Cannes fecha suas apostas à espera da Palma
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 23/05/2026
- Tempo de leitura 7 minutos
Cannes - O festival terminou com a passagem dos dois últimos concorrentes à Palma, dirigidos por duas diretoras - Das Getraumete Abenteuer (The Dreamed Adventure), da alemã Valeska Grisebach, um drama sobre máfias filmado na fronteira entre Bulgária e Turquia, e o terror psicológico
Histoires de la Nuit, da francesa Léa Mysius - que não parecem, no entanto, ter mudado o rumo das apostas de premiação.
Na seção Un Certain Regard, Elefantes na Névoa, uma coprodução nepalense que inclui o Brasil, ganhou o Prêmio do Júri. Um dia antes, já tinha vencido o prêmio Melhor Criação Sonora. A premiação principal, que inclui a Palma de Ouro, será divulgada hoje (23) à noite.
Esquadra espanhola
Continuam fortíssimos no alto das apostas os dramas espanhóis El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, e La Bola Negra (foto acima), em que a dupla conhecida como Os Javi - Javier Calvo e Javier Ambrossi - causou um forte impacto. Curiosamente, ambos os títulos impressionaram bem mais do que o veterano e consagrado Pedro Almodóvar com seu Natal Amargo, que estreia dia 28 no Brasil, e entrega um relato elegante e metalinguístico sobre o bloqueio criativo de um roteirista (Leonardo Sbaraglia), às voltas com os dilemas de seus personagens, criados a partir de pessoas de seu convívio. É um filme tecnicamente muito bem-feito, que tem a marca de Almodóvar, mas não empolga tanto como suas obras anteriores, exprimindo uma fase da carreira do realizador em que ele parece mais cerebral do que apaixonado.
Muito mais calientes se mostram seus compatriotas. Sorogoyen, com um relato de uma crise familiar entre um pai cineasta (Javier Bardem no auge da forma) e uma filha que ele abandonou (Victoria Luengo) que incorpora também um toque metalinguístico ao ambientar-se na rodagem de um filme. E os Javi com uma narrativa que se passa em várias épocas, entrelaçando destinos de alguns homens, com um pé na Guerra Civil Espanhola e um núcleo que gira em torno de uma obra inconclusa de Federico García Lorca. Dois filmes magníficos, que merecem a Palma ou outros prêmios.
Quinteto francês
No entanto, é difícil acreditar que nenhum dos cinco concorrentes franceses leve alguma premiação. O melhor de todos é certamente Notre Salut (foto ao lado), em que Emmanuel Barre mergulha na figura de um bisavô seu para criar um retrato da França colaboracionista de Vichy, sintetizada no protagonista vivido por Swann Arlaud - o protótipo do burocrata que, nos bastidores, mantém o funcionamento uma máquina de guerra e genocídio, um símbolo preciso do que a fiósofa Hannah Arendt chamava de “a banalidade do mal”.
Em La Vie d’Une Femme, de Charline Bourgeois-Tacquet, o grande destaque é a interpretação magnética de Léa Drucker, mais uma vez, suprema e forte candidata a um prêmio de atriz, que parece menos provável para Adéle Exarchopoulos como a jovem alcoólatra que protagoniza o drama mediano
Garance, de Jeanne Henry.
Léa Seydoux é outra que poderia ser lembrada para um prêmio de atuação feminina, menos por seu papel sofrido em L’Inconnue, de Arthur Harari, um dos títulos mais desastrosos da seleção, e mais por Gentle Monster, drama da diretora austríaca Marie Kreutzer em que Léa interpreta uma mulher dividida pela suspeita de pedofilia contra seu marido.
Outro desastre foi o último filme exibido na seleção, Histoires de la Nuit, em que a diretora e roteirista Léa Mysius se apropria de todos os clichês possíveis do gênero de terror psicológico, sem acrescentar nada de novo, compondo um espetáculo sádico com seu espectador.
Vozes do Oriente
Com três concorrentes à Palma, o Japão escalou um time com dois craques, pelo menos: Hirokazu Kore-Eda, vencedor de vários prêmios em Cannes e trazendo agora uma reflexão sobre a tecnologia, o IA e a família em Sheep in the Box (foto ao lado), e que provavelmente é o melhor dos três; e o premiado Ryusuke Hamaguchi, com seu drama Soudain/All of a Sudden, seu primeiro filme parcialmente falado em francês e onde ele não encontra a mágica narrativa de seus filmes anteriores, Drive My Car e O Mal Não Existe - mas ele dividiu bem as opiniões, neste relato sobre o trato humanizado dos idosos e a iminência da morte, num filme em que a francesa Virginie Efira atua muito bem, inclusive falando japonês.
O terceiro nipônico, Koji Okada, que abriu a competição com Nagi Notes, relata o reencontro entre duas mulheres, uma arquiteta e uma artista e fazendeira, sua ex-cunhada, num enredo que toca a homossexualidade, também envolvendo dois adolescentes. Mas obtém um resultado bastante modesto.
De início correndo por fora, o concorrente sul-coreano Hope, de Na Hong-jin, foi o choque da seleção, com o impacto visual, a adrenalina e a sátira de seu apocalipse alienígena levando a cogitar algum prêmio importante, tendo em vista a presidência do júri pelo compatriota Park Chan-wook.
Diretores de peso, atores de brilho
Num outro bloco, diretores já reconhecidos apresentaram trabalhos dignos de nota e de prêmios - como direção, roteiro e também para seus atores. Um deles foi o drama histórico Moulin, em que o cineasta húingaro László Nemes revisita a história do mais famoso líder da Resistência francesa, Jean Moulin, interpretado com brio pelo francês Gilles Lellouche, num filme cuja temática dialoga com Notre Salut.
Foi muito celebrada a volta do russo Andrei Zvyagintsev à cena, com o potente drama político Minotaur (foto ao lado), filmado na Letônia devido à dissidência do diretor com o governo Vladimir Putin, e que poderia muito bem colher alguma premiação importante.
Da mesma forma, o polonês Pawel Pawlikowski impressionou muito bem com seu drama histórico pós-II Guerra, Fatherland (que no Brasil se chamará A Terra do Meu Pai). Em apenas 82 minutos, o diretor de Ida e Guerra Fria constrói um relato poderoso , filmado em preto-e-branco mais uma vez, sobre os fantasmas do conflito revividos na volta do escritor Thomas Mann (Hanns Zischler) à Alemanha, acompanhado de sua filha (a sempre sublime Sandra Hüller).
Fjord (foto ao lado), do romeno Cristian Mungiu, não deve ser desprezado como possibilidade de roteiro, por exemplo, em sua firme narrativa sobre as contradições do enfrentamento entre fanatismo religioso e atuação estatal na proteção a crianças, tendo ao centro uma família romena na Noruega.
Coward, do belga Lukas Dhont, é um relato de extrema beleza sobre o amor clandestino entre dois jovens soldados na I Guerra Mundial (Emmanuel Macchia e Valentin Campagne), num filme que, como The Man I Love, do norte-americano Ira Sachs, aborda a homossexualidade - aqui, nos tempos da explosão da AIDS nos anos 1980. Mas nenhum dos dois está no alto das apostas de prêmios.
A atuação de Miles Teller e Scarlett Johansson é o que de melhor trouxe o drama do norte-americano James Gray, Paper Tiger, que certamente comprou com sua passagem ao Oscar 2027 com sua vinda a Cannes. Parece menos provável uma premiação do cineasta iraniano Asghar Farhadi, que decepcionou com seu irregular Histoires Paralléles (Contos Paralelos), apesar do elenco estelar francês, frequentado por Isabelle Huppert, Catherine Deneuve, Vincent Cassel e Virginie Efira.
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