05/06/2026

Noite de abertura tem filme de Anna Muylaert e anúncio de política regional

Recife -Naquela que foi uma longa e chuvosa noite de abertura, a 29ª edição do Cine PE teve um pouco de tudo. Além da primeira sessão em território brasileiro do novo filme da diretora Anna Muylaert, A Melhor Mãe do Mundo, que teve première mundial em Berlim, e de curtas-metragens abordando questões de mulheres, a jornada inicial do festival abrigou também o anúncio de uma nova política do Ministério da Cultura, os Arranjos Regionais. Dentro deste novo plano de estímulo à produção audiovisual, haverá um aporte de R$ 300 milhões para as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste. Outros R$ 200 milhões serão destinados aos estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, marcando a intenção de uma descentralização da produção para além do eixo Rio-São Paulo.

Centrado na figura de Gal (Shirley Cruz - na foto ao lado durante coletiva do filme),
A Melhor Mãe do Mundo, oitavo longa de Anna Muylaert, marca um aprofundamento da cineasta no território das questões femininas mais cruciais, delineando os dilemas de uma mulher, mãe de dois filhos (Rihanna Barbosa e Benin Ayo), para escapar ao círculo vicioso da violência do atual companheiro, Leandro (Seu Jorge). A partir do detalhe de que Gal sobrevive como catadora de recicláveis, o filme se torna também uma jornada dentro da cidade de São Paulo, entre o centro velho e Itaquera, na zona leste, permitindo um olhar a tantas partes não gentrificadas da metrópole, onde a luta pela sobrevivência e também a solidariedade são formas de expressão que permitem atravessar as dificuldades.

Um aspecto que o filme resgata é a necessidade do sonho - e é com o apelo a ele que Gal inspira os filhos em sua fuga de Leandro, colorindo seus dias com aventuras que passam por dormir em lugares inusitados, como um parque, ou um banho numa fonte próxima ao Teatro Municipal. É evidente que Anna Muylaert está preocupada em explorar múltiplos aspectos da maternidade a partir da perspectiva de uma mulher muito simples, que não teve acesso a educação ou formação profissional e que é desafiada a defender sua integridade física a partir do confronto com um homem violento - que não é exatamente um monstro, mas encarna aspectos de um machismo estrutural que torna a violência contra as mulheres comum, cotidiana e, infelizmente, desconsiderada e até aceita como “normal”.

É contra isso que o filme se coloca, procurando criar situações orgânicas de convivência e conflito, não só entre os personagens de Gal e Leandro, mas também de seu entorno, como a prima dela, Val (a cantora Luedji Luna - na foto acima, durante coletiva do filme), seu marido, Anivaldo (Rubens Santos), a moradora de rua Munda (Rejane Faria), e um amigo, Reginaldo (Lourenço Mutarelli). O roteiro e a direção de Anna criam um mundo, um contexto, que tem sua coerência e força, embora algumas situações tenham soluções menos elaboradas do que outras, criando eventualmente um desequilíbrio dramático. Estes pequenos tropeços não retiram, porém, a força do filme, que tem estreia nos cinemas marcada para 7 de agosto.

As crianças, Rihanna Barbosa e Benin Ayo, escolhidas por meio de testes, são um caso à parte para salientar. Suas cenas com Shirley Cruz são de uma espontaneidade fluida e de uma autenticidade muito envolvente. É impossível não sentir empatia por eles, aliás, um fenômeno que se repete onde quer que o filme seja exibido. Não à toa, portanto, os prêmios de público que tem recebido, caso dos festivais de Toulouse e Nice.

Curtas

A programação de curtas começou com um pequeno documentário, Eu Preciso Dizer que Te Amo, de Marlom Meirelles, um projeto de formação produzido com estudantes da rede pública da cidade de Jaboatão dos Guararapes, próxima de Recife, e que entrevista moradores de diversas idades sobre sua experiência e entendimento de várias formas de amor.

Na competição pernambucana, o curta da noite foi Esconde-Esconde, da diretora Vitória Vasconcellos. Recorrendo a uma estética bastante particular, usando filme 16mm, a diretora aborda de maneira criativa e potente o difícil tema do aborto.

Na competição nacional de curtas, o documental Liberdade sem Conduta, da diretora potiguar Dênia Cruz, focaliza a história de Amanda, uma jovem mulher que reagiu à violência doméstica recorrendo a um crime e que compartilhou sua história num livro, por estímulo de uma policial penal e da própria diretora do presídio.

O veterano diretor pernambucano Léo Tabosa compareceu com Cavalo Marinho, em que ele retrata a revelação de um segredo numa família, a partir da volta do filho caçula (Tuca Andrada) para um reencontro com sua mãe (Divina Valéria) e a tia (Sôia Lira).