21/07/2026

Uma noite de estranhezas no Cine PE

Recife - A quinta-feira foi uma noite dedicada à estranheza. O longa da competição, o documentário Itatira, de André Luís Garcia (SP), procurou captar o ambiente da pequena cidade do interior cearense onde, há alguns anos, a morte acidental de um garoto deflagrou uma onda de eventos misteriosos - como o suposto visionamento do rapaz morto por seus colegas nos corredores da escola municipal onde estudava.

Sem pretender, felizmente, dar a palavra final sobre os acontecimentos, que permanecem nebulosos, o filme ouve diversos moradores, ex-alunos da escola e uma psicóloga. Materiais de arquivo, como reportagens de TV, dão conta do clima de histeria que tomou conta da cidade, que tem hoje cerca de 18.000 habitantes, onde alunos da escola passavam mal, num fenômeno que chegou a ser tido como possessão, culminando na visita de um padre parapsicólogo que alguns pensavam ser um exorcista. De maneira complementar, acaba-se captando também uma amostra da vida rural, de uma cidade isolada em que pinturas rupestres numa caverna dos arredores, que aparecem nos desenhos das crianças locais, e uma festa de bumba meu boi com figuras mascaradas estranhas também descrevem um ambiente peculiar.

Nem por isso o documentário lida muito bem com essa incerteza que está no seu centro, perdendo a oportunidade de tomar algumas direções e explorar melhor falas de entrevistados - como as da psicóloga, que parece uma das pessoas que melhor acompanhou toda a situação e de uma ex-aluna que a viveu.

Ficção científica

Introduzindo o espírito da quarta noite da programação, os dois curtas desta competição regional fincaram pé na ficção científica. Lança-Foguete, de William Oliveira, capta o clima de terror que toma conta do Recife depois que naves espaciais abduzem pessoas LGBTQIA+ na cidade, angustinado Levi (William Oliveira) e sua mãe (Greyce Braga) - particularmente depois do desaparecimento de uma jovem trans (Aura do Nascimento, protagonista do longa Salomé, grande vencedor do Festival de Brasília 2024).

O outro curta pernambucano, Sertão 2138, de Deuilton B. Júnior, imagina um futuro distópico no sertão, em que uma jovem cientista (Clau Brros) procura lidar com a deterioração do ar, encarando a curiosidade de uma menina (Camilly Vitória) e a desconfiança de seu avô (Asaías Rodrigues).

Inquietação emocional

Um outro tipo de estranheza percorreu também os dois curtas da competição nacional. O concorrente paulista Casulo, de Aline Flores, materializa a intensa inquietação de uma jovem mulher (a própria Aline Flores), diante da iminente visita de uma assistente social - uma visita que vai decidir se ela tem ou não condições de manter a guarda do próprio filho bebê, que está sendo disputada pelo ex-companheiro.

O concorrente paranaense A Caverna, de Louise Fiedler, por sua vez, utiliza o cenário real de uma caverna - uma dificuldade técnica considerável para a filmagem - para criar uma eficiente metáfora do ambiente isolado de um apartamento, até então compartilhado por uma mãe possessiva (Patrícia Saravy) e uma filha (Nathalia Garcia), e que a filha está prestes a deixar, partindo para uma vida autônoma.