Brasileiros brilham nas seções paralelas e Juliette Binoche ilumina a competição
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 18/02/2026
- Tempo de leitura 6 minutos
Berlim - A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário de Eliza Capai, abriu a seção Generation Kplus com a vibração de uma geração de meninas de Guariba (PI) que viveram transformações (Veja entrevista com a diretora).
Moradoras de uma cidade que foi adotada como modelo de políticas públicas como o Fome Zero e o Bolsa Família, as pré-adolescentes protagonistas vivem na tela uma transição que lhes permitiu ultrapassar a expectativa de apenas uma superação da fome para uma vida em que alimentação adequada, saúde e educação permitem que elas exercitem capacidades como da criatividade, da imaginação, que as conduz a indagar sobre a realidade vivida e fabular o futuro.
As meninas vieram a Berlim, onde, segundo a diretora, foi a primeira vez que entraram num avião e também num cinema.
Curiosas e muito inteligentes, no filme elas interrogam suas mães, que vieram de uma realidade bem diferente, sobre temas como o casamento e a morte, propiciando um retrato matizado de uma adolescência feminina que desafia os modelos da tradição, em termos pessoais e profissionais, ainda que as religiões cristãs que avançam sobre aquela região tentem oferecer um freio a todo esse processo.
Além de prêmios na própria seção, o filme concorre também como documentário.
Um bar de vinhos em SP
Marina Person estrela e assina a co-autoria do roteiro de Isabel, outro filme brasileiro, na seção Panorama, vivendo uma sommelière paulistana que sonha deixar de lado um trabalho frustrante num restaurante fino e abrir seu próprio bar de vinhos.
Atriz e diretora de filmes como o curta Almoço Executivo (1996) e o longa Califórnia (2015), Marina atua numa chave espontânea e sutil para encarnar essa mulher trabalhadora, de classe média, circulando por uma São Paulo mais acolhedora e diversa, longe da Faria Lima e dos Jardins.
Nas entrevistas exclusivas, que me concederam em Berlim, a atriz e o corroteirista Caio Horowitz e o diretor Gabe Klinger explicaram suas intenções em mostrar essa São Paulo longe dos arranha-céus e desafiando o conceito-padrão dos europeus, que costumam considerar que o vinho é um território que lhes pertence mais do que aos outros continentes.
Um casal e o espaço
Outro filme brasileiro na Panorama foi o novo longa do premiado cineasta mineiro André Novais Oliveira, Se Eu Fosse Vivo… Vivia, que marca a estreia da celebrada escritora mineira Conceição Evaristo como atriz. Ela interpreta Jacira, mulher que há 50 anos se casou com Gilberto (Norberto Novais Oliveira), vivendo uma intimidade agora assombrada pela dúvida dela: “Com quem você vai ficar se eu morrer?”. Gilberto se recusa a embarcar nessa angústia, preferindo entreter-se com as revistas sobre ufos e alienígenas - um detalhe que vai fazer sentido no resto da história, sobre a qual é fundamental não dar spoilers. André Novais também me concedeu entrevista exclusiva em Berlim, explicando que seu gatilho inicial para escrever esta história foi a morte de sua mãe, Maria José, que atuava em seus filmes. Norberto, seu pai, é o protagonista neste novo filme.
Competição
Dois filmes tendo “mar” no título e estrelados por grandes atrizes internacionais tiveram trajetórias totalmente opostas na competição pelo Urso de Ouro.
O bom exemplo veio da produção britânica Queen at Sea, estrelado pela atriz francesa Juliette Binoche e dirigido pelo norte-americano Lance Hammer, que assina o roteiro. É um drama sobre demência senil, mas tem o diferencial de discutir a sexualidade nessa situação. Um episódio nessa delicada esfera opõe Amanda (Juliette), filha da idosa Leslie (Anna Calder-Marshall), e seu padrasto, Martin (Tom Courtenay).
A filha julga que Leslie, sofrendo de demência, está sendo sexualmente abusada pelo parceiro, seu marido há 18 anos, e faz uma denúncia à polícia. A situação deflagra uma série de incômodos, que contrapõem Amanda e o padrasto. Paralelamente, a jovem adolescente Sara (Florence Hunt), filha única de Amanda, está experimentando a passagem à vida adulta, com a descoberta do sexo.
Com mão segura, o diretor coloca em paralelo estas diferentes fases da vida, com Amanda, na meia-idade, dividida entre um e outro cuidado. Um filme sólido em que Binoche, mais uma vez, brilha. Mas o veterano Tom Courtenay não lhe fica atrás.
Bem ao contrário, outro drama, o húngaro/norte-americano At the Sea, dirigido pelo húngaro Kornél Mundruczó (Deus Branco), decepcionou enormemente, mesmo contando com uma atriz qualificada como Amy Adams no papel principal. Ela vive Laura, uma famosa bailarina e diretora de companhia de dança que sai da clínica de reabilitação, onde foi curar-se do alcoolismo. Nesse retorno, ela deve reintegrar-se na vida da família, que ficou a cargo do marido Martin (Murray Bartlett), cuidando dos dois filhos do casal, a adolescente Josie (Chloe East) e o menino Felix (Redding L. Munsell).
Os perrengues de Laura se sucedem num ritmo de novelão, arrastando consigo o interesse pelo filme, que se perde nas inúmeras curvas de uma história confusa e mirabolante.
Faroeste australiano
A Austrália entrou na disputa do Urso de Ouro com um faroeste, Wolfram, dirigido por Warwick Thornton. Trata-se da sequência do premiado Sweet Country (2017), mantendo o mesmo cenário e vários personagens.
É uma história de sobrevivência e luta no vasto e seco interior do país, onde vários homens tentam enriquecer com mineração - uma atividade dura e perigosa, na qual são empregadas crianças, especialmente as aborígenes, traduzindo um universo de brutalidade e exploração colonial, em meados da década de 1930.
As mulheres aborígenes, especialmente, são objeto de abuso, como é o caso de Pansy (Deborah Mailman), que fugiu de um antigo abusador, com quem teve dois filhos, para tentar a sorte em Queensland, ao lado de um imigrante chinês, Shi (Ferdinand Hoang). Ela pensa em retornar mais tarde para recuperar as duas crianças, que viverão uma série de aventuras e encontrarão um protetor em um jovem mestiço, Philomac (Pedrea Jackson) - que é filho de um proprietário branco, Kennedy (Thomas M. Wright) que, no entanto, o trata como um servo.
Dois forasteiros que aparecem para estabelecer-se ali, Casey (Erroll Shand) e Frank (Joe Bird), aumentam a cota de crueldade, pelo imenso racismo, numa terra em que a lei mora longe e só leva em conta os brancos.
O filme segue a fórmula-padrão dos faroestes, com seus vilões e heróis, preparando vinganças em nome dos oprimidos que, no caso, são os donos originais da terra. Ou seja, um tom bem apropriado à sensibilidade moderna sobre estes temas, bem filmado, mas nada excepcional em relação ao gênero, exceto por sua localização geográfica.
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