Cannes 2025 começa na terça e tem marca brasileira
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 09/05/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Tem muito Brasil de novo na Croisette nesta 78ª edição do Festival de Cannes, que começa no dia 13 e prossegue até 24 de maio. Começando por O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, competindo pela Palma de Ouro pela terceira vez - na primeira vez, em 2016, com Aquarius, na segunda, com Bacurau, em 2019, quando o diretor pernambucano levou o Prêmio do Júri. Quem sabe não repete a façanha ou até vai mais longe desta vez?
O Agente Secreto é uma história da época da ditadura militar, em 1977, quando Marcelo (Wagner Moura), um professor especializado em tecnologia, muda-se de São Paulo para o Recife para fugir a um passado misterioso. Na capital pernambucana, no entanto, ele percebe que não está livre de tudo aquilo que deixou para trás. No elenco, Hermila Guedes, Udo Kier, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone e Thomás Aquino.
Na seção Cannes Classics, o documentário Para Vigo me Voy!, de Lírio Ferreira e Karen Harley, resgata a trajetória de um dos principais cineastas brasileiros, Cacá Diegues, morto em fevereiro último. O documentário é um mergulho na carreira do cineasta, revelando a sua capacidade única de capturar o espírito do tempo presente em suas narrativas. O filme também concorre ao Olho de Ouro, prêmio atribuído ao melhor documentário do festival.
Diegues, que morreu quando o documentário estava sendo montado, esteve no Festival de Cannes com oito dos 17 longas que dirigiu sozinho, participando três vezes da mostra competitiva - com o filme Bye Bye Brasil, em 1980; Quilombo, em 1984; e Um Trem para as Estrelas, em 1987 — e outras três vezes da Quinzena dos Realizadores - com Os Herdeiros, em 1969, Joanna Francesa, em 1973; e Chuvas de Verão, em 1978. O cineasta foi membro do júri da principal mostra competitiva, em 1981, e participou também da Semana da Crítica, com Ganga Zumba, em 1964, apresentou, fora de competição, O Grande Circo Místico, em 2018, além de ter marcado presença com o longa Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos, em 2010, do qual assinou a produção.
Curtas em destaque
O Brasil marca presença na competição de curtas-metragens da Semana da Crítica, em que o carioca Leonardo Martinelli, autor do criativo e premiado Fantasma Neon, comparece com Samba Infinito (foto ao lado). O filme conta a história de um gari (Alexandre Amador), que luta contra as dificuldades de seu trabalho e a memória traumática da morte de uma irmã. Durante um Carnaval do Rio, ele encontra uma criança perdida e se esforça para ajudá-la.
Abre as alas da Quinzena dos Cineastas uma seleção de curtas cearenses, apadrinhada por Karim Aïnouz. São quatro curtas produzidos dentro do projeto Directors’ Factory Ceará Brasil.
Os quatro curtas, que formam um rico painel multicultural, ancorado nas experiências das jovens duplas de realizadores que roteirizaram e dirigiram as obras, integrando o Norte e Nordeste do Brasil com Cuba, Portugal, França e Israel, são: A Fera do Mangue, de Wara (Ceará) e Sivan Noam Shimon (Israel); A Vaqueira e a Dançarina e o Porco, de Stella Carneiro (Alagoas) e Ary Zara (Portugal); Ponto Cego, de Luciana Vieira (Ceará) e Marcel Beltrán (Cuba); e Como Ler o Vento, de Bernardo Ale Abinader (Amazonas) e Sharon Hakim (França).
Além da exibição dos filmes na abertura da Quinzena, os diretores ainda participam de um evento de pitching e de reuniões de coprodução apresentando seus projetos de longas-metragens na Plage de la Quinzaine.
Coprodução e Mercado
Na seção competitiva Un Certain Regard, aparece a coprodução luso-brasileira-franco-romena O Riso e a Faca, do diretor Pedro Pinho (A Fábrica de Nada). Trinta e um profissionais brasileiros integram a equipe do filme, inclusive a produtora Tatiana Leite, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo e o ator Jonathan Guilherme.
Batizado a partir de uma música homônima do cantor e compositor baiano TomZé, o filme foi rodado na Guiné-Bissau e no deserto da Mauritânia. No Brasil, será distribuído pela Vitrine.
O Brasil é, aliás, o país de honra do Mercado de Filmes, o que garante uma vitrine para
projetos brasileiros na área do audiovisual, promovendo contatos visando obter apoios para pós-produção para obras de ficção e documentários, além de conferências e encontros entre membros da delegação brasileira, encabeçada pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, e diversos talentos do cinema brasileiro.
Finalmente, o diretor paulista Marcelo Caetano, que em 2024 levou seu filme Baby à Semana da Crítica, conquistando um prêmio para o ator Ricardo Teodoro, nesta edição integra o júri que escolhe a Palma Queer entre os filmes da seleção.
Pérolas da competição
São 22 filmes concorrendo à Palma de Ouro, numa disputa como sempre acirrada, incluindo nomes consagrados, como Wes Anderson (The Phoenician Scheme) (foto ao lado), Richard Linklater (Nouvelle Vague), Jafar Panahi (A Simple Accident), Carla Simón (Romería), Joachim Trier (Sentimental Value), Kelly Reichardt (The Mastermind), Julia Ducournau (já vencedora de uma Palma com Titane, agora comparece com Alpha), Lynne Ramsay, com Die My Love, com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, o iraniano Saeed Roustaee, agora com Mother and Child, depois de ter sido condenado a 6 meses de prisão em 2023 por exibir em Cannes seu filme Leila’s Brothers, Jeunes Mères, dos incontornáveis irmãos Dardenne, vencedores de duas Palmas fora outros prêmios, Ari Aster, trazendo Eddington, com Joaquin Phoenix e Pedro Pascal.
Na seção Un Certain Regard, registram-se vários primeiros filmes, inclusive a estreia na direção de duas famosas atrizes norte-americanas: Scarlett Johansson, com Eleanor the Great, sobre uma mulher de 90 anos (June Squibb) que tenta reconstruir sua vida depois da morte da melhor amiga; e Kristen Stewart, com The Chronology of Water, que adapta a autobiografia de Lidia Yuknavitch, sobre uma jovem (Imogen Poolts) que encontra escape para seus traumas familiares na literatura.
Correndo por fora
Tom Cruise lançará em Cannes a conclusão da franquia Missão: Impossível (The Final Reckoning). Entre as premières, estão Highest 2 Lowest, de Spike Lee, The Disappearance of Josef Mengele, de Kirill Serebrennikov, La Ola, do chileno Sebastián Lelio (diretor de Uma Mulher Fantástica), e Orwell 2+2=5, de Raoul Peck (diretor de Eu Não Sou seu Negro). Uma das Sessões à Meia-Noite apresenta um trabalho solo de Ethan Coen, Honey Don’t, um policial de humor sombrio tendo ao centro uma detetive de uma pequena cidade, Honey O’Donahue (Margaret Qualley), que investiga uma série de mortes ligadas a um líder de culto (Chris Evans).
Relacionadas
Cannes enfrenta apagão no dia da premiação
- 24/05/2025
Cannes para para lembrar Cacá Diegues
- 20/05/2025
Competição pela Palma começa em alto nível
- 15/05/2025
