05/06/2026

Cannes abre 79ª edição com homenagem, clássico e humor

Cannes - Mantendo uma tradição recente, o 79º Festival de Cannes lançou seu primeiro dia com a exibição de um clássico e também de um filme recente francês. No primeiro caso, a cópia restaurada da fábula política O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, completando 20 anos, no segundo, a comédia dramática La Vénus Électrique, de Pierre Salvadori, fora de competição.

Foram duas exibições festivas e de alto astral. No caso de O Labirinto do Fauno (foto ao lado), numa sala lotadíssima, o Théâtre Claude Debussy, em que boa parte da plateia, jovem, assistia ao filme pela primeira vez, descobrindo todo o encantamento de um filme que não perdeu sua atualidade - isso até num sentido inquietante, já que a história se passa na Espanha de 1944, onde, depois da vitória do golpe militar franquista, a população sofre os horrores do fascismo, representado na tela pelo militar sanguinário vivido por Sérgi López.

Vinte anos depois, pode-se admirar a precisão com que Del Toro alinha o realismo mais cru à fantasia mais desvairada, traduzida pela imaginação da menina Ofélia (Ivana Baquero), contrapondo com seu diálogo com fadas e faunos a crueldade da opressão fascista, inclusive em sua própria família. Para o bem, pelo primor de sua realização, e para o mal, pela reincidência do autoritarismo no mundo atual, como lembrou Del Toro na sessão de ontem, o filme continua atualíssmo.

Romance do outro mundo

Surpreendeu, no bom sentido, o filme de abertura, a comédia dramática francesa La Vénus Électrique (foto ao lado), de Pierre Salvadori. Tem um toque de fantasia também esta história, ambientada em 1928, do pintor viúvo Antonio Balestro (Pio Marmaï) que, inconsolável, cai no esquema de uma suposta médium de circo, Suzanne (Anaïs Demoustier).

No desenvolvimento desta comédia de erros, Suzanne se passa por Claudia, a vidente verdadeira do circo, quando na verdade ela é a Vênus Elétrica, ou seja, uma musa cujo beijo desencadeia cargas elétricas - ajudado por uma traquitana nos bastidores do circo.
Nessa função, finge incorporar o fantasma da falecida mulher de Antonio, Irene (Vimala Pons).

Com um toque de nostalgia que tira partido de sua época, o enredo incorpora também o tempero da traição e do romance, a partir do envolvimento também do marchand Armand (Gilles Lellouche), que estimula a treta da falsa médium,
interessado em que Antonio volte a pintar e a render-lhe lucros. Mas não falta também o gatilho de um romance verdadeiro entre Antonio e Suzanne, compondo um filme agradável de ver e bem divertido - ao contrário dos filmes de abertura de Cannes dos últimos anos, como o tedioso O Segredo da Chef, de Amélie Bonnin, e a xaroposa produção de época A Favorita do Rei, de Maiwenn. Se a intenção era abrir o festival numa nota leve e divertida, desta vez a seleção do festival acertou.

Homenagens

No mais, a cerimônia de abertura que precedeu a exibição de La Vénus Éléctrique, foi solene e um bocado longa. A mestre de cerimônias deste ano, a atriz francesa Eye Haïdara, mostrou-se carismática, apresentando os membros do júri, presidido pelo cineasta sul-coreano Park Chan Wook - que, fazendo seu discurso em seu idioma, viu com ligeira perplexidade a tradução ser transmitida nos alto-falantes do Grand Théâtre Lumière, dificultando que fosse ouvida por todos.

O homenageado da noite foi o cineasta neozelandês Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro hononária das mãos do ator Elijah Wood, que atuou com ele na trilogia O Senhor dos Anéis. Bem-humorado, Jackson disse que não esperava nunca receber uma Palma de Ouro, porque “não faz filmes com perfil de Palma de Ouro”. Ironizando mais, disse que aceitava este prêmio agora como “compensação" por não terem lhe dado a Palma na primeira vez que esteve na Croisette, com seu filme Trash - Náusea Total (Bad Taste) - uma comédia de horror trash de 1987.