Filmes reveem ditadura argentina, o projeto colonial e o sentido da vida segundo Hamaguchi
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 21/10/2026
- Tempo de leitura 15 minutos
Exibida em Veneza, a co-produção entre Brasil e Itália, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis, revê o passado da ditadura argentina a partir da trajetória de um ex-preso político (Adriano Giannini). De Cannes, vêm o melodrama O Sentido da Vida, de Ryusuke Hamaguchi, vencedor de um duplo prêmio para as atrizes Virginie Efira e Tao Okamoto. E o projeto colonial é desconstruído pelo vigoroso documentário de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, O Projeto.
Retorno a Buenos Aires
Concorrente que fechou a competição ao Leão de Ouro em Veneza, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis, é uma coprodução entre Brasil e Itália, colocando no centro de sua contundente narrativa as memórias dolorosas, os ajustes de contas e as culpas dos sobreviventes das ditaduras militares do continente sul-americano.
É a segunda vez que Bechis concorreu ao Leão de Ouro. Na primeira vez, em 2008, competiu com outra coprodução com o Brasil, Terra Vermelha, que focalizava a luta dos indígenas guaranis no Mato Grosso do Sul.
Se a história concreta deste novo filme se passa em Buenos Aires, como informa o título, os acontecimentos que a povoam ocuparam a história recente vários países do continente: a própria Argentina, o Chile (país natal do diretor Marco Bechis), o Uruguai e também o Brasil. Bechis, que viveu na pele a repressão política daqueles dias e já transformou sua vivência em filmes como o premiado Garagem Olimpo (1999), volta mais uma vez a um tema incontornável e necessário, especialmente diante das tentativas de apagamento desse período sombrio da história.
O protagonista é Mariano Guerra (o ator italiano Adriano Giannini), um homem solitário e amargurado que se esconde das memórias dolorosas de juventude morando em Turim. O passado o assalta novamente quando é convocado como testemunha num processo que se desenrola em Buenos Aires, em 2008, em que seu depoimento é essencial para a condenação de um grupo de militares envolvidos com a guerra suja. Mariano resiste muito a essa volta, atormentado pela possibilidade de ressuscitar fantasmas que nunca cessaram de assombrá-lo.
É notável a perícia de Bechis, aqui também corroteiriista ao lado de Vijaya Bechis Boll, no controle do tempo e do ritmo desse percurso interior do personagem, revisitando um passado que continua vivo dentro dele, por razões que só serão compartilhadas com o público aos poucos, no devido tempo.
Essas lembranças trazem de volta um período em que Mariano, estudante de medicina conhecido pelo apelido de Tano, militava na oposição ao regime militar argentino, o que o levou a sofrer dois anos e 46 dias de prisão no pesadelo da Garagem Olimpo - um grande galpão, transformado em centro de torturas, de que poucos saíram vivos, porque eram destinados aos chamados “voos da morte”, em que os militantes eram jogados no mar. Os que escaparam vivos, como Tano, pagaram um preço que, mesmo décadas depois, têm dificuldade em elaborar, carregando consigo a culpa que na verdade só pertence aos verdugos que os submeteram.
No elenco, estão dois atores brasileiros: Eduardo Hoy, vivendo o papel de Tano jovem, e Paula Cohen, interpretando a juíza Desideria Lozada, que terá uma participação marcante na segunda parte do filme, quando se processa o julgamento dos militares.
Uma curiosidade é que boa parte das locações vistas no filme e identificadas como Buenos Aires foram, na verdade, filmadas em Porto Alegre, por questões logísticas. É o caso de sequências no galpão de torturas, no hotel e no tribunal, que foram caracterizados para identificar-se com a paisagem e locais bonaerenses, aproveitando semelhanças entre as duas capitais. Em Buenos Aires, foram filmadas algumas panorâmicas gerais, com drones. Outras cenas do início do filme foram filmadas na cidade italiana de Turim. (Neusa Barbosa)
22/10 - 18:30 - CULTURA ARTÍSTICA
24/10 - 16:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
25/10 - 19:15 - SOLAR SALA PETROBRAS
28/10 - 18:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 5
O Sentido da Vida
O celebrado diretor e roteirista japonês Ryusuke Yamaguchi enveredou por temas como a urgência de um cuidado mais
humanizado de idosos e os males do capitalismo no mundo moderno para construir este que foi seu primeiro filme falado em francês (em parte). O roteiro, assinado por ele e Léa Le Dimna, inspira-se em parte em livro não-ficcional de Makiko Miyano e Maho Isono.
