Filmes franceses são os primeiros a repercutir no Festival de Berlim
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 16/02/2012
- Tempo de leitura 2 minutos
A 62a. edição do Festival de Berlim, que teve início no dia 9 de fevereiro, traz como concorrentes ao Urso de Ouro 18 filmes, 13 dos quais são europeus. O Brasil é representado indiretamente na seção competitiva pelo filme Tabu, dirigido pelo cineasta português Miguel Gomes, que é coproduzido pela Gullane Filmes. Questões geográficas à parte, é interessante notar que há temáticas recorrentes que atravessam o roteiro dos filmes selecionados.
Há três filmes, por exemplo, cuja trama é diretamente ligado ao contexto histórico retratado. A começar pelo filme francês Les adieux de la reine, dirigido por Benoît Jacquot. Baseado num romance escrito por Chantal Thomas, o roteiro aborda o conturbado período que antecedeu a Revolução Francesa, centrando-se no personagem de Sidonie Laborde (vivida por Léa Seydoux, presente em outro filme da competição, Sisters), que fazia parte do círculo próximo de empregados de Maria Antonieta (Diane Kruger).
Este vínculo com a História existe também na produção dinamarquesa A royal affair (Nikolaj Arcel), assim como no filme chinês White Deer Plain (Wang Quan’an). Em relação ao contexto atual da realidade europeia, é como se os filmes retratassem um questionamento desencadeado pela crise econômica, uma busca de novos paradigmas, como se essa visita ao passado servisse também para mostrar novos caminhos, desse uma outra sinergia à releitura da própria História inerente a qualquer crise.
Na sequência de Les adieux de la reine, foi apresentada a coprodução franco-senegalesa Aujourd’hui, de Alain Gomis. O que se passa na cabeça de um homem que sabe ter apenas 24 horas de vida? A primeira cena do filme mostra Satché (Saul Williams), o homem em questão, acordando naquele que será, a partir do mote do filme, o seu último dia de vida. Esse dia vai ser, na verdade, uma grande condensação do que foi a vida deste homem. Todo esse processo é feito de maneira coletiva, catártica às vezes, já que toda a cidade, consciente da morte iminente de Satché, vai ajustar-se para interagir com ele. Sem que nenhuma reinvindicação explícita a esse respeito seja feita, o espectador invariavelmente vai intercalar com a trama pensamentos acerca de sua própria vida. Isto ocorreu com o diretor, que ao longo do processo de preparação e filmagem, sentiu-se por vezes à beira do angustiante pensamento: "E se eu morrer durante o filme?"
Essas duas produções francófonas, que deram início ao 62° Festival de Berlim colocam, cada uma à sua maneira, os personagens face às turbulências (existênciais e/ou históricas) que antecedem o fim de um ciclo, seja ele a monarquia de um país, ou a vida de um cidadão comum.
