06/06/2026

Sequestro é tema de dois filmes da competição em Berlim

Dentre os paralelos que é possível fazer entre os filmes apresentados na primeira semana da Berlinale, há, por exemplo, aquilo que une os filmes À moi seule (Coming Home) e Captive: ambos abordam a questão do sequestro, da relação criada entre sequestrador(es) e sequestrado(s), das extensões metafóricas da questão do cativeiro.

O primeiro deles, À moi seule, é uma produção francesa dirigida por Frédéric Videau (Variété française, de 2003)
: Gaëlle (Agathe Bonitzer) é repentinamente solta por seu sequestrador, Vincent (Reda Kateb), após oito anos no cativeiro. A partir de então, inicia-se uma nova fase de sua vida, onde ela vai ter que reaprender a viver no mundo exterior. Na verdade, esta noção de interior/exterior é altamente relativa no contexto do filme, e é aí que se encontra justamente um dos pontos altos do filme de Frédéric Videau
: apesar de ser difícil dimensionar as consequências para uma criança tanto tempo privada da liberdade, foi nesse microcosmos que ela construiu seus referenciais ao longo dos oito anos de vida em comum com seu sequestrador. Foi dessa maneira que ela consolidou a força que possuía já no primeiro dia em que se viu naquela condição. Já quando ela se encontra-se fora, liberta, está perdida. Afinal, ela se vê obrigada a interagir com relações pessoais e sociais que são muito mais complexas, simplesmente pelo fato dela ter ficado tanto fato longe delas.

O ponto forte do filme encontra-se na maneira como o diretor constrói a relação entre Gaëlle e Vincent. Fugindo a qualquer estereotipação no estilo algoz/vítima, ele apresenta essa relação como algo extremamente complexo, onde leveza e violência coexistem. Apesar da insistência dos jornalistas em apontarem no filme elementos da chamada «
Síndrome de Estocolmo
», na qual o sequestrado cria uma relação afetiva de admiração e amor pelo seu algoz, o diretor Frédéric negou haver correlações com tal fenômeno, assim como ter inspirado-se de casos reais, como da austríaca Natascha Kampusch. Apesar de este caso ter sido de certa forma o embrião do seu projeto, a partir do momento em que ele iniciou a pesquisa do filme não quis entrar em contato com nenhum relato de casos reais.

Vale lembrar que o título em francês sublinha a consciência profunda trazida pela personagem principal que, apesar de ter que interagir com muitas outras pessoas a partir do momento em que é libertada (seus pais, estruturas médicas e psicológicas, sem falar dos jornalistas que ficam de plantão em frente à casa da sua mãe), ela sabe que toda a expêriencia por que ela passou é algo que diz respeito exclusivamente a ela. Uma certa ambiguidade, em que fragilidade e força
mostram-se como a única maneira de atingir um real equilíbrio, só é possível graças à atriz Agathe Bonitzer, que com seu olhar, seus silêncios e sua interpretação preenche a personagem com uma veracidade à flor da pele.

Já o filme Captive, do diretor filipino Brillante Mendoza (premiado como melhor diretor em Cannes em 2009 por Kinatay), baseia-se nos diversos sequestros ocorridos nas Filipinas, como por exemplo o sequestro ocorrido em Palawan em 2001. Contrariamente a Frédéric Videau, o roteiro de Captive é constituído em boa parte a partir de relatos reais. Isabelle Huppert encarna Therese Bourgoine, francesa em missão de voluntariado social que, em companhia de sua amiga Soledad (Rustica Carpio), faz parte do grupo de pessoas sequestradas pelo grupo terrorista de separatistas islâmicos Abu Sayyaf, que exige a independência da ilha de Mindanao.

A partir de então, inicia-se o calvário deste grupo composto por pessoas provenientes de diversos países. Diferentemente de À moi seule, o cativeiro em Captive é mais um espaço metafórico, um estado de espírito, posto que ele evolui conforme muda a formação do grupo integrado por terroristas e reféns, que atravessa mares, florestas e vilarejos. Isto obriga uma redefinição constante das pessoas envolvidas com o entorno, buscando maneiras de sobreviver de acordo com esta realidade que não deixa de alterar-se, sempre de maneira precária.

Uma preocupação de Mendoza foi filmar os atores seguindo a ordem prevista para que cada um deles sentisse de maneira orgânica as adaptações necessárias à manutenção da sobrevivência de acordo com cada novo contexto. De acordo com Isabelle Huppert, quanto menos você se prepara, melhor é, e Mendoza foi muito competente em conduzir os atores neste caminho, deixando-os sempre num estado de extrema surpresa, sem saber o que viria a
acontecer.

É impressionante assistir à evolução deste sequestro, às novas nuances que surgem nos personagens quando eles se veem face a questões ligadas à própria sobrevivência, assim como os momentos em que existe a interação com pessoas que não fazem parte nem do grupo dos sequestrados nem dos sequestradores.

Assim como no filme de Frédéric Videau, o grande mérito de Captive é não embrenhar-se numa polarização banal deste contexto, muito além de querer reivindicar ou justificar qualquer ponto de vista, ou, pior, adotar uma visão simplista, Mendoza preocupou-se mais em sublinhar os aspectos humanos de pessoas sujeitas a uma situação tão extrema, e de como estamos todos intimimamente ligados às causas e aos contextos nos quais estamos inseridos.