Coletiva do júri em Cannes tem um tom inusitadamente político
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 13/05/2025
- Tempo de leitura 2 minutos
Cannes - Habituê de Cannes há 40 anos, desde que pisou na Croisette em um filme de André Téchiné (Rendez-Vous), Juliette Binoche enfrentou sua primeira coletiva como presidenta do júri que dará a Palma de Ouro driblando duas questões difíceis - a condenação à prisão do colega Gérard Depardieu por crimes sexuais e sua não-assinatura de uma Carta de Gaza, assinada por 380 artistas e divulgada pelo jornal Libération, que pressionam Cannes a assumir uma atitude contra o genocídio naquela região. Figuram entre as assinaturas nomes de peso como Pedro Almodóvar, David Cronenberg, Javier Bardem, Ruben Östlund, Richard Gere e Adèle Exarchopoulos. A carta também será publicada pela Variety.
Na carta, o texto se inicia assim: “Nós, artistas, atores e atrizes da cultura, não podemos ficar em silêncio enquanto um genocídio está em curso em Gaza”. Na coletiva, Juliette não quis esclarecer a razão de não ter assinado a carta, sendo ela uma atriz notoriamente engajada em causas sociais e cujo apoio era previsto. “Vocês entenderão depois”, limitou-se a dizer, laconicamente. Sem dúvida, não se trata de razões pessoais e sim de, no momento, a estrela francesa estar desempenhando uma função no festival.
Quanto a Depardieu, ela condenou o termo “monstro sagrado”, usado por uma jornalista para descrever o ator, dizendo que ele “não era nem monstro, nem sagrado, apenas um homem”. Lembrou que a condenação ocorre depois que o assunto foi submetido à justiça e concordou com uma jornalista no sentido de que a condenação ocorre na esteira do movimento MeToo, com um lacõnico “sim”, sem outros comentários.
Também integrante do júri, o ator norte-americano Jeremy Strong, que interpreta Roy Cohn, uma espécie de mentor de Donald Trump em O Aprendiz, comentou que, como o filme mostra, “Trump é mesmo o pai das fake news”. Ele acrescentou que “neste momento em que a verdade está sob ataque, o cinema é cada vez mais crucial. Assim como celebrar a arte para contrabalançar o que Roy Cohn fez”.
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