Com uma narrativa consideravelmente mais esticada do que o seu primoroso Drive My Car, Yamaguchi constroi sua história em torno da diretora de um centro de cuidado a idosos, Mary-Lou (a excelente Virginie Efira, falando japonês em longos trechos do filme), que procura difundir um método definido como “humanitude”, que busca um manejo mais delicado e estimulante das necessidades dos residentes na instituição.
Ela encontra uma alma gêmea numa diretora japonesa de teatro, Mari (Tao Okamoto), de quem assistiu uma peça de teatro, depois de tê-la conhecido por acaso. Mari sofre de um câncer terminal, mas é uma pessoa cheia de energia, formando com Mary-Lou uma parceria entre culturas diferentes que é um dos prazeres do filme - que é um tanto hesitante em sua primeira metade, que desperdiça tempo demais com explicações um tanto redundantes, mas toma embocadura na segunda, ainda assim, estendendo-se excessivamente, em 3h16.
Em Cannes, o filme venceu um prêmio duplo de atuação para as atrizes Tao Okamoto e Virginie Efira. (Neusa Barbosa)
22/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
24/10 -18:40 - SATO CINEMA
26/10 - 19:15 - CULTURA ARTÍSTICA
O Projeto
Em seu primeiro longa, o documentário O Projeto, Sabrina Fidalgo divide a direção com o fotógrafo suíço Yvan Rodic para lançar-se a uma impactante e ambiciosa investigação do projeto colonialista que se espalha pelo mundo desde o século 15.
Acumulando entrevistas e imagens de arquivo, cuja diversidade a diretora de fotografia Julia Zakia não quis mascarar, o filme explora as contradições da dominação colonial europeia, dividindo continentes como as Américas e a África para impor um modo de exploração intensiva da natureza e de pessoas escravizadas, sejam as populações originais, sejam os africanos escravizados.
Sabrina e Yvan introduzem na narrativa outros recursos, como detalhes das próprias histórias pessoais que tornam mais ampla a discussão. Sabrina, uma mulher negra, nascida em Copacabana, filha de pais artistas, na infância a única criança não-branca numa escola católica de classe média. Yvan, suíço branco e filho de pai imigrante iugoslavo, sentindo a seu modo a discrimnação em seu país pela origem estrangeira. Juntando nuances dessas experiências diferentes mas que em algum ponto dialogam, os dois diretores entrevistam diversas pessoas ao redor do mundo para ampliar o admirável feixe de reflexões e perguntas que o filme coloca - e, felizmente, não se dispõe a responder de forma definitiva.
Algumas das vozes mais interessantes são a da escritora portuguesa Grada Quilomba e dos ativistas Anderson França e Preto Zezé, ao lado da professora Djamila Ribeiro.
Outra imagem das mais reveladoras do filme vem de uma performance da própria Sabrina: vestida como uma mulher de outro século, ela aperta o nariz com um pregador, remetendo a um antigo método de afinamento do nariz a que recorriam pessoas negras induzidas a não aceitar-se, mas que se torna também uma metáfora do mau cheiro do racismo e suas várias formas de violência, bem como ao asfixiamento, uma referência a assassinatos como o de George Floyd, nos EUA. (Neusa Barbosa)
22/10 - 21:10 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2
27/10 -17:40 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2
Ana, En Passant
Gênero raríssimo na mostra competitiva do Festival de Brasília, a animação mineira Ana, En Passant, de Fernanda Salgado, abriu a 59ª edição, com uma nota poética e delicada que envolve uma narrativa adulta sobre questões envolvendo mulheres negras. Antes desta, apenas a animação gaúcha Rocky & Hudson, de Otto Guerra, havia sido selecionada para a competição daquele festival, vencendo o Prêmio Especial do Júri em 1994.
Como é comum na realização de animações, ainda mais longas, Ana, en Passant percorreu uma longa odisseia até sua conclusão, que se estendeu por oito anos, desde a ideia inicial, passando por editais, laboratórios de roteiro, retenção de verbas no governo Bolsonaro e outras peripécias. O resultado final, no entanto, refletiu um processo meticuloso, fruto do trabalho de 60 animadores, em sua maioria brasileiros, numa coprodução que incluiu também Portugal e a França (esta, na etapa da finalização e pós-produção).
Utilizando várias técnicas, como 2D e stop-motion mas especialmente a rotoscopia, o que inclui filmagens de atores, Ana, en Passant apoia-se num roteiro adulto, refletindo a problemática de duas mulheres, Ana e Alice (ambas interpretadas pela atriz Jéssica Pierina), que podem ser vistas como extensão uma da outra. Ana está vindo da França, elaborando o luto pela avó, também chamada Alice (Zezé Motta), de quem obteve a chave de um apartamento em Belo Horizonte, no qual mora a jovem Alice, que está grávida.
Depois do estranhamento deste encontro, Ana e Alice passam a trocar experiências que se relacionam com amadurecimento, identidade e até territorialidade - são muito belas as sequências em que Ana descobre paisagens de uma Belo Horizonte em que entram pela tela imagens oníricas, utilizando água, um dos elementos constantes da história, que conta ainda com a participação do ator Carlos Francisco, como o velho carteiro André.
Um dos pontos fortes do filme está em ter incorporado na equipe várias diretoras com experiência e prêmios, caso de Safira Moreira (na direção de fotografia e que realizou o premiado Cais) e Camila Kater (diretora de animação que realizou antes o premiado Carne).
A beleza das imagens, à qual se soma o trabalho da diretora de arte Marcella Tamayo, embala uma história que seduz pela hipnose dos trajetos, tornando o filme um objeto muito particular e original, que venceu em Brasília o Prêmio Zózimo Bulbul. (Neusa Barbosa)
22 de outubro, às 20h30 — Reserva Cultural, Sala 2
24 de outubro, às 17h40 — Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, Sala 3
Butterfly Jam
Em seu terceiro filme, Butterfly Jam, o cineasta russo Kantemir Balagov (Uma Mulher Alta) mostra, mais uma vez, seu completo domínio de um cinema sensorial nessa sua estreia nos Estados Unidos. Ele assina o roteiro com a escritora e poeta russa Marina Stepnova, e cria a história de uma pequena comunidade circassiana em Newark.
Barry Keoghan e Riley Keough interpretam os irmãos Azik e Zalya, que migraram para os EUA com a mãe quando eram adolescentes. Originalmente, o filme se passaria em Nalchik, no Cáucaso, no sul da Rússia, cidade-natal do cineasta. Mas quando ele se opôs à invasão da Ucrânia, precisou deixar o país e acabou se exilando nos EUA. A mudança da localização da trama não parece interferir muito, pois ele cria essa comunidade de exilados que tentam manter a tradição de sua terra natal, especialmente com a comida.
Azik é um chef especialista num prato tipicamente russo – um pão frito recheado com batatas e queijo – que o tornou relativamente famoso na região. Tanto que quando um primo pretende abrir um restaurante chique, o convida para ser o chefe. Zalya, que está grávida, é a mais responsável da família e tenta se manter próxima do irmão para que ele não se envolva em problemas com seu amigo Marat (Harry Melling).
Azik é viúvo e pai solo de um filho adolescente Temir, interpretado pelo excelente estreante Talha Akdogan. Uma das paixões do garoto é a luta livre, na qual ele é muito bom. Outro de seus interesses é uma paixão nascente por Alika (Jaliyah Richards), uma jovem estadunidense-nigeriana que faz parte de sua turma de treinamento. Ela é tímida e tem um problema de pele que a faz abandonar a luta, mesmo, claramente, tendo talento para isso.
A narrativa transita entre esses vários polos, até que um ato de extrema violência – para o qual o filme não nos prepara – acontece e muda a vida de todos esses personagens. A escolha poderá alienar boa parte do público, por ser algo inesperado e cruel, mas especialmente pelo fato do filme não conseguir balancear direito o que vem depois.
Ainda assim, as excelentes atuações – em especial a de Akdogan – mantêm o filme nos trilhos. Mas não se engane, a estrela aqui é a direção segura e potente de Balagov, mesmo quando a narrativa parece fazer escolhas erradas (como o prolongamento do último ato). Ele é capaz de criar imagens poéticas e fortes – como quando pai e filho andam numa rua batendo com as mãos em todos os carros estacionados e disparando alarmes de sons e luzes. Ou ainda quando uma máquina de algodão doce espalha a iguaria pelo ar numa pequena cozinha. São momentos como esse que mostram ao que Balagov veio. (Alysson Oliveira)
22/10 - 12:00 - CULTURA ARTÍSTICA
25/10 - 15:10 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
Squel - Confissões de uma Porta-Bandeira
O documentário começa com o olhar de fã. Os diretores do longa, Celina Torrealba e Zeca Brito, contam que há muito admiram a porta-bandeira Squel Jorgea que, após se aposentar em 2022, voltou ao Carnaval carioca desfilando pela Portela, que tinha como enredo uma adaptação do romance "Um Defeito de Cor".
Brito, que é gaúcho, já havia trabalhado com a carioca Torrealba, mas nunca haviam dividido a direção. “Em meados de 2023, eu a procurei para fazermos um filme sobre a Squel. Eu sabia que ela gostava de Carnaval e achava importante ter, também, uma mulher na direção. Esse é um filme muito feminino e muito carioca”, conta o diretor em entrevista ao Cineweb.
Torrealba, por sua vez, lembra que Squel topou rapidamente fazer o filme, levando-os a um universo totalmente desconhecido para eles. “A gente não tem muita ideia de tudo o que está por trás do desfile que vemos na avenida. É uma complexidade de trabalhadores e trabalhadoras que orbitam em torno da porta-bandeira para que ela possa representar a escola ali na avenida.”
O longa mostra exatamente essa comitiva, que inclui costureiras, maquiadoras, motoristas, coreógrafos – enfim, uma grande quantidade de pessoas que fazem, também, a indústria carnavalesca se mover ao longo do ano, sendo esse um dos temas caros ao documentário. “Existe essa esfera do trabalho, que é sério mesmo, as pessoas têm carteira assinada e seus direitos. A própria Squel tem isso. É algo em que não pensamos muito quando vemos a beleza do desfile”, aponta Brito.
Squel, que já teve passagens pela Grande Rio, Mocidade Independente e Mangueira, criou uma proximidade com a dupla, o que lhes permitiu maior proximidade em seu cotidiano, seu processo de criação e na hora do desfile. “Ela, no entanto, preferiu preservar seu filho, Enrico, que não faz aparições públicas e nem no filme. Esse documentário é um registro do trabalho da mãe dele, que ele poderá conhecer no futuro, quando for maior”, explica Torrealba.
Ganhadora de dois Estandartes de Ouro, um dos principais prêmios do Carnaval carioca, a porta-bandeira se destaca por sua beleza, graça e inteligência, como o filme deixa bem claro. “A Squel traz uma mensagem muito forte da dignidade do ofício do Carnaval. Ela tem uma imagem muito forte entre as crianças, que a adoram, e ela respeita muito isso. Ela não se deixa, por exemplo, ser filmada ou fotografada com bebida alcoólica, pois sabe que ela é um modelo para as crianças”, esclarece Torrealba. (Alysson Oliveira)
22/10 - 21:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
26/10 - 18:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2
Participando da homenagem ao produtor Paulo Branco, que recebe o troféu Leon Cakoff na 50ª Mostra, reexibe-se o magnífico clássico do diretor chileno Raul Ruiz.
22/10 - 16:00 - CINE SEGALL
28/10 - 17:00 - CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP
30/10 - 16:00 - CINUSP
