04/06/2026

Grace Passô marca presença em Berlim com primeiro longa solo

Berlim - Se a temperatura baixou de 7 para 1 ou 2 graus negativos, com direito a uma nevezinha eventual, esquentou bastante a expectativa com os filmes brasileiros que começam a ser exibidos em várias mostras do Festival de Berlim.

Alguns dos maiores artistas do Brasil contemporâneo participam da fatura de Nosso Segredo (veja o trailer), primeiro longa solo da atriz e dramaturga mineira Grace Passô, atração da mostra Perspectivas, que alinha filmes de exigência de linguagem e conteúdo.

Como em sua estreia no cinema, em que dividiu a direção com Ricardo Alves Jr., Vaga Carne (2020), Grace partiu de um texto teatral, no caso, Amores Surdos, também de autoria dela.

Ela parte daí para compor a história de uma família negra assombrada pelo luto da morte do pai (Nanego Lira), vivendo numa casa em que os integrantes têm dificuldades de se conectar e o medo mora, literalmente, no andar de cima – depois de uma escada que todos temem subir e de onde emergem misteriosos sons selvagens.

Atriz de filmes como Praça Paris, No Coração do Mundo, O Dia que te Conheci, Temporada e O Filho de Mil Homens, Grace entregou um filme denso, carregado de simbologia e capaz de gerar muitos debates. No elenco, Ju Colombo, Roberto Franco, Efraim Santos, Flip, Jéssica Gaspar e Juan Queiroz. A música é assinada por ninguém menos do que Amaro Freitas, um de nossos maiores pianistas e compositores contemporâneos. Coisa fina em todos os aspectos.

Competição

Assinado pelo cineasta turco-alemão Ílker Çatab (A Sala dos Professores), o drama Gelbe Briefe (Yellow Letters), relaciona diversos aspectos da vida da Turquia para compor uma crítica ao autoritarismo, à censura e ao lawfare lançado sobre setores questionadores do regime - sem que seja necessário mencionar explicitamente o presidente Recep Tayyip Erdogan, homem forte do governo.

No centro do enredo está a crise de uma família de intelectuais, formada pela atriz Derya (Özgü Namal), o dramaturgo e professor universitário Aziz (Tansy Biçer) e sua filha Ezgi (Leyla Smyrna Cabas).

Derya, uma atriz consagrada, atuando em peças escritas e dirigidas pelo marido, cai em desgraça por críticas ao regime em suas redes pessoais - especialmente depois de ter evitado tirar uma fotografia ao lado de um ministro do governo que viera assistir à sua peça. Aziz e outros colegas são sumariamente despedidos da universidade por outras críticas e também por supostamente estimularem seus alunos a participar dos protestos que lotam as ruas de Ancara (no filme, representada por Berlim).

A peça em que atuava Derya é suspensa, apesar do sucesso, e o casal acaba forçado a um refúgio temporário na casa da mãe dele, em Istambul (Hamburgo, no filme).

Muito falado, o filme é agudo em sua crítica à falta de liberdade de expressão que se abate sobremaneira sobre os artistas e intelectuais, cobrando um peso econômico e emocional para a família - em que começam a dividir-se as lealdades e preocupações sobre como manter-se fiel aos próprios ideais e como encontrar uma forma de sobrevivência estável, que no caso de Derya pode ser atuar em uma novela de televisão numa emissora que costuma criticar os artistas dissidentes.

Para Aziz, a sobrevivência passa a depender de bicos, como traduções, e de um trabalho como taxista, arranjado pelo irmão fundamentalista de Derya. E sobre Aziz pesa ainda a pressão de um processo que pode levá-lo à cadeia, por suposta campanha contra o regime. Com viés realista, Gelbe Briefe é o tipo de filme de denúncia política que se fazia nos anos 1960, valorizada por atuações convincentes e um clima de thriller.

Homossexualidade proibida

O drama franco-tunisiano À Voix Basse, da diretora Leyla Bouzid, igualmente assume um tom de denúncia, neste contexto, sobre a repressão, inclusive legal, à homossexualidade naquele país muçulmano. Vivendo há anos na França, a jovem Lilia (Eya Bouteraa) retorna a Túnis para o enterro de um tio. Ela pensava em apresentar à família sua namorada Alice (Marion Barbeau), mas decide deixá-la num hotel enquanto procura uma oportunidade.

Além da incompatibilidade das duas agendas, Lilia descobre algum mal-estar na família por conta da morte repentina do tio - encontrado morto nu, aparentemente de ataque cardíaco. O incidente desenterra os eternos rumores sobre a homossexualidade deste tio, algo sempre sabido, mas mal-resolvido no núcleo familiar, especialmente por conta da resistência da avó.

Neste contexto, Lilia resolve investigar detalhes da morte do tio, a quem ela era muito afeiçoada quando criança, o que gera oposição de sua própria mãe, irmã dele, a médica Wahida (Hiam Abbas).

Relevante como é sobre o tema, o filme de Bouzid escorrega por algumas soluções formulaicas e tom eventualmente didático, desperdiçando às vezes a energia de sua protagonista. Hiam Abbas, por sua vez, fica um tanto apagada num papel secundário mal-definido, que não permite à veterana atriz o brilho de tantos de seus trabalhos anteriores, como O Limoeiro e A Noiva Síria.