatima Haas, colocando em foco as dificuldades da jovem para encontrar lugar no mundo para o seu desejo - que a religião condena, como se mostra numa sintomática conversa com um clérigo islâmico.
O dilema de Fatima é esse - ela não deseja abrir mão da religião, nem da própria família, em que é a caçula de três irmãs. É uma família acolhedora, amorosa, mas onde também ela não encontra lugar para assumir claramente sua sexualidade. Aos poucos, ela começa a expressá-la em ambientes como bares lésbicos, apps de encontros, buscando autonomia.
É um filme carinhoso com a personagem, simpático em seus propósitos, mas também extremamente sutil e modesto em sua realização. Valeu o exercício inicial da diretora, que é uma atriz premiada com o César, tanto em O Segredo do Grão (2008) quanto no recente Borgo (2025), e a descoberta da promissora jovem atriz Nadia Melliti, muito natural no papel.
Documentário sobre Bono Vox
Se nesta sexta fomos dormir impactados pelo apocalipse dos EUA encenado pelo candidato à Palma
Eddington, de Ari Aster, nesta manhã de sábado chegou o refresco do documentário
Bono - Stories of Surrender, do neozelandês Andrew Dominik, que deu a palavra a Bono Vox - que não só canta como abre o coração para suas confissões, já declaradas em sua autobiografia,
Surrender. Um programa imperdível para fãs e com material para encarar detratores.
O filme vai direto para o streaming, na Apple TV, com previsão de estreia em 30/5 .
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