22/07/2026

Robert De Niro detona Trump na abertura de Cannes e diz que a arte ameaça os fascistas

Cannes - Tal como aconteceu na coletiva do júri, a política deu mais uma vez o tom dos discursos na noite de abertura do 78º Festival de Cannes, no cenário clássico do Grand Thêàtre Lumière. O homenageado com a Palma de Ouro de honra pela carreira, o ator norte-americano Robert De Niro, fez um veemente manifesto pela democracia e com duras críticas ao presidente de seu país, Donald Trump.

Recebendo o troféu das mãos do ator Leonardo DiCaprio, De Niro afirmou: “No meu país, estamos lutando como o diabo pela democracia que um dia achamos que estava garantida. Isto afeta a todos nós aqui, porque a arte é o que une as pessoas, como esta noite. A arte busca a verdade. A arte abraça a diversidade. Por isso, a arte é uma ameaça. Por isso nós somos uma ameaça a autocratas e fascistas”.
Uma declaração que foi calorosamente aplaudida, pela platéia, lotada de convidados e toda a família do ator.

De Niro prosseguiu: “Nosso presidente vulgar apontou-se ele mesmo diretor de uma das nossas mais caras instituições culturais (o Kennedy Center). Cortou financiamento e apoio às artes, humanidades e educação. Agora anunciou uma tarifa de 100% sobre filmes produzidos fora dos EUA. Não se pode colocar um preço na criatividade, mas aparentemente se pode impor uma tarifa sobre ela. Óbvio que isto é inaceitável. Todos estes ataques são inaceitáveis. E este não é apenas um problema norte-americano, é um problema global. Não podemos simplesmente nos sentar e assistir a isto, como se fosse um filme. Temos que agir e temos que agir agora. Sem violência, mas com grande paixão e determinação”.

O ator concluiu dizendo: “É tempo que todos aqueles que se importam com a liberdade se organizem, protestem e, quando houver eleições, votem. Nesta noite, e pelos próximos 11 dias, mostramos nossa força e compromisso celebrando a arte neste glorioso festival. Liberté, Egalité, Fraternité” - lembrando o lema da Revolução Francesa.

Binoche

Dando tacitamente uma resposta à cobranças feita na coletiva de imprensa sobre seu posicionamento sobre Gaza, a atriz Juliette Binoche, presidente do júri, cumpriu o que havia dito naquela ocasião sobre não ter assinado uma carta de artistas. “Vocês vão entender depois”, ela havia afirmado.

Durante sua própria manifestação na noite de abertura, Juliette mostrou que estava previsto um posicionamento sobre isso e outros assuntos, não somente dela própria como do próprio festival.

Em sua fala, a atriz disse que “os atores têm oportunidade de dar testemunho pelos outros. Quanto mais alto o nível de sofrimento, mais se torna vital este envolvimento, denunciando a guerra, a emergência climática, a misoginia e os demônios de nossas barbaridades”. Ela prosseguiu: “A onda de dor é tão violenta hoje que derruba os mais fracos. Os reféns de 7 de outubro, e todos os reféns, os prisioneiros, os afogados que enfrentam o terror e morrem num terrível sentimento de abandono e indiferença. Contra a imensidão destas tormentas, devemos fazer nascer a gentileza, transformar nossas visões fragmentadas em confiança, redescobrirmos ou curar nossa ignorância, abrir mão de nossos medos e egoísmo. Mudar, mudar de rumo e através dessa cura, restaurar a humildade”.

Binoche não esqueceu de citar os palestinos, colocando no centro de sua fala o dramático caso da fotojornalista palestina Fatima Hassouna, que foi morta em Gaza, junto com 10 membros de sua família, quando um míssil israelense atingiu sua casa. Lembrou Binoche: “Um dia antes de sua morte, ela soube que o filme onde ela aparecia estava selecionado aqui em Cannes. Fatima deveria estar entre nós esta noite”. O filme em questão é o documentário Put Your Soul in Your Hand and Walk, parte da mostra paralela Acid.

A atriz concluiu, dizendo: “A arte permanece. Ela é a testemunha poderosa de nossos sonhos, e nós, como seu público, a abraçamos. Que o Festival de Cannes, onde tudo pode mudar, possa contribuir para isso”.

Também foi lembrada na noite a atriz belga Émilie Dequenne, protagonista do vencedor da Palma de Ouro Rosetta, dos irmãos Dardenne, e que morreu recentemente de câncer, aos 43 anos. Outra homenagem foi dedicada ao diretor norte-americano David Lynch, outro falecido recente, através de número musical da cantora Mylène Farmer.

Quentin Tarantino fez uma aparição surpresa, chamado pelo apresentador da noite, o ator francês Laurent Laffitte, para abrir oficialmente o festival - o que o diretor norte-americano fez de maneira bastante histriônica, com direito a jogar um microfone no chão antes de sair do palco.

Filme de abertura

O musical francês fora de competição Partir un Jour, de Amélie Bonnin, atração inaugural, foi a nota mais fraca da noite. Adaptado de um curta com o mesmo tema, que foi vencedor do César em 2021, o filme retrata os dilemas de uma chef de cozinha, Cécile (Juliette Armanet), que volta de Paris à casa dos pais, no interior, reencontrando um velho amor de adolescência (Bastien Bouillon) e encarando uma série de dúvidas sobre a própria vida e seu relacionamento com outro homem (Tewfik Jallab). No elenco, ainda se encontra a maravilhosa veterana Dominique Blanc, como a mãe da protagonista e bastante subaproveitada numa trama morna e chatinha.