23/09/2026

Teddy Award premia filmes que ultrapassam a questão LGBT

Como ocorreu em 2011, a cerimônia de entrega do Teddy Award, prêmio dedicado aos melhores filmes com temática LGBT, ocorreu no aeroporto de Tempelhoff, depois de ter sido durante os anos de Guerra Fria o único acesso para Berlim Ocidental. O saguão do aeroporto parecia pequeno para acolher os convidados, bem como os candidatos a todos os prêmios A cerimônia começou pontualmente às 21 horas, tendo como mestre de cerimônia o ator alemão Jochen Schropp. Entre as atrações internacionais, o destaque foi a apresentação da canadense Peaches, que ainda fez um show de uma hora na festa a seguir à premiação

O filme que recebeu a premiação máxima do júri (que contava com a presença do brasileiro João Federici, parte da equipe do MixBrasil) foi Keep the lights on, de Ira Sachs. Em 2010, o diretor havia apresentado o curta Last address, que, de maneira extraordinariamente simples e poética, nos faz percorrer fachadas nova-iorquinas, antigos endereços de artistas e intelectuais mortos em decorrência do vírus da Aids nos fins dos anos 80, início dos anos 90. O curta pode ser visto no site
http://www.lastaddress.org/. A inspiração para Keep the lights on veio das vivências de um antigo relacionamento do próprio Ira. Mas o filme, antes de tudo, fala
do relacionamento entre duas pessoas ao longo de dez anos.

Apresentado no último festival de Sundance, o filme destaca-se pela excelência em cada um de seus aspectos. A começar pelo roteiro, escrito a quatro mãos juntamente com o
brasileiro Maurizio Zacharias, talentoso roteirista, conhecido no Brasil pelas parcerias com Karim Ainouz em Madame Satã e O céu de Suely. Os atores principais, Thure Lindhart e Zachary Booth, surpreendem pela extrema veracidade com a qual encarnam Erik e Paul. E a sutileza com a qual a intimidade do casal é transposta às telas contou com o talento da fotografia de Thimios Bakatakis, grego que, até então, nunca havia ido a Nova York e que soube integrar a cidade ao filme como se ela fosse um personagem. Destaque deve ser dado também à trilha sonora, composta da obra de Arthur Miller, músico norte-americano, morto aos 40 anos em 1992, cuja obra foi resgatada por Ira de maneira mais do que merecida.

O filme francês Jaurès, de Vincent Dieutre, que também fala do relacionamento humano a partir de uma perspectiva intimista, recebeu o prêmio do júri.

Já o melhor documentário, Call me Kuchu, foi escolha quase inevitável em função da pertinência do filme. Vale ressaltar que Olha pra mim de novo, filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, já apresentado nos festivais de Gramado, Rio e MixBrasil do ano passado, ficou entre os três finalistas nesta categoria, no ano justamente em que um dos focus do Teddy Award era discutir a questão da transsexualidade e da transfobia. O próprio título do filme brasileiro ilustra a importância de uma mudança de olhar para abordar tais questões já que, na questão LGBT, o Brasil é um país repleto de paradoxos.

Por falar em paradoxos, veio da Sérvia uma das melhores surpresas que, além de ter saído do Teddy Award com o prêmio do público de uma revista gay, ainda ganhou o prêmio do público da seção Panorama, sem falar na menção especial do júri ecumênico. Trata-se de Parada, filme de Srdjan Dragojevic (diretor de Bela aldeia, belas chamas, filme de 1996, vencedor do prêmio do público da 20a Mostra de Cinema de São Paulo). A partir das barreiras encontradas para a realização da parada gay em Belgrado, Srdjan faz uma releitura bem-humorada da atualidade dos países que compunham a Iugoslávia. Segundo o diretor, é um filme emocional que mostra a importância da comunicação neste momento pós-guerrra, em que seu país natal encontra-se fragmentado em vários países. O filme já foi visto por mais de 500 mil espectadores da região.

Ao menos um Teddy veio para a América Latina: foi o Teddy de melhor curta-metragem concedido ao peruano Loxoro, de Claudia Llosa, diretora que venceu o Urso de Ouro em 2009 com o longa A Teta Assustada. O roteiro originou-se a partir de um projeto latino-americano que propôs a oito cineastas trabalharam com a questão de fronteiras. Claudia decidiu fazer uma abordagem mais metafórica do tema, retratando em seu filme personagens que são considerados marginais diante da sociedade: os transsexuais. O título refere-se à linguagem que os transsexuais peruanos utilizam para se comunicarem em situações de perigo.

Mario Montez, integrante do cenário underground nova-iorquino desde que fazia parte do coletivo A Fábrica, de Andy Warhol, e a cineasta alemã Ulrike Ottinger foram as personalidades homenageadas com os Teddy de reconhecimento pelas respectivas carreiras.

Premiações à parte, duas questões mostram-se relevantes em relação ao que foi dito durante o evento. A primeira delas, levantada por Wieland Speck, diretor da seção Panorama e um dos criadores do Teddy Award, refere-se à importância do projeto que pretende criar em Berlim um acervo que reúna todos os filmes com temática LGBT, não somente os que já passaram pelo Teddy. Evocando o passado alemão, Wieland afirmou que, mesmo tendo consciência do privilégio que representa o espaço conquistado pelo Teddy ao longo desses 26 anos de sua existência, «
nunca podemos estar seguros se aquilo que conquistamos irá permanecer
». Daí a importância em preservar a memória cinematográfica desses filmes, cuja existência é primordial a países onde a questão ainda é debatida de maneira arcaica e limitada.

A segunda questão engloba a necessidade de abordar a questão LGBT por um prisma que ultrapasse o princípio a partir do qual filmes pertencentes a estas categorias sejam apenas vistos pelo público abarcado por eles, num contexto de festivais gays e lésbicos mundo afora. A própria Berlinale é o melhor exemplo de que uma integração maior é possível. Todos os filmes concorrentes ao Teddy são, antes de tudo, filmes selecionados para o Festival de Berlim. Assim sendo, ver o Teddy de maneira folclórica é reduzir o potencial de criar pontes que possam enriquecer e elevar a discussão cinematográfica a patamares mais profundos e pertinentes.

Para assistir à cerimônia completa, assim como saber mais sobre os filmes selecionados
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