22/07/2026

Novos candidatos à Palma trazem interpretações marcantes

Cannes - Na reta final do festival, acelerou também a competição pelos troféus de melhores atores. Mostrou fortes candidatos nessa área o drama norueguês Sentimental Value, em que o diretor norueguês Joachim Trier retoma a parceria com a atriz Renate Reinsve (à esquerda na foto), vista em A Pior Pessoa do Mundo (2021), agora numa chave bem mais dramática. Ela interpreta Nora, uma atriz com sérios problemas emocionais, que têm suas raízes numa história familiar complicada, marcada pelo fantasma do suicídio e uma relação tensa com o pai cineasta, Gustav (Stellan Skarsgard).

Renate é uma forte concorrente a uma premiação, num papel com muitas nuances e que se revelam nas interações com sua irmã, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), e também com uma atriz norte-americana, Rachel Kemp (Elle Fanning) - contratada por seu pai para interpretar a protagonista do novo filme dele, para o qual ele insistira em ter a filha, sem sucesso.

Como é frequente na obra de Trier, caso de Oslo, 31 de Agosto e Mais Forte que Bombas, ele mostra habilidade na construção de uma série de arcos emocionais complexos, sabiamente explorados numa história que mantém o interesse e realiza um retrato nuançado e moderno das relações familiares, num ótimo exemplar do cinema nórdico. Talvez seja exagero lembrar de Ingmar Bergman mas é fato que Trier está se esforçando e no bom caminho do falecido mestre sueco.

Um amor na música

O diretor sul-africano Oliver Hermanus estreia na competição de Cannes com The History of Sound, um digno exemplar de drama romântico de época, estrelado pelo irlandês Paul Mescal (à direita na foto) e o inglês Josh O’Connor. Eles interpretam, respectivamente, Lionel e David, dois estudantes de música nos EUA do começo do século XX que vivem um amor delicado, intenso e proibido.

Hermanus mostra mão segura para compor o relacionamento destes dois homens de origem social bem diferente - Lionel vem de uma modesta família rural do Kentucky, David é órfão numa família de classe média alta - e cujos interesses decolam na música. Lionel é cantor, David compositor, e os dois embarcam a certa altura numa viagem de pesquisa pelo interior norte-americano, colhendo melodias populares, gravadas num gravador de cilindros de cera, a tecnologia disponível à época - num trabalho de pesquisa semelhante ao realizado por Mário de Andrade no Brasil, nos anos 1920.

The History of Sound é pleno de atmosferas e tira bom proveito dessas melodias que os dois pesquisadores vão colhendo, enquanto vivem esse relacionamento impedido pelos preconceitos da época. A composição dramática dos dois personagens é também notável. Num elenco com poucas participações femininas, restam duas a observar, de Hadley Robinson e Emma Canning. Chris Cooper faz outra entrada notável na parte final.

Trilogia catalã

A diretora Carla Simón fecha sua alentada trilogia autobiográfica, iniciada em 2017 com o delicado Verão de 1993, seguido de Alcarrás, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2022, com Romería - que revela o talento da jovem Llúcia García, na pele da protagonista, Marina.

Com 18 anos, Marina parte para fechar as lacunas de sua turbulenta história familiar, procurando a família do pai, Fon, que morreu de AIDS quando ela era pequena, assim como sua mãe. Criada pelos tios, ela procura agora esclarecer as diversas versões sobre seus pais, que viveram intensamente sua paixão, um vício por heroína, a tentativa de uma vida livre e anticonvencional até serem colhidos pela epidemia de sua época.

Carla Simón é uma diretora também muito hábil na criação de atmosferas familiares, encenando conflitos e vivências da protagonista de uma maneira muito eficiente e sincera. Por isso, não se pode descartar que venha para a Espanha algum prêmio também.