21/09/2026

Gramado assiste a policial matogrossense e documentários sobre temas urgentes

Gramado - O 53º Festival entrou em sua reta final com chuva e a passagem do último concorrente de ficção, o policial cuiabano Cinco Tipos de Medo (foto ao lado), de Bruno Bini - o primeiro longa do Mato Grosso a competir por aqui. No elenco, nomes famosos como a atriz Bella Campos, atualmente interpretando Maria de Fátima no remake da novela Vale Tudo, e o rapper Xamã, ambos estreando no cinema, garantindo o frisson do tapete vermelho da noite de quinta (21).

Com roteiro assinado pelo diretor, o filme entra numa trama labiríntica, entrelaçando a vida de várias pessoas numa trilha de sangue e morte, uma característica do cinema cheio de adrenalina de diretores como Quentin Tarantino.

Os protagonistas são o músico Murilo (João Vitor Silva), sobrevivente da Covid 19 que se envolve com a enfermeira Marlene (Bella Campos). Um romance que se mostra perigoso, já que a moça está no alvo de interesse do traficante Sapinho (Xamã), dono do pedaço do bairro onde ela mora com a avó (Rejane Faria). A essa situação de perigo somam-se o advogado Ivan (Rui Ricardo Díaz) e a policial Luciana (Bárbara Colen), cada um com uma agenda própria de vingança para interferir nos acontecimentos motivados por perdas pessoais.

Certamente é elogiável a realização de um cinema fora do eixo Rio-São Paulo com qualidades de produção - como a fotografia sombria de Ulisses Mata Jr. e o desenho de som de Kiko Ferraz e Ricardo Costa, além da ambição do roteiro. Cinco Tipos de Medo (foto da equipe ao lado) tem ritmo para proporcionar entretenimento e dispõe de um elenco respeitável para sustentar uma trama que, eventualmente, incorpora coincidências demais e, pelo menos numa sequência, usa uma violência excessiva.

Documentários

Dois documentários deram sequência à competição neste formato. O primeiro, Lendo o Mundo (foto da equipe abaixo), das diretoras Catherine Murphy e Íris de Oliveira (RN), resgata a trajetória exemplar do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), focalizando o impacto de uma experiência ímpar realizada em Angicos (RN), entre 1962 e 1963 - alfabetizando cerca de 300 pessoas em apenas 40 horas, utilizando o método pioneiro do educador.

Apoiando-se em material de arquivo e entrevistas com moradores daquela cidade que participaram do projeto, que testava na prática a metodologia desenvolvida por Freire, o filme dá voz a essas pessoas comuns sobre as circunstâncias e o efeito da experiência em suas vidas - da qual se lembram não raro com emoção.

Como não poderia deixar de ser, o documentário repercute a repressão imposta pela ditadura de 1964 a Freire e seus parceiros, presos e identificados como “comunistas”. Mas, apesar das boas intenções, o filme mostra-se um tanto modesto para situar melhor a importância do educador, contentando-se com um tom um pouco didático demais.

O outro documentário, As Avós, de Ana Lígia Pimentel (AM), enfoca o tema da maternidade precoce em populações amazonenses, que gera um efeito em cadeia, que se repete através das gerações, impactando particularmente a vida das meninas - que se afastam da escola e da formação profissional por conta da maternidade na adolescência, eternizando um ciclo de empobrecimento e instabilidade emocional.

As Avós acerta na escolha de seu tema, mas esbarra numa falta de foco e de ritmo que compromete o bom termo de sua realização. Contando com muitos depoimentos, o filme se alonga com três sequências com narração, recorrendo a textos literários que pretendem ser comentários do tema mas que não se inserem no todo com a devida organicidade.

Mesmo assim, o filme tem sua importância como denúncia de uma situação crítica persistente e que não se restringe à região amazônica.

Crédito das imagens
Still: Divulgação
Equipe do filme "Cinco Tipos de Medo"
Equipe do filme "Lendo o Mundo"