06/06/2026

Concorrentes em Veneza repercutem questões cruciais como o culto à celebridade

A contemporaneidade continua batendo forte na tela de Veneza, com a passagem dos primeiros concorrentes ao Leão de Ouro, entre eles a coprodução franco-belga Superstar, de Xavier Giannoli – que aborda o fenômeno avassalador da celebridade súbita e inexplicável de um homem comum, Martin Kazinski (o comediante argelino Kad Merad, de A Riviera não é Aqui e O Pequeno Nicolau).

A trama, a princípio, guarda um bocado de semelhanças com a impagável história vivida por Roberto Benigni em Para Roma, com Amor, de Woody Allen – que, em alguns sentidos, é até melhor, mais sutil, mais focada, do que a imaginada por Giannoli (Quando Estou Amando), que parte de uma livre inspiração num livro, L’Idole, de Serge Joncour.

De todo modo, Superstar é bastante instigante no foco num fenômeno moderno e inquietante, acompanhando o pesadelo de um homem simples, que trabalha numa empresa de reciclagem de computadores, ao lado de jovens portadores de deficiências mentais leves e, embora solitário, sem família ou amores, parece satisfeito com sua pequena rotina. Tudo isso desaba quando de repente, sem qualquer explicação, ele passa a ser fotografado incansavelmente por todo mundo, já que com os smartphones todos se tornaram paparazzi hoje. Todos sabem seu nome, ele é famoso, suas imagens caíram na internet – e ele só se pergunta porquê.

Televisão correndo atrás

A fama súbita transforma Martin no candidato ideal a convidado num show de televisão, onde ele é levado pela produtora Fleur (Cécile de France). O filme é bastante eficaz na maneira como disseca criticamente esse mecanismo um bocado cruel pelo qual a televisão, mídia já sexagenária, procura compartilhar a instantaneidade das redes sociais, incorporando os personagens criados por elas, que não raro, nada fizeram de interessante ou nada têm a dizer, como o atônito homem comum vivido por Kad Merad – que interpreta com muita naturalidade o personagem atônito, que intriga quase todos especialmente por não desejar a fama, e sim voltar para o anonimato.

É um filme cheio de questões, enfim, ao qual não falta a sempre bem-vinda ironia. De várias formas, o tema está interessando ao cinema – no Festival de Cannes, em maio, passou por lá também Reality, do italiano Matteo Garrone, que levou o Grande Prêmio do Júri, retratando um personagem ao inverso, ou seja, um homem comum (Aniello Arena) que faz de tudo para ser integrado a um reality show.

Dilema russo

Outra tendência atual e que também passou antes por Cannes é a vitalidade de uma nova geração de cineastas russos. Em Veneza, o concorrente ao Leão Izmena (Betrayal), de Kirill Serebrennikov, inspirou e intrigou.

Há uma enorme elegância e um permanente clima de estranheza, numa história em torno da traição amorosa, que repercute mas reinventa sinais de Hitchcock, Bergman e Antonioni, com o rigor de um Haneke mas um simbolismo e intensidade todos russos, em torno de uma médica (a atriz alemã Franziska Petri) que se envolve com o marido da amante de seu próprio marido (o ator macedônio Dejan Lilic).

Não há um pingo de obviedade na maneira como ela mesma informa o marido da outra sobre o caso dos respectivos cônjuges, conduzindo um jogo estranhamente frio, perversamente preciso – mas do qual somente ela parece guardar a chave – que finalmente arrasta à destruição vários dos envolvidos.

Com sua beleza glacial e um rosto extremamente expressivo, que sustenta ser prescrutado pela câmera e ainda assim não trai suas emoções íntimas, a atriz alemã é um achado e uma digna primeira candidata ao prêmio de melhor atriz. Dada a generalizada escassez de bons papeis femininos no cinema mundial, isto não é pouco.

Emergência social no Congo

Na seção paralela Giornate degli Autori, um destaque foi o semidocumental Kinshasa Kids, coprodução franco-belga dirigida pelo belga Marc-Henri Wajnberg que reconstitui, com reencenações (inevitáveis), mas com personagens reais a tragédia do abandono de crianças nas ruas da capital congolesa, que são tidas como amaldiçoadas pelos próprios familiares – e cujo número se estima em torno de 25.000 somente em Kinshasa.

É mais um aspecto da quase inimaginável emergência social do país africano, ex-colônia belga e rico em minérios, e há anos atormentado por uma intermitente guerra civil que provoca estupros em massa, massacre de civis e sequestro de meninos-soldados, tudo isso agravado por uma exploração desenfreada dos ricos recursos do país por milícias a serviço, inclusive, de multinacionais ocidentais.

O filme retrata uma brecha otimista na vida de alguns dos meninos de Kinshasa, aliados a um rapper, Bebson de la Rue, que lhes abre um caminho através da música. Uma esperança muito tênue, que depende de muitos apoios complexos – é particularmente interessante como se mostra o “jeitinho congolês” de viabilizar as iniciativas dos cantores, num contexto de inacreditável sujeira e miséria em que os garotos e vários congoleses vivem, aliás.

Mesmo com o tom alegre de alguns de seus inesquecíveis personagens – como um garoto que imita Michael Jackson - e um quê de filme-ONG, talvez igualmente inevitável nas condições em que pode ser feito, Kinshasa Kids certamente escancara a intenção de acordar consciências e provocar ações de toda e qualquer parte do mundo.