Dois filmes norte-americanos fecham uma competição bastante indefinida
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 20/02/2026
- Tempo de leitura 10 minutos
Berlim - Chegou ao fim nesta manhã de hoje (20) a exibição dos últimos concorrentes ao Urso de Ouro - dois norte-americanos que vieram, cada um a seu modo, salvar a cara, artística pelo menos, do país hoje desgovernado por Donald Trump, depois do desastre que foi At The Sea, de Kornél Mundruczó, protagonizado por uma Amy Adams que parece não saber o que faz de sua carreira. As premiações serão conhecidas amanhã à noite.
O primeiro deles foi o documentário Yo (Love is a Rebellious Word), em que os diretores Anna Finch e Banker White compõem um retrato delicado em intenso, cheio de filigranas, de uma original protagonista, a suíça radicada nos EUA Yolande. Anna e Yolande foram amigas por 16 anos, vivendo numa cidade da Califórnia. Anna tinha 24 anos, Yo, 73, quando as duas se conheceram por acaso, num mercado, apenas para não se largarem mais, numa troca que a princípio pareceria improvável.
Yo era um espírito livre. que resistiu a muitas ondas de repressão, desde a familiar, a católica, a escolar e, mesmo depois de adulta, casada e mãe, manteve sempre um indomável espírito de liberdade. Não era de estranhar que sua morte, ocorrida aos 89 anos, abalasse profundamente Anna. O modo mais original que encontrou para preencher essa lacuna foi construir uma miniatura da casa de Yo, com a réplica de seus móveis e objetos, habitada por uma marionete idêntica à amiga.
Se parece bizarro à primeira vista, o fato é que esta casa em miniatura, para a qual colaboraram o companheiro de Anna, Banker White, e outros artistas, se transforma numa verdadeira homenagem, num objeto de memória e ritual onde os diretores mantêm viva a lembrança da amiga, também vista em diversas participações no documentário.
O fato é que Yo tornou-se uma das personagens mais marcantes do festival, ao lado de outro personagem idoso e inusitado, o blueseiro austríaco Al Cook, que é corpo e alma do filme The Loneliest Man in Town, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, que só não se chama documentário por poucos aspectos. O protagonista vive na tela realmente quem ele é na vida real, em seu próprio apartamento e com seu próprio figurino, como se se tratasse de um passageiro do tempo, congelado num passado ideal do qual ele nunca partiu. Ameaçado de despejo depois que seu prédio foi vendido para uma incorporadora, ele sonha finalmente viajar para o Delta do Mississippi, nos EUA, lugar de origem de seus ídolos musicais da vida toda.
Um toque de Brasil
Fechando a competição, impressionou o bom drama Josephine, dirigido pela sino-americana-brasileira Beth de Araújo. Nascida nos EUA, filha de mãe sino-americana e pai goiano, Beth realiza aqui seu segundo longa, com roteiro assinado por ela mesma e que venceu dois prêmios principais no Festival de Sundance: Grande Prêmio do Júri e Prêmio do Público.
A história, como ela contou na coletiva, baseia-se numa experiência que ela mesma viveu: quando criança, com 11 anos, estava com o pai quando presenciou uma tentativa de assalto sexual a uma mulher. Isto é o que acontece com a menina Josephine (a impressionante estreante Mason Reeves), de 8 anos, numa manhã em que ela estava num parque com o pai, Damien (Channing Tatum), mas, correndo, tinha se afastado dele.
O incidente traumático deflagra uma série de problemas para a menina, o pai e a mãe (Gemma Chan), permitindo ao filme elaborar temas, que vão da maturidade sexual à eclosão da violência infantil e as muitas formas como a sociedade e a justiça lidam com o estupro. É um filme bastante maduro e delicado e que consegue colocar a criança no centro da história de uma maneira contida e eficaz.
Se o Brasil não esteve com filmes na competição - comparecendo com 10 longas em diversas seções paralelas e competitivas com bastante expressividade -, a presença de Karim Aïnouz à frente de uma coprodução internacional brigando pelo Urso de Ouro, Rosebush Pruning, não passa despercebida. Quarta parceria do cineasta cearense com a diretora de fotografia francesa Hélène Louvart, o filme parte de uma vaga inspiração em De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio (1966) para compor um retrato visceral de uma família rica e incestuosa norte-americana, radicada na Espanha. Com um elenco estelar, composto por Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning, Elena Anaya, Pamela Anderson, Riley Keough e Tracey Letts, é um drama que finca as unhas na crueldade mas, inapelavelmente, dialoga com um exame das vísceras das dinastias do poder econômico do mundo.
Veja a entrevista que fiz com Karim Aïnouz em que ele discorre sobre os detalhes desta produção, que foi seu segundo filme internacional, falado em inglês.
México, Alemanha e Inglaterra
Solitário representante latino-americano na competição, o mexicano Moscas, de Fernando Eimbcke, delineia com dignidade o universo de três personagens, cujo despojamento a fotografia em preto-e-branco (de Maria Secco) acentua ainda mais. Olga (Teresita Sánchez) é uma aposentada que aluga um quarto para Tulio (Hugo Ramírez), um homem cuja mulher está em tratamento de câncer no hospital próximo. Para economizar o aluguel, ele esconde dela a presença do filho, o menino Cristian (Bastian Escobar), que entra escondido no apartamento, à noite.
A mentira, evidentemente, vai ser revelada, permitindo à história incorporar os reais motivos por trás da amargura de Olga, num drama que aponta para várias contradições da sociedade mexicana mas ao qual não escapam sutilezas de várias formas de solidariedade latino-americana que os brasileiros poderão facilmente compreender. Um drama simples, sincero e com qualidades.
Houve pratas da casa que se destacaram nas preferências para premiações, especialmente o drama de época alemão Rose, de Markus Schleinzer, em que a atriz Sandra Hüller mais uma vez comprovou a fibra de que é feita. Ela interpreta uma protagonista que se passa por homem, voltando da Guerra dos 30 Anos, no século XVII, e que vem reclamar a posse de uma herança, uma propriedade rural. Ela prospera e torna-se uma figura aceita na comunidade, mas vive um tipo de mentira difícil de sustentar, especialmente quando é confrontada com a obrigação de casar-se com a filha de outro fazendeiro (Caro Braun) - uma virada que permite ao filme discutir com muita potência questões sobre gênero e patriarcado num contexto conservador e religioso.
A diretora alemã Eva Trobisch apresentou seu terceiro longa, um drama familiar, Etwas Ganz Besonderes (Home Stories), bastante sólido, com muitas camadas, contrapondo os dilemas de várias gerações a partir de uma propriedade hoteleira na Turíngia, que fazia parte da Alemanha Oriental. É um filme que traz à tona diversas questões mal-resolvidas da unificação do país ao mesmo tempo que revela os dilemas existenciais tanto de jovens como Lea (Frida Hornemann), que disputa um lugar num show de talentos, como da avó, Christel (Rahel Ohm), que se sente sem lugar nesse mundo moderno. Não seria surpresa se também fosse lembrado nas premiações.
Uma outra alemã, a já conhecida Angela Schalenec, entregou mais um filme no seu estilo, cheio de rigor estético, em Meine Frau Weint (My Wife Cries) - que acompanha as crises de um grupo de personagens, a partir do casal Carla (Agathe Bonitzer) e Thomas (Vladimir Vulévic) e sua incapacidade de dialogar, por mais que falem. Um estilo parecido com o do casal de cineastas Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, ou seja, para poucos.
Se alguém mostra potencial para disputar uma premiação como melhor atriz a Sandra Hüller ela é Juliette Binoche, estrela absoluta do filme britânico-americano Queen at Sea, de Lance Hammer. Vivendo Amanda, a filha que disputa com o padrasto, Martin (Tom Courtenay), o que é melhor para sua mãe sofrendo de Alzheimer (Anna Calder-Marshall), Binoche dá seu máximo numa história com muitas nuances dramáticas exasperantes - e, de quebra, faz um dueto belíssimo com o veterano Courtenay.
Turquia no horizonte
A presença da Turquia se fez sentir em outros dois dramas de peso. Um deles, assinado pelo turco-alemão ìlker Çatak, Gelbe Briefe (Yellow Letters), em que desenvolve uma ácida crítica à falta de liberdade política na Turquia a partir da perseguição que se estabelece a um casal de artistas, a atriz Derya (Özgü Namal) e seu marido, o dramaturgo e professor Aziz (Tansu Biçer).
O diretor turco Emin Alper, por sua vez, voltou-se ao passado recente, focalizando no potente drama Kurtulus a infindável guerra entre dois clãs curdos, movida pelas diferenças no apoio dos clãs ou ao governo e ou aos grupos separatistas - o que gera uma sangrenta e primal luta pela terra e prepara um massacre, num processo impregnado de religiosidade fanática.
África presente
Três títulos do continente africano trouxeram respiro de temática e forma à competição. Um deles foi Dao, do franco-senegalês Alain Gomis, em que o apagamento das fronteiras entre ficção e documentário sustenta o interesse de uma obra filmada na Guiné Bissau que transmite muita energia criadora - embora se ressinta de uma certa duração.
Outro representante veio do Chade: o cineasta Mahamat-Saleh Haroun (conhecido por O Homem que Grita) apresentou Soumsoum, La Nuit des Astres, em que alinha o protagonismo de duas mulheres, a jovem Kellou (Maïmona Miawama) e a madura Aya (Achouak Abachar Souleymane), criando entre as duas uma aliança que desafia preceitos milenares e questiona sua exclusão como bruxas numa pequena comunidade rural.
Já o tunisiano À Voix Basse, de Leyla Bouzid, mostrou seu interesse em colocar em destaque a questão da homossexualidade na sociedade muçulmana, a partir da volta para casa de uma jovem, Lilia (Eya Bouteraa), que vive na França e descobre segredos de sua família quando vem para o enterro de um tio.
Atores
Exibido no começo do festival, o britânico Everybody Digs Bill Evans, de Grant Gee - outra produção em preto-e-branco - tem uma grande força na interpretação do ator norueguês Anders Danielsen Lie como o músico Bill Evans num momento crítico de sua vida.
Numa outra chave, mais sutil e despojada, joga o búlgaro Galin Stoev, protagonista do drama Nina Roza, ambientado no universo da arte e da possibilidade de uma falsificação.
As decepções
Fora o desastre At the Sea, também decepcionaram a animação japonesa A New Dawn, de Yoshitoshi Shinomiya - que vai mais ou menos bem na técnica mas tem um roteiro altamente confuso; We are All Strangers, o drama coral de Anthony Chen em Cingapura; o terror finlandês Yön Lapsi, de Hanna Berghaim; o convencional faroeste australiano Wolfram, de Warwick Thornton; e o frio drama belga Dust, de Anke Blondé.
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