22/07/2026

Entre um documentário sobre Assange e o encantamento de Bi Gan

Cannes - Entre as atrações fora da competição, chamou a atenção o documentário The Six Billion Dollar Man, exibido em Sessão Especial, em que o diretor norte-americano Eugene Jarecki organiza e, ordem cronológica a jornada acidentada do jornalista australiano Julian Assange. Retrata-se a ascensão, queda e reabilitação do fundador do Wikipedia, destacando seu papel na exposição de alguns dos segredos mais bem-guardados do establishment norte-americano, especialmente relativos às guerras do Iraque e Afeganistão, denunciando as mortes nada acidentais de civis e outras barbaridades.

Recorrendo a farto material de arquivo e entrevistas, como a do ex-funcionário da CIA Edward Snowden, colaboradores de Assange, sua mulher e advogada Stella Assange, a ex-soldado Chelsea Manning, o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, jornalistas e funcionários da ONU e outras organizações, o filme assinala a importância do personagem que, embora eventualmente polêmico e arrogante, contribuiu para tirar do sigilo documentos secretos do Pentágono - o que colocou Assange na linha de frente de uma perseguição internacional que o levou à prisão e quase provocou sua extradição para os EUA.

Não há, a rigor, nenhuma novidade no material e sim uma boa ordenação dos fatos que marcaram a trajetória do jornalista, incluindo os anos passados dentro da embaixada do Equador em Londres, o cancelamento do asilo concedido pelo então presidente Rafael Correa, a invasão da embaixada equatoriana pela polícia londrina, sua prisão na Inglaterra por 5 anos e o acordo judicial que, em junho de 2024, garantiu sua libertação e retorno à sua terra natal, a Austrália.

Assange, aliás, apareceu em Cannes, nada surpreendentemente engajado numa causa, no caso, a denúncia do genocídio na Faixa de Gaza, o que ele fez usando uma camiseta ostentando o nome de cada uma das quase 5.000 crianças palestinas mortas no recente conflito com Israel.

Arte chinesa

Último concorrente confirmado na competição de Cannes, Resurrection, de Bi Gan, foi um dos espetáculos visuais mais interessantes de toda a seleção - característica que, por si só, permite entender sua incorporação de última hora aos concorrentes à Palma de Ouro.

O jovem diretor chinês, de 35 anos, com apenas três longas no currículo - os dois primeiros foram Kaïli Blues (2015) e Longa Jornada Noite Adentro (2018) -, já demonstrou ter um estilo, uma assinatura, que passa pela criação de uma atmosfera onírica, invocada a partir de longos planos-sequência e efeitos, que, no caso do novo filme, atravessam o tempo e o espaço para criar uma narrativa em torno da história do próprio cinema.

Bi Gan vale-se de poucos personagens para serem guias nesta jornada fantasmagórica entre imagens de sonho, que começam numa atmosfera de cinema mudo, com direito a intertítulos, conduzida por uma mulher (Shi Qi, atriz de Hou Hsiao Hsien em Millenium Mambo). Ela embarca nessa jornada, seguindo um personagem (Chao Mark) que sofrerá múltiplas metamorfoses ao longo do caminho, que atravessa o tempo, em ambientes que remetem ao cinema noir, ao cinema de ação oriental, ao filme de vampiros, ao cinema romântico.

Numa duração bastante longa - 160 minutos -, há sequências mais bem-resolvidas do que outras, num filme menos coeso do que o inebriante Longa Jornada Noite Adentro. Apesar de todo o empenho técnico, não raro surpreendente, o filme nem sempre cumpre seu objetivo de suprir o encantamento dos sentidos, que é uma das razões de existir do cinema.

Novelão iraniano

Foi decepcionante a passagem de outro concorrente iraniano à Palma, Woman and Child, do diretor Saeed Roustaee - que, três anos atrás, trouxe a Cannes o intenso drama familiar Leila’s Brothers, o que custou ao cineasta seis meses de prisão e uma proibição de 5 anos sem filmar, que foi depois suspensa.

Não há dúvida de que Woman and Child é um filme simpático às mulheres, a partir de assumir o ponto de vista de Mahnaz (Parinaz Izadyar), uma enfermeira viúva, mãe de dois filhos e que pensa em casar novamente com o motorista de ambulância Hamid (Payman Maadi, de A Separação). Há dois anos os dois mantêm um relacionamento secreto e agora se preparam para anunciar seu compromisso às respectivas famílias. Mas, nesse movimento, um incidente terrível precipita os acontecimentos e a sorte de Mahnaz é drasticamente transformada.

Nessa virada trágica da vida da protagonista , o filme mergulha num melodrama pesado e choroso, em que a denúncia das desvantagens sociais femininas ficam um tanto obscurecidas por uma trama que põe em primeiro plano rancores e vinganças, num tom novelesco um tanto exagerado. Há muitas lágrimas correndo nessa segunda metade do filme, lágrimas demais. Na sessão de imprensa desta tarde de quinta (22), na sala Bazin, houve até um inusitado princípio de vaia.