Competição pela Palma começa em alto nível
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 15/05/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Cannes - O festival começou para valer nesta quarta (14) e não só pela exibição dos dois primeiros candidatos à Palma de Ouro, como pela qualidade nesta largada. Especialmente o primeiro a passar, o drama alemão Sound of Falling, da novata Mascha Schilinski, demonstrou uma força surpreendente, tanto na dramaturgia quanto na técnica. O segundo foi a ficção Two Prosecutors, do renomado ucraniano Sergei Loznitsa, com uma história ambientada no auge do estalinismo, na URSS de 1937.
Mascha Schilinski, que assina em Sound of Falling seu segundo longa - o primeiro sendo Dark Blue Girl, seu trabalho de conclusão de curso de cinema, em 2017 - , demonstra uma notável segurança para compor este drama em torno de uma família rural da Saxônia, dando voz a quatro mulheres, transitando em épocas diferentes, com uma linguagem fluida que evoca a memória.
A austeridade e o rigor com que desenvolve o retrato familiar, marcado por inúmeros traumas, lembram às vezes um Michael Haneke, especialmente de A Fita Branca, vencedor da Palma de Ouro em 2009. O rigor visual evoca o Carlos Reygadas de Luz Silenciosa, vencedor de um Prêmio do Júri em Cannes em 2007 (Reygadas, aliás, está no júri principal neste ano). Mas essas semelhanças não devem obscurecer que a diretora tem estilo próprio, especialmente ao dar voz às mulheres na história. É visível que o que ela procura, no roteiro escrito em parceria com Louise Peter, é um mergulho na condição feminina ao longo de gerações na zona rural do norte da Alemanha, ao longo do século XX, detectando entre as mulheres retratadas o fio de traumas que, se não são expressos verbal e racionalmente, persistem nos corpos que se sucedem.
Vozes sobrepostas
Além de uma câmera fluida e inesperada, trabalho exemplar do diretor de fotografia Fabian Gamper, um recurso interessante é mudar a voz e o ponto de vista da narração, que oscila entre as mulheres, com uma única breve exceção. É a pulsação de Erika (Lea Drinda), Alma (a adorável garotinha Hanna Heckt, de 9 anos), Angelika (Lena Urzendowsky) e Lenka (Laeni Geiseler) que se procura captar, seus olhares para os acontecimentos dentro de uma família um tanto claustrofóbica,
que se mostra sinistramente hipnotizada pela morte.
O modo como estes corpos celebram a morte, mais do que a vida, é singular, como se vê, por exemplo, na cerimônia do Dia dos Mortos, quando todos os membros da família, vestidos de preto, desfilam diante dos retratos dos já falecidos - alguns deles, quase bizarros -, para depois sentar-se a uma grande mesa para uma refeição muito ritual também.
O que se nota de mais elogiável é a fluidez com que a narrativa consegue transitar entre os tempos, sem se preocupar em marcar muito cada época - exceto pelo figurino, já que o cenário é predominantemente uma grande casa de fazenda,
o que não deixa de ser um sinal do imobilismo que pesa sobre estas vidas. Também não há uma preocupação muito rígida de identificar de quem é a voz da narradora da vez e isso, com o tempo, se percebe que não é tão importante. O melhor é deixar-se levar pelo filme, pelas personagens, embarcando em seu fluxo de sensações e memórias até fazer parte dele.
Em seu segundo longa, e pela primeira vez em Cannes, Mascha Schilling desponta como uma boa surpresa e uma aposta em premiações - inclusive a principal.
Lembranças do estalinismo
Um outro tipo de trauma, esse histórico, emergiu no segundo concorrente à Palma, Two Prosecutors, em que o ucraniano Sergei Loznitsa realiza sua terceira passagem por Cannes. Coincidentemente, esta é também a terceira ficção do documentarista, seguindo Minha Felicidade (2010) e Na Neblina (2012).
Adaptando romance de Gyorgy Demidov, um sobrevivente do Gulag e perseguido político até sua morte, em 1980, Loznitsa retrata a jornada heroica de um jovem procurador recém-nomeado, Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), que busca, em plena vigência do estalinismo, em 1937, interceder pelos direitos humanos de um prisioneiro político (Aleksandr Fillipenko) - que, além do mais, denunciou a ação da NKVD, o serviço secreto do regime, de estar destruindo os militantes mais autênticos do Partido Comunista, prendendo-os e torturando-os sob falsas acusações de conspiração.
Kornyev é um personagem fascinante, na medida em que é visivelmente inteligente e idealista - embora talvez não suficientemente prudente para seu próprio bem. O filme retrata seu enfrentamento contra uma realidade rígida e cruelmente estratificada, simbolizada por ambientes como a prisão política de Bryansk e o prédio governamental onde se localiza o escritório do procurador-geral, Vichinsky (Anatoly Beliy) - a quem o jovem procurador recorre, acreditando que poderá interferir na situação que denuncia.
Do ponto de vista formal, o filme se estrutura quase como uma peça de teatro do absurdo. Pode-se pensar imediatamente em Nikolai Gogol nessas esperas longuíssimas de Kornyev nas antessalas das autoridades que procura, autoridades essas, especialmente na prisão, que se mostram cínicas, preguiçosas, omissas e hipócritas no mais alto grau. É a deterioração desse Estado autoritário que Loznitsa, evidentemente, procura expor, lançando indícios para que o filme de época funcione como um ponto de reflexão sobre situações dos dias de hoje. Afinal, autocratas não mudam tanto assim de repertório.
Curtas do Ceará
Também neste primeiro dia de programação oficial, abriu a Quinzena dos Cineastas um programa de quatro curtas filmados no Ceará, parte do projeto Factory, dirigidos por quatro duplas de jovens diretores, metade deles brasileiros. Por coincidência, os curtas também abordaram temas femininos, cada um numa chave e num estilo que permitem identificar, aqui, o surgimento de uma nova geração de talentos, num projeto apadrinhado pelo diretor Karim Aïnouz. Os curtas são
Ponto Cego,
A Vaqueira, a Bailarina e o Porco,
Como Ler o Vento e A Fera do Mangue.
Missão: Impossível
Quem também passou por aqui, fora de competição, foi o anunciado capítulo final da franquia Missão: Impossível - o Acerto Final, com esperado frisson de sessões lotadas e direito a tapete vermelho concorrido. Com 2h45, o filme oferece o cardápio esperado dos fãs, com Cruise lutando, pendurado em aviões, mergulhando em águas geladíssimas e profundas, com toda a pompa e circunstância de uma despedida, trazendo a bordo sua turma, Ving Rhames, Haley Atwell, Simon Pegg e a carismática Angela Bassett. Na trama, que embarca na tecnologia da Inteligência Artificial, o inimigo a derrotar desta vez é a Entidade, que pode apossar-se de todos os sistemas digitais do mundo, liquidando a humanidade - que mais uma vez sabe que pode contar com o agente Ethan Hunt.
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