Em Berlim, filmes alemães apresentam uma imagem eclética do país
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 17/02/2012
- Tempo de leitura 6 minutos
Na competição na Berlinale, a Alemanha é representada por nada menos do que três filmes, ao passo que nenhum filme sul-americano encontra-se entre os escolhidos. O primeiro desses filmes alemães a ser apresentado foi Barbara, dirigido por Christian Petzold (Jerichow, Yella), que retrata a vida numa cidade do interior pertencente à antiga Alemanha Oriental. Seu título refere-se à personagem central, uma médica (vivida pela atriz Nina Hoss, que inclusive recebeu o Urso de Prata de melhor atriz por Yella, em 2007) que, após ter pedido um visto para sair da Alemanha Oriental, é transferida de Berlim a este vilarejo onde tem que lidar não apenas com a vigilância permanente da polícia, mas também com o olhar desconfiado de seus habitantes.
Como um espelho de sua adaptação a esta nova vida, a este novo lugar, há a sua interação com o André (Ronald Zehrfeld), igualmente médico. No início, ele é visto com grande desconfiança, assim como todas as outras pessoas. Mas a cumplicidade em relação ao empenho junto aos pacientes cria uma confiança que serve como contraponto a todo o desconforto que ela vive. Os únicos momentos de redenção acontecem quando recebe as visitas furtivas de seu namorado, Jörg (Mark Waschke), que mora no lado Ocidental, e com quem ela planeja uma fuga.
Apesar de o filme apoiar-se muito no desempenho de Nina Hoss, há uma grande competência do diretor em retratar a vida cotidiana na Alemanha Oriental de maneira realista e distante dos clichês conhecidos, como por exemplo a cidade de Berlim dividida pelo muro. Vale lembrar que Barbara é, até o penúltimo dia da Berlinale, o filme melhor cotado pelos críticos da revista Screen International.
O segundo filme alemão presente na competição é Home for the weekend, terceira colaboração entre o roteirista Bernd Lange e o diretor Hans-Christian Schmid (as outras duas foram Requiem – Urso de Prata de melhor atriz para Sandra Hüller -
e Storm – presente na competição do Festival de Berlim de 2009).
e Storm – presente na competição do Festival de Berlim de 2009).
O fim de semana em questão tem tudo para ser mais um encontro harmonioso da família Heidtmann: Gitte (Corinna Harfouch) e Günter (Ernst Stötzner) vão receber a visita de seus dois filhos, Marko (Lars Eidinger) e Jakob (Sebastian Zimmler). Aos poucos, pequenas fissuras vão surgindo: Jakob, o caçula,
que começa a ter problemas para gerenciar as dívidas feitas para abrir seu consultório de dentista, sente ruir sua imagem de filho perfeito, ao passo que Marko, além de não ter conseguido estabelecer-se como escritor, prefere não dizer que está se separando da esposa, com quem teve um filho, Zowie (Egon Merten).
que começa a ter problemas para gerenciar as dívidas feitas para abrir seu consultório de dentista, sente ruir sua imagem de filho perfeito, ao passo que Marko, além de não ter conseguido estabelecer-se como escritor, prefere não dizer que está se separando da esposa, com quem teve um filho, Zowie (Egon Merten).
Entretanto, o elemento desestabilizador acaba sendo a revelação feita pela mãe, Gitte, de que parou de tomar os antidepressivos que foram parte de sua vida por 30 anos. É como se isso surtisse o efeito de uma rasteira, mostrando o frágil equilíbrio que sustentava esta família. É muito pertinente o contraponto retratado pela figura da mãe. Se, por um lado, ela encontra-se em plena fase de reestruturação íntima, de busca do auto-conhecimento, do outro lado, ela empenha-se com grande esmero na elaboração do fim de semana perfeito, como sempre fizera em sua vida. Essa «
nova
» Gitte que está emergindo parece não combinar com todas as pequenas alianças com a hipocrisia feitas ao longo dos últimos trinta anos para que essa família tivesse uma aparência bem polida. Será possível criar um processo de reestruturação coletiva em uníssono
?
nova
» Gitte que está emergindo parece não combinar com todas as pequenas alianças com a hipocrisia feitas ao longo dos últimos trinta anos para que essa família tivesse uma aparência bem polida. Será possível criar um processo de reestruturação coletiva em uníssono
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Já o terceiro filme, apresentado no penúltimo dia dos filmes da competição, Mercy, dirigido por Matthias Glasner (O desejo liberado) retrata a vida de uma família alemã a partir do momento em que se instalam na cidade norueguesa de Hammersfest, situada no extremo norte do país. Desde o início, já se sente que o casal formado por Niels (Jûrgen Vogel), Maria (Birgit Minichmayr), juntamente com o filho pré-adolescente, Markus (Henry Stange), constituem uma estrutura familiar desconectada que, em contato com a realidade inóspita do inverno ártico, vai entrar num processo onde a falta de diálogo parece irreversível. Até que uma fatalidade os obriga a entrar em questões éticas profundas e os coloca face ao espelho onde se reflete a capacidade de cada um em lidar com conceitos como culpa e perdão, o que os leva também a questionamentos existenciais.
Conforme a noite polar vai chegando ao fim, o sol começa a despontar e a camada de gelo torna-se mais fina, aproxima-se para cada um dos personagens o encontro inevitável com as verdades profundas que estavam ocultas até então, como se o filme pudesse ser visto como a crônica de uma avalanche invisível, mas de consequências palpáveis.
Para o diretor, a vida em lugares tão hostis é como uma luta, e também exigiu dos atores uma grande capacidade de adaptação. Na coletiva de imprensa, o ator Jürgen Vogel lembrou que, apesar de ter sido uma das filmagens mais divertidas de que já participou, viu-se face a questões de sobrevivência básicas, posto que ficar por mais de dez minutos sem luvas representava comportamento de alto risco. Já para Birgit Minichmayr, cujo empenho para desempenhar o papel a levou a querer aprender a falar norueguês, sublinhou o quanto a escuridão e a penumbra a levaram a um estado próximo à depressão.
A questão de um jornalista alemão levantou um aspecto que, apesar de não ter sido incluído no filme, fez parte de seu processo de elaboração: em 1945, no momento em que a guerra aproximava-se do seu fim, Hammerfest foi completamente destruída pelos alemães, pouco antes desses serem expulsos pelos russos. Para o diretor, as cicatrizes desta destruição já foram fechadas, tornando possível a coabitação entre alemães e noruegueses.
Além do fato de serem alemães, os três filmes possuem um outro ponto em comum: trazem na interpretação de suas atrizes principais, e evolução das respectivas personagens ao longo das tramas, um dos seus pontos mais fortes.
