05/06/2026

"Sonhar com Leões" tem Denise Fraga num filme que debate a eutanásia

Gramado - Penúltimo concorrente aos Kikitos, o longa Sonhar com Leões, do diretor greco-lusitano Paolo Marinou-Blanco, soube utilizar o seu grande trunfo, a presença da atriz Denise Fraga como protagonista, numa história de tema indigesto, a eutanásia.

Ultimamente, há vários filmes falando disso - caso dos recentes O Quarto ao Lado, de Pedro Almodóvar, e Uma Bela Vida, de Costa-Gavras -, o que prova que a discussão do tema da escolha de uma morte digna está na ordem do dia em todo o mundo.

Apesar do assunto, o tom do filme é o mais leve possível, optando por recursos de sátira futurista ao imaginar uma empresa que proporciona assistência a pessoas, portadoras de doenças terminais e que tenham sobrevivido a tentativas de suicídio, no sentido de realizarem seu intento final. Uma delas é Gilda (Denise Fraga), uma professora que sofre de um câncer intratável e que não quer outra coisa do que uma morte indolor, enquanto ela ainda está de posse de suas faculdades.

Ela conhece um jovem, Amadeu (o ator português João Nunes Monteiro), um agente funerário que compartilha do mesmo desejo de morte e que, por vários motivos, se torna seu parceiro de aventuras inesperadas.

Há algumas reviravoltas no rumo dos dois, lembrando um filme inglês de 1971, Ensina-me a Viver, de Hal Ashby, que retratava o envolvimento entre um jovem obcecado com a morte (Bud Cort) e uma velhinha cheia de vida (Ruth Gordon), embora os personagens aqui sejam diferentes. Esta é uma das várias camadas de um filme que a alguns poderá parecer bizarro, com um toque de realismo mágico e que envereda por uma chave irônica não raro sombria - mas não deixa de suscitar discussões relevantes sobre a liberdade individual.

Coprodução com Portugal e Espanha, Sonhar com Leões extrai seu curioso título do livro O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e tem estreia nos cinemas brasileiros marcada para 11 de setembro.

Documentário sobre Cacá Diegues

Já exibido na seção Cannes Classics, em maio, Para Vigo me Voy, documentário de Lírio Ferreira e Karen Harley sobre Cacá Diegues (1940-2025), teve em Gramado sua première brasileira, abrindo a competição de documentários.

Muitas imagens do Cinema Novo, como seria de se esperar, percorrem as cenas do saboroso documentário, incorporando bastidores daquele movimento de renovação do cinema brasileiro nos anos 1960 que, como diz Cacá no filme a certa altura, queria mudar não só o Brasil, como o mundo. A garra, a ambição e a energia daquela geração que uniu Cacá, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros, realmente é um capítulo magistral, de curta duração, mas com efeitos indeléveis em tudo o que se seguiu.

Cacá aparece em imagens recentes, ao lado da mulher, a produtora Renata de Almeida Magalhães, e recebendo amigos em sua casa, num aniversário de seu casamento. Estava debilitado fisicamente mas mentalmente a energia e a memória continuavam a mil - como se vê quando ele refilma com Antonio Fagundes a cena final de Deus Ainda é Brasileiro, seu último longa, que deverá ser lançado nos cinemas nos próximos meses.

Várias outras preciosas imagens de arquivo o mostram jovem, em entrevistas, nos sets de filmagem e em suas várias batalhas ao longo da vida, como quando combateu o que chamou de “patrulhas ideológicas” - que era como ele classificava os intolerantes contra opiniões e posições alheias, cobrando uma uniformidade que ele rejeitava.

Como não poderia deixar de ser, o filme inclui diversas cenas dos muitos filmes de Cacá, começando por Bye Bye Brasil - de onde sai a referência do título do documentário -, passando por Os Herdeiros, A Grande Cidade, Tieta do Agreste, Chuvas de Verão, Deus é Brasileiro, O Grande Circo Místico, compondo um painel de uma obra incontornável. É um filme amoroso e também didático, no melhor sentido. Todo dia é dia de aprender a importância de Cacá e driblar a falta que ele, que partiu em fevereiro, já nos faz.

Crédito das imagens

Still: Divulgação
Felipe Rocha, Denise Fraga e o diretor Paolo Marinou-Blanco: Neusa Barbosa
Lírio Ferreira: Neusa Barbosa