Competição em Berlim focaliza ficção estilosa sobre jazzista Bill Evans
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 13/02/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Berlim - A competição pelo Urso de Ouro disparou nesta quinta (12) e sexta (13), trazendo obras diversificadas em estilo e propostas.
Uma delas é Everybody Digs Bill Evans, do diretor britânico Grant Gee, uma narrativa encharcada de jazz que mergulha num episódio real da vida do pianista Bill Evans (interpretado pelo ator norueguês Anders Danielson Lie) e com uma fotografia trabalhada num grau extremo de sofisticação, assinada por Piers McGrail.
O ano é 1961. Evans e seu trio gravam dois álbuns em New York que serão considerados no futuro como alguns dos maiores lançamentos do jazz de todos os tempos. Mas, alguns dias depois, o baixista Scott LaFaro, alma gêmea de Evans, morre tragicamente num acidente de automóvel. Evans entra em depressão e interrompe a carreira.
O filme se debruça nesse hiato em que o grande pianista sai do circuito artístico e se abandona à solidão - e ao vício em heroína. Mas sua família vem resgatá-lo. Primeiro o irmão mais velho, Harry (Barry Ward), que o abriga temporariamente em sua casa, depois seus pais, Harry (Bill Pullman) e Mary (Laurie Metcalf), aposentados na Flórida.
O grande desafio da história é falar de um músico que se recusa a tocar, abalado pela dor de ter perdido um parceiro com quem se entendia pelo olhar - embora o relacionamento pessoal dos dois fosse conturbado. Indo adiante e atrás no tempo, o filme narra também o envolvimento atribulado de Evans com Elaine (Valene Kane).
Afinal, trata-se de um ensaio de cinebiografia que não pretende ser literal nem completo nem totalmente fiel aos fatos - como se avisa desde os letreiros iniciais. O foco está mais na gênese da criação artística a partir da experiência de um período da vida de um imenso criador, sem querer com isso jamais deixar de humanizá-lo.
Ator refinado, Danielson Lie, também produtor executivo do filme, explora as muitas nuances da fragilidade e da delicadeza de seu protagonista, que se expõe com muita verdade em suas interações com seus familiares. O segmento em que ele permanece com os pais é nada menos do que sublime. Poucas vezes se terá visto Bill Pullman tão expressivo quanto aqui, ao lado de uma Laurie Metcalf que não lhe fica atrás como a mãe compreensiva e esperta.
É dessa mãe, aliás, a frase que define a história: a interrupção, às vezes, também faz parte da música.
Por todas essas camadas que o filme traz, pode-se lembrar de outras histórias ficcionais de fôlego sobre e com jazzistas - caso de Bird (1988), de Clint Eastwood, e Round Midnight (1986), de Bertrand Tavernier, que incluía no elenco músicos como Dexter Gordon e Herbie Hancock.
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