05/06/2026

Melodrama "Querido Mundo" implode em tom maniqueísta

Gramado - Tanto como Veneza, de 2019, o novo filme de Miguel Falabella, Querido Mundo, parte de uma peça de teatro, esta última de sua autoria e Maria Carmen Barbosa. E, como no primeiro caso, a adaptação não encontrou um tom adequado na passagem para a tela.

Terceiro concorrente aos Kikitos, Querido Mundo tem como ponto forte uma dupla de bons atores, Malu Galli e Eduardo Moscovis - não fosse esse detalhe, aliás, ficaria bem mais difícil assistir ao filme. Filmado quase totalmente em branco-e-preto pelo veterano diretor de fotografia Gustavo Hadba, esse toque nostálgico contamina a história de um outro aspecto, este negativo, de enredo e tratamento datados, fora de época, não só de tempo e lugar.

Se na peça de 2008 se partia da explosão num apartamento que colocava dois desconhecidos em contato, aqui o roteiro, assinado por Falabella, desenvolve a história de Elsa (Malu Galli) e Oswaldo (Moscovis) numa primeira parte que se torna o principal problema do filme. Daniele Winits interpreta Odila, a mulher de Oswaldo, uma perua caricata e malvada que caberia em qualquer quadro humorístico popular de TV, com a desvantagem de não ter a menor graça. Ela existe apenas para dar o pontapé inicial no desmonte da vida de Oswaldo, um engenheiro caído em desgraça por episódios de depressão e por um acidente com uma ponte que, finalmente, é posto para fora de casa com a mulher.

Prédio em ruínas

O novo endereço dele é um apartamento num prédio não finalizado, cuja construção foi interrompida pela fuga de empreiteiros desonestos, que levaram todo o dinheiro dos compradores incautos, caso de Oswaldo. Ainda assim, ele decide ocupar sua unidade em escombros, uma decisão que pede uma suspensão de crença razoável - afinal, o engenheiro, mesmo afastado do trabalho, ainda não foi demitido e sim colocado em disponibilidade. Poderia muito bem habitar um pequeno hotel.

Deixando isto de lado, tem-se a história de Elsa, uma mulher simples, moradora de um sítio no interior, maltratada por um marido violento, Gilberto (Marcelo Novaes), um modelo de submissão e conformismo levado às últimas consequências. O casal acaba vindo também habitar um apartamento no prédio condenado, em que o único morador é Oswaldo, depois que Gilberto, intempestivamente, vende o sítio depois da queda da ponte, que matou suas vacas.

Uma coisa é comum aos personagens masculinos e femininos - são todos extremamente maniqueístas no desenho inicial e só mesmo algumas centelhas de sensibilidade depois de outro acidente, a explosão de um botijão de gás, e o talento de Malu e Moscovis conseguem extrair alguns momentos dignos de assistir. Há uma história de amor e resgate destes dois perdedores perdida nestes escombros que é o que realmente interessa, mas que o filme demora a delinear - e, quando chega lá, desperdiça muita energia com detalhes de gosto duvidoso, como a inclusão de um bacalhau, para chegar realmente a bom termo, quer dramático, quer cômico, quer romântico. Humor, quando existe, vai nessa linha, que pretende ser popular - na coletiva, Falabella disse que o bacalhau era uma “homenagem a Chacrinha” - mas restam dúvidas se combina com todo o resto.

Marcélia Cartaxo

Homenageada com o troféu Oscarito, que ela recebe na noite desta terça (19), a atriz Marcélia Cartaxo deu um show de autenticidade e ternura numa concorrida coletiva nesta tarde, no Recreio Gramadense. Recordando sua trajetória desde o sucesso inesperado de seu filme de estreia, A Hora da Estrela, que lhe deu o Urso de Prata em Berlim 40 anos atrás, Marcélia assinalou o quanto esta experiência inicial mudou completamente sua vida.

Nascida em Cajazeiras, interior da Paraíba, Marcélia iniciara uma carreira num grupo teatral que veio em turnê a São Paulo, sendo ali descoberta pela diretora Suzana Amaral. Este encontro acabou significando uma ruptura com toda a sua história até ali, abandonando a terra natal, a escola, a família e o grupo de teatro para abraçar aquela carreira que ela conduziu, com tanto talento e coragem, até aqui - e que lhe deu dois Kikitos (por Pacarrete, em 2019, e A Mãe, em 2022), além de diversos outros prêmios. Logo mais, em 4 de setembro, a atriz será vista nos cinemas como a protagonista de A Praia do Fim do Mundo, de Petrus Cariry, além da segunda temporada de Cangaço Novo, no streaming, prevista para o primeiro semestre de 2026.