21/09/2026

Brian de Palma fecha competição em Veneza com o fraco "Passion"

Passion (foto ao lado), novo thriller pseudo-erótico do norte-americano Brian de Palma, e Un Giorno Speciale, da italiana Francesca Comencini, fecharam de modo um tanto pálido a competição pelo Leão de Ouro nesta sexta (7/9). O filme de De Palma, inclusive, foi o mais vaiado nas sessões de imprensa este ano e recebeu um princípio de vaia até na coletiva de imprensa,o que é raridade por aqui. Os prêmios em Veneza serão entregues amanhã à noite.
Ainda bem que o que foi visto por aqui nos últimos dias foi muito superior a estes dois concorrentes. De modo que o saldo do 69º festival é positivo – inclusive na esquadra italiana, um trio de filmes do qual o dramazinho romântico de Francesca Comencini visto hoje é o mais fraco e anódino.
Bateu forte na tela a solidez dramática de La Bella Addormentata, em que o veterano Marco Bellocchio comprovou estar no melhor da sua forma. É um filme de idéias múltiplas e atores magníficos que deve ser visto mais de uma vez, o que certamente tornará mais fecundo o debate em torno da liberdade de escolha diante da eutanásia, mas não somente isso.
O outro italiano, É Stato Il Figlio, do diretor de fotografia e cineasta Daniele Ciprì, certamente demonstrou talento e originalidade, além de carregar na tela mais uma interpretação carismática de Toni Servillo – visto também no filme de Bellocchio. É um dos grandes atores do cinema mundial e não seria surpresa alguma se levasse um prêmio aqui, vivendo papeis muito diferentes, um senador no filme de Bellocchio, um pobre suburbano siciliano, no de Ciprì.

Mães e amantes
Esta foi uma edição excepcionalmente rica em papeis femininos fortes – caso da mãe vivida por Cho Min-soo no drama sul-coreano Pietà (foto ao lado), em que Kim ki-duk parece ter reencontrado seu prumo, perdido anos atrás na esteira de uma depressão, cuja crônica ele realizou justamente num filme autodocumental exibido há um ano em Cannes, Arirang.
O novo filme de Kim Ki-Duk, aliás, frequenta todas as listas de favoritos ao Leão de Ouro, ao lado do russo Betrayal (Izmena), de Kyrill Serebrennikov, um diretor que tem uma biografia inusitada: doutor em física com 20 e poucos anos, depois voltando-se ao teatro amador e finalmente agora, na entrada dos 40 anos, firmando-se com personalidade no cinema.
A alemã Franziska Petri, protagonista de Betrayal, aliás, é outra das concorrentes ao prêmio de melhor atriz, ao lado da austríaca Maria Hoffstätter, do pesado drama de Ulrich Seidl, Paradise: Faith – que abrigou uma das cenas que mais escandalizaram o festival, mostrando a atriz se masturbando com um crucifixo. Este festival, aliás, foi pródigo em discutir o tema da religião, sob várias formas.

Misticismo é poder
Um dos mais fortes concorrentes ao Leão de Ouro, no entanto, é o norte-americano The Master, de Paul Thomas Anderson, que constrói uma densa narrativa em torno de um místico (Philip Seymour Hoffman) que lidera um culto e engaja como seu protegido um marinheiro alcoólatra (Joaquin Phoenix). Ambos, aliás, são candidatíssimos ao prêmio de melhor ator.
Outro concorrente dos EUA, To the Wonder, de Terrence Malick, decepcionou um pouco em sua crônica do amor, muito temperada de religião, interpretada por Ben Affleck, Rachel McAdams e a ucraniana Olga Kurylenko.
Dos EUA, aliás, vieram dois dos piores concorrentes da competição: At any Price, de Ramin Bahrani, Spring Breakers, de Harmony Korine, e o thriller pseudo-erótico Passion, de Brian de Palma. Todos eles, típicos filmes destinados a trazer ao Lido não novas propostas e sim alguns atores que o público, especialmente jovem, gosta de ver de perto – como Zac Efron, do filme de Bahrani, Selena Gómez, do de Korine e Noomi Rapace, no de De Palma.

Franceses e asiáticos
Outro grande candidato ao Leão de Ouro é o francês Après Mai (foto ao lado), um verdadeiro atestado de maturidade de Olivier Assayas, que compõe um potente retrato de geração, desvencilhando-se dos estilhaços da utopia de maio de 1968. Um dos melhores filmes desta edição, que não deve sair daqui de mãos vazias.
Não fez feio também a produção franco-belga Superstar, que colocou bem a questão da celebridade – embora, no meio do caminho, o diretor Xavier Giannoli tenha perdido um pouco o rumo. O mesmo se pode dizer da produção belgo-holandesa La Cinquième Saison, da dupla Peter Brosens e Jessica Woodworth, uma fábula futurista e catastrófica que parece não ter encontrado um final coerente para o seu enredo.
Embora sem inovar nada, nem trazer nenhuma nova contribuição à sua carreira, não ofendeu ninguém a volta do japonês Takeshi Kitano ao universo dos Yakuza em Outrage: Beyond, com as habituais investidas no humor negro extraído da violência gráfica. Kitano parece que não fará tão cedo um belo filme poético e intenso como Hana-Bi – Fogos de Artifício, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 1997, ou Dolls, também exibido aqui cinco anos depois.
O filipino Brillante Mendoza assinou em Thy Womb um delicado drama percorrendo um universo familiar e religioso, embora inferior, em intensidade, ao recente Lola. De todo modo, sua protagonista aqui, Nora Aunor, poderia perfeitamente ser premiada como melhor atriz.
Num ano com tantas excelentes interpretações femininas, não deixa de ser uma pena que o drama israelense Fill the Void, de Rama Burshstein, tenha sido tão tímido em sua abordagem das restrições às mulheres num ambiente judeu ortodoxo, apesar da boa interpretação de suas atrizes.
O contrário pode ser dito do até certo ponto surpreendente drama histórico Linhas de Wellington, coprodução luso-francesa, em boa parte falada em português, dirigido competentemente pela chilena Valeria Sarmiento, viúva de Raul Ruiz (que deveria tê-lo dirigido, mas morreu antes). Retratando com fidelidade a dramática situação de Portugal em 1810, diante da invasão das tropas francesas e da fuga de seu rei, D.João VI, para o Brasil, o filme coloca em primeiro plano a participação das mulheres na vida cotidiana de um país em guerra de uma maneira sutil e inteligente, com elenco integrado por Chiara Mastroianni, Isabelle Huppert, Catherine Deneuve, Marisa Paredes, Victoria Guerra e Soraia Chaves.