06/06/2026

Contrastes e política na reta final

Na reta final,Veneza está emparelhando contrastes. Foi o caso do delicado, mas intenso, Thy Womb (duas primeiras fotos), novo drama carregado por forte personagem feminina do filipino Brillante Mendoza, e do altamente simbólico drama belga sobre um ambiente de impasse ecológico e humano, visto em La Cinquième Saison, da dupla de diretores Peter Brosens e Jessica Woodworth.
Fora de competição, fizeram bonito veteranos de linhagens diferentes: o centenário Manoel de Oliveira, adaptando peça teatral em Gebo e a Sombra – falado em francês, porém -, e o norte-americano Robert Redford, dirigindo e atuando num drama político que tem a cara do militante democrata e criador do Festival de Sundance, em The Company You Keep. Duas produções que, apesar de suas evidentes diferenças, falam do passado para comentar o presente.

Colorido mundo muçulmano
Visualmente, o diretor Mendoza afastou-se da escuridão devastada de filmes anteriores, como Kinatay e Lola, para entrar num ambiente extremamente colorido, na praia, do sul das Filipinas. Um lugar muçulmano, onde uma mulher madura (a esplêndida atriz Nora Aunor), que não pode ter filhos, concorda com a intenção do marido (Bembol Rocco) de tomar uma segunda mulher mais jovem (Lovi Poe), para realizar seu sonho de paternidade.
Mendoza faz um registro extremamente vivo, quase etnográfico, da província de Tawi-Tawi, um cenário quase paradisíaco que contrasta com a pobreza das pessoas – forçadas a trabalhar de sol a sol, como pescadores ou tecedores de tapetes, vivendo em palafitas insalubres e confrontadas com o perigo constante de bandidos armados e incursões de soldados do exército que parecem quase tão violentos quanto eles.
Se não é tão visceral quanto Lola – que contava o dilema de duas avós diante de um crime envolvendo seus netos -, Thy Womb é um digno e respeitoso retrato de um mundo extremamente primitivo, coletivo mas também profundamente machista, com casamentos arranjados e dotes que extenuam as economias de noivos remediados.

Catástrofe ambiental
Já no concorrente belga La Cinquième Saison (foto ao lado), o que entra em colapso é a natureza. A habitual sucessão de primavera, verão, outono e inverno é inexplicavelmente sustada um dia, quando as sementes não brotam nem as abelhas produzem seu mel.
Confrontados com a escassez de alimentos que, de resto, se tem notícia de estar ocorrendo em toda parte fora da região até então fértil da história, os habitantes entram em progressiva desordem social e mental, que os levará à exploração mútua e também à violência. É um filme de fortes imagens, com poucos diálogos, que não cumpre inteiramente a contento suas premissas mas, ainda assim, constitui um trabalho interessante, codirigido pelo diretor Peter Brosens – conhecido no Brasil por um de seus filmes feitos na Mongólia, Estado do Cão (98).

Weather Underground
Robert Redford voltou a atuar e dirigir e veio a Veneza divulgar seu novo filme, The Company You Keep (fotos ao lado e abaixo), que adapta livro de Neil Gordon, com roteiro de Lem Dobbs. O elenco, encabeçado pelo próprio Redford, que hoje em dia atua pouco, é dos sonhos – escala Susan Sarandon, Nick Nolte, Richard Jenkins, Julie Christie, Terrence Howard, Brendan Gleeson e Shia LaBeouf nos principais papéis.
O tempo da história é hoje, mas o que se revê é um passado de 30 anos atrás, quando militantes anti-guerra do Vietnã do grupo Weather Underground passaram a usar da violência, assaltando bