05/06/2026

Soderbergh emociona com John Lennon enquanto competição encara temas sensíveis

Cannes - O primeiro sábado do festival (16) trouxe a boa notícia da volta do sol, esquentando uma primavera até aqui com cara de inverno, dois competidores com temas fortes e o documentário John Lennon, the Last Interview, dirigida por Steven Soderbergh, fora de competição e em première mundial.

A primeira sessão deste documentário, pela manhã, foi também luminosa, trazendo, pela primeira vez, a versão integral de uma entrevista, concedida por Lennon e Yoko Ono, a uma rádio, no fatídico 8 de dezembro de 1980. Horas depois de ter aberto seu coração aos três radialistas (Laurie Kaye, Dave Shaolin e Bert Keane), falando de paterrnidade, de sua relação com Yoko e as mulheres, de seu amadurecimento e engajamento social, ele seria assassinado, na porta do edifício Dakota, em Nova York.

Fora o áudio desta entrevista histórica, Soderbergh vale-se de ricos materiais de arquivo, especialmente fotos, alguns vídeos e também imagens IA, fruto de sua parceria tecnológica com a Meta, usadas pelo diretor para ilustrar declarações e eventos que foram objeto desta riquíssima conversa - que, acompanhada de uma série de músicas, especialmente do álbum Double Fantasy, que o casal lançava naquele ano, emocionam até a medula, até os créditos finais.

Idosos e capitalismo

O celebrado diretor e roteirista japonês Ryusuke Yamaguchi enveredou por temas como a urgência de um cuidado mais humanizado de idosos e os males do capitalismo no mundo moderno para construir Soudain (All of a Sudden), segundo concorrente japonês à Palma de Ouro e primeiro filme do diretor falado em francês (em parte). O roteiro, assinado por ele e Léa Le Dimna, inspira-se em parte em livro não-ficcional de Makiko Miyano e Maho Isono.

Com uma narrativa consideravelmente mais esticada do que o seu primoroso Drive my Car, Yamaguchi constroi sua história em torno da diretora de um centro de cuidado a idosos, Mary-Lou (a excelente Virginie Efira, falando japonês em longos trechos do filme), que procura difundir um método definido como “humanitude”, que busca um manejo mais delicado e estimulante das necessidades dos residentes na instituição.

Ela encontra uma alma gêmea numa diretora japonesa de teatro, Mari (Tao Okamoto), de quem assistiu uma peça de teatro, depois de tê-la conhecido por acaso. Mari sofre de um câncer terminal, mas é uma pessoa cheia de energia, formando com Mary-Lou uma parceria entre culturas diferentes que é um dos prazeres do filme - que é um tanto hesitante em sua primeira metade, toma embocadura na segunda, mas estende-se excessivamente, em 3h16.

Pedofilia online

O novo filme da austríaca Marie Kreutzer (Corsage), Gentle Monster, foi outro concorrente que adentrou um tema incômodo. Lucy (Léa Seydoux) é uma música de vanguarda, que é abalada pela acusação de difusão de pedofilia online a seu marido, Philip (Laurence Rupp).

A diretora apropria-se da ambiguidade da situação, já que há uma investigação em curso, para tornar Léa Seydoux o centro de sua narrativa, espelhando-se numa outra personagem, a policial Elsa Kühn (Jella Haase), que conduz o inquérito - e tem seus próprios motivos para seu interesse nesta área criminal.

Kreutzer mantém um bom controle dos eixos dramáticos, no qual serão incluídos o filho do casal, Johnny (Malo Blanchett), os pais de Philip e também a mãe de Lucy, interpretada por Catherine Deneuve, em outra de suas participações de luxo neste festival ( a outra foi no concorrente franco-iraniano Contos Paralelos, de Asghar Farhadi).

Enfim, foi uma jornada em que a seleção de Cannes mostrou-se aberta a temas que sacodem o mundo atual. Mas não surgiu ainda nenhum filme com cara tão definida de Palma de Ouro. Aguardemos, porque muita coisa está por vir: Hirokazu Kore-Eda, Pedro Almodóvar e outros vêm aí.