Teddy Award premia filmes que ultrapassam a questão LGBT
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 26/02/2012
- Tempo de leitura 6 minutos
Como ocorreu em 2011, a cerimônia de entrega do Teddy Award, prêmio dedicado aos melhores filmes com temática LGBT, ocorreu no aeroporto de Tempelhoff, depois de ter sido durante os anos de Guerra Fria o único acesso para Berlim Ocidental. O saguão do aeroporto parecia pequeno para acolher os convidados, bem como os candidatos a todos os prêmios A cerimônia começou pontualmente às 21 horas, tendo como mestre de cerimônia o ator alemão Jochen Schropp. Entre as atrações internacionais, o destaque foi a apresentação da canadense Peaches, que ainda fez um show de uma hora na festa a seguir à premiação
O filme que recebeu a premiação máxima do júri (que contava com a presença do brasileiro João Federici, parte da equipe do MixBrasil) foi Keep the lights on, de Ira Sachs. Em 2010, o diretor havia apresentado o curta Last address, que, de maneira extraordinariamente simples e poética, nos faz percorrer fachadas nova-iorquinas, antigos endereços de artistas e intelectuais mortos em decorrência do vírus da Aids nos fins dos anos 80, início dos anos 90. O curta pode ser visto no site
http://www.lastaddress.org/. A inspiração para Keep the lights on veio das vivências de um antigo relacionamento do próprio Ira. Mas o filme, antes de tudo, fala
do relacionamento entre duas pessoas ao longo de dez anos.
http://www.lastaddress.org/. A inspiração para Keep the lights on veio das vivências de um antigo relacionamento do próprio Ira. Mas o filme, antes de tudo, fala
do relacionamento entre duas pessoas ao longo de dez anos.
Apresentado no último festival de Sundance, o filme destaca-se pela excelência em cada um de seus aspectos. A começar pelo roteiro, escrito a quatro mãos juntamente com o
brasileiro Maurizio Zacharias, talentoso roteirista, conhecido no Brasil pelas parcerias com Karim Ainouz em Madame Satã e O céu de Suely. Os atores principais, Thure Lindhart e Zachary Booth, surpreendem pela extrema veracidade com a qual encarnam Erik e Paul. E a sutileza com a qual a intimidade do casal é transposta às telas contou com o talento da fotografia de Thimios Bakatakis, grego que, até então, nunca havia ido a Nova York e que soube integrar a cidade ao filme como se ela fosse um personagem. Destaque deve ser dado também à trilha sonora, composta da obra de Arthur Miller, músico norte-americano, morto aos 40 anos em 1992, cuja obra foi resgatada por Ira de maneira mais do que merecida.
brasileiro Maurizio Zacharias, talentoso roteirista, conhecido no Brasil pelas parcerias com Karim Ainouz em Madame Satã e O céu de Suely. Os atores principais, Thure Lindhart e Zachary Booth, surpreendem pela extrema veracidade com a qual encarnam Erik e Paul. E a sutileza com a qual a intimidade do casal é transposta às telas contou com o talento da fotografia de Thimios Bakatakis, grego que, até então, nunca havia ido a Nova York e que soube integrar a cidade ao filme como se ela fosse um personagem. Destaque deve ser dado também à trilha sonora, composta da obra de Arthur Miller, músico norte-americano, morto aos 40 anos em 1992, cuja obra foi resgatada por Ira de maneira mais do que merecida.
O filme francês Jaurès, de Vincent Dieutre, que também fala do relacionamento humano a partir de uma perspectiva intimista, recebeu o prêmio do júri.
Já o melhor documentário, Call me Kuchu, foi escolha quase inevitável em função da pertinência do filme. Vale ressaltar que Olha pra mim de novo, filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, já apresentado nos festivais de Gramado, Rio e MixBrasil do ano passado, ficou entre os três finalistas nesta categoria, no ano justamente em que um dos focus do Teddy Award era discutir a questão da transsexualidade e da transfobia. O próprio título do filme brasileiro ilustra a importância de uma mudança de olhar para abordar tais questões já que, na questão LGBT, o Brasil é um país repleto de paradoxos.
Por falar em paradoxos, veio da Sérvia uma das melhores surpresas que, além de ter saído do Teddy Award com o prêmio do público de uma revista gay, ainda ganhou o prêmio do público da seção Panorama, sem falar na menção especial do júri ecumênico. Trata-se de Parada, filme de Srdjan Dragojevic (diretor de Bela aldeia, belas chamas, filme de 1996, vencedor do prêmio do público da 20a Mostra de Cinema de São Paulo). A partir das barreiras encontradas para a realização da parada gay em Belgrado, Srdjan faz uma releitura bem-humorada da atualidade dos países que compunham a Iugoslávia. Segundo o diretor, é um filme emocional que mostra a importância da comunicação neste momento pós-guerrra, em que seu país natal encontra-se fragmentado em vários países. O filme já foi visto por mais de 500 mil espectadores da região.
Ao menos um Teddy veio para a América Latina: foi o Teddy de melhor curta-metragem concedido ao peruano Loxoro, de Claudia Llosa, diretora que venceu o Urso de Ouro em 2009 com o longa A Teta Assustada. O roteiro originou-se a partir de um projeto latino-americano que propôs a oito cineastas trabalharam com a questão de fronteiras. Claudia decidiu fazer uma abordagem mais metafórica do tema, retratando em seu filme personagens que são considerados marginais diante da sociedade: os transsexuais. O título refere-se à linguagem que os transsexuais peruanos utilizam para se comunicarem em situações de perigo.
Mario Montez, integrante do cenário underground nova-iorquino desde que fazia parte do coletivo A Fábrica, de Andy Warhol, e a cineasta alemã Ulrike Ottinger foram as personalidades homenageadas com os Teddy de reconhecimento pelas respectivas carreiras.
Premiações à parte, duas questões mostram-se relevantes em relação ao que foi dito durante o evento. A primeira delas, levantada por Wieland Speck, diretor da seção Panorama e um dos criadores do Teddy Award, refere-se à importância do projeto que pretende criar em Berlim um acervo que reúna todos os filmes com temática LGBT, não somente os que já passaram pelo Teddy. Evocando o passado alemão, Wieland afirmou que, mesmo tendo consciência do privilégio que representa o espaço conquistado pelo Teddy ao longo desses 26 anos de sua existência, «
nunca podemos estar seguros se aquilo que conquistamos irá permanecer
». Daí a importância em preservar a memória cinematográfica desses filmes, cuja existência é primordial a países onde a questão ainda é debatida de maneira arcaica e limitada.
nunca podemos estar seguros se aquilo que conquistamos irá permanecer
». Daí a importância em preservar a memória cinematográfica desses filmes, cuja existência é primordial a países onde a questão ainda é debatida de maneira arcaica e limitada.
A segunda questão engloba a necessidade de abordar a questão LGBT por um prisma que ultrapasse o princípio a partir do qual filmes pertencentes a estas categorias sejam apenas vistos pelo público abarcado por eles, num contexto de festivais gays e lésbicos mundo afora. A própria Berlinale é o melhor exemplo de que uma integração maior é possível. Todos os filmes concorrentes ao Teddy são, antes de tudo, filmes selecionados para o Festival de Berlim. Assim sendo, ver o Teddy de maneira folclórica é reduzir o potencial de criar pontes que possam enriquecer e elevar a discussão cinematográfica a patamares mais profundos e pertinentes.
Para assistir à cerimônia completa, assim como saber mais sobre os filmes selecionados
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