21/09/2026

Gramado debate condição feminina e crise da AIDS

Gramado - Representando o Paraná na competição de longas, , da diretora Laís Melo (foto ao lado), fincou o pé num território feminino ao retratar os dilemas de Glória (Saravy), uma mulher trabalhadora que cria coragem de separar-se de um marido abusivo, encarando a responsabilidade pelas três filhas.

Trabalhando numa fábrica, Glória sofre a pressão deste ex-marido, que a vigia - seu carro é visto diariamente na porta do local de trabalho da ex-mulher até que ela chega -, bem como de seu próprio ambiente profissional, em que se abre a disputa para uma vaga de supervisora.

Trabalhando a partir de um roteiro assinado pela própria diretora, estreante em longas, e pela atriz protagonista (conhecida por filmes como A Felicidade das Coisas), o filme constrói um espaço para a intimidade desta núcleo familiar, formado por Glória e as três filhas, buscando, como assinalou a diretora de arte Bea Gerolin, uma “imagem respeitosa” para esta mulher trabalhadora, dentro de uma proposta que a diretora optou por definir por “estética da dignidade”- somando mais uma etapa numa discussão que já é antiga dentro do cinema brasileiro, que parte da estética da fome empunhada por Glauber Rocha no Cinema Novo e passa pela acusação de “cosmética da fome”, feita pela pesquisadora Ivana Bentes ao filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund.

Importante como é essa discussão, pela forma como o cinema retrata seus personagens, o filme paranaense certamente oferece rotas para a identificação das mulheres, público preferencial assumido do longa, ao falar de violência sem ser explícito demais, embora deixando claro do que se trata.

Uma das escolhas representativas é não mostrar nunca o rosto desse marido, visto sempre dentro de seu carro, e cuja ausência numa audiência judicial demonstra à exaustão uma atitude de negação ao diálogo.

Toque fantástico

Embora trafegue majoritariamente numa via realista nessa jornada de sua protagonista, secundada por trajetórias de outros corpos divergentes, como da amiga trans (Fernanda Silva), Nó incorpora um toque de realismo mágico sob a forma de um nódulo no corpo de Glória, que muda de lugar e assume uma função simbólica da angústia que ela está engolindo para superar todas as situações deste seu momento de vida.

Nesse detalhe, assim como num retrato irônico do ambiente de trabalho, especialmente das dinâmicas do departamento de RH, o filme se aproxima de um universo retratado em obras da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, como Trabalhar Cansa. Mas o registro de Laís Melo é outro, mais focado no feminino. Esta sua Glória é a representação de uma feminilidade acossada por um machismo tóxico e recorrendo à resiliência e à solidariedade para subsistir. Até que o nódulo rebente.

Série sobre a crise da AIDS

Na noite de sábado (16), foi atração também o primeiro dos cinco episódios da série Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, de Marcelo Gomes e Carol Minêm (foto ao lado), que aborda a crise da epidemia da AIDS dos anos 1980.

Partindo de uma idéia original de Thiago Pimentel e roteiro de Patrícia Corso, a série inspira-se na história real de comissários de bordo que, em plena crise da AIDS, na época uma condenação à morte para os infectados pelo HIV, contrabandeia para o Brasil o único medicamento que, na época, combatia o vírus - o AZT, que era proibido no País. O tema foi abordado numa reportagem de Leandro Machado para a BBC.

Johnny Massaro vive Nando, um comissário, Bruna Linzmeyer, a aeromoça Léa. No elenco estão Ícaro Silva, Igor Fernandez, Carla Ribas e outros.

Na coletiva, o diretor Marcelo Gomes explicou que houve um compromisso para trazer à série “um sentimento de época”. Para começar, numa fotografia em que foram usadas câmeras como as dos anos 1980, caso das VHS, e também pela trilha sonora e a busca de captar o próprio clima político do País, então saindo de uma ditadura de 21 anos.

Uma consultora da série foi a médica Márcia Rachid, uma pioneira ao atendimento das vítimas de uma doença encarada com um imenso preconceito, descrita por alguns órgãos de imprensa da época como “câncer gay” e mesmo “peste gay”.

Todo esse preconceito, segundo o idealizador da série, Thiago Pimentel, foi o que o levou a batalhar por sua criação, com estreia na HBO Max marcada para o dia 31 de agosto. Ele afirma que, mesmo hoje, já existindo à disposição na rede pública o coquetel de medicamentos que impede o desenvolvimento da AIDS para aqueles que vivem com o HIV, cerca de 10.000 pessoas morrem todos os anos.

Crédito das imagens: Neusa Barbosa