Cannes enfrenta apagão no dia da premiação
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 24/05/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Cannes - A 78ª edição do Festival de Cannes ganhou uma dose extra de emoção na manhã deste sábado (24). Desde a manhã, a cidade de Cannes e outras da região da Riviera foram abaladas por um apagão, o que criou problemas para o comércio local e gerou temores quanto à realização da premiação, marcada para esta noite.
Numa nota divulgada há pouco, o Festival de Cannes garantiu que a premiação prosseguirá como planejado, apesar do apagão que derrubou o fornecimento de energia.
Na nota, o festival informa que, até agora, a causa da falta de luz não foi identificada e que os esforços para o restabelecimento estão em curso. Informa-se também que o Palais des Festivals, sede das atividades, mudou seu fornecimento para uma fonte independente, o que permitirá que os eventos e sessões, inclusive a cerimônia de premiação, “prosseguirão como planejado e sob condições normais”.
Últimos concorrentes
Contrariando uma tradição informal, observada há vários anos, os últimos concorrentes exibidos na sexta-feira (23), não mudaram o rumo das apostas de premiação, apesar das credenciais evidentes dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, donos de duas Palmas de Ouro, trazendo mais um drama humanista, Jeunes Mères, e da respeitada diretora independente norte-americana Kelly Reichardt - que, em sua primeira passagem pela competição aqui, infelizmente decepcionou com sua comédia policial The Mastermind.
O ator inglês Jesse O’Connor é o protagonista do filme, interpretando James Blaine Mooney, o filho do juiz (Bill Camp) de uma pequena cidade e que, apesar de adulto, casado e pai de dois filhos, não acha coisa melhor que fazer da vida do que pedir dinheiro à mãe (Hope Davis) e bolar um plano mirabolante para roubar alguns quadros de um museu local - isso no contexto dos final dos anos 1960, governo Richard Nixon e durante a Guerra do Vietnã.
Esperava-se mais da sutil diretora de O Atalho (2010) e First Cow (2019), sobretudo por ambientar o filme nesse momento histórico, com evidentes conexões com a atual era Trump. Mas o filme contenta-se em procurar extrair alguma ironia desse personagem desconectado de tudo, pelo qual não se consegue sentir qualquer empatia.
Andaram melhor os irmãos Dardenne, conseguindo impacto emocional com Jeunes Mères, um drama que retrata os dilemas de uma série de mães solteiras adolescentes, às voltas com famílias desestruturadas, parceiros imaturos e suas próprias fragilidades para encarar a maternidade e o próprio futuro. Não é uma obra à altura de Rosetta e A Criança, suas Palmas de Ouro em 1999 e 2005, nem de outros títulos fortes, como O Filho, mas certamente é melhor do que os mais recentes Tori e Lokita e O Jovem Ahmed - porque toma com mais propriedade o pulso de uma situação contemporânea, inclusive em outros países, como o Brasil, num contexto europeu, em que certamente a assistência social é mais ampla.
Assim sendo, nada parece ter mudado nas apostas de premiação. Jafar Panahi e seu candente drama político Un Simple Accident, continua à frente de todas as perspectivas de Palma, seguido por Sentimental Value, do norueguês Joachim Trier - que deveria colher premiações para seus atores e atrizes, assim como The History of Sound, do sul-africano Oliver Hermanus -, o alemão Sound of Falling, de Mascha Schilinski (o primeiro filme exibido na seleção e cuja forte impressão não se diluiu depois de exibidos todos os 22 concorrentes), o drama Two Prosecutors, do ucraniano Sergei Loznitsa, e o brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Agora, só nos resta torcer.
Relacionadas
Cannes para para lembrar Cacá Diegues
- 20/05/2025
Competição pela Palma começa em alto nível
- 15/05/2025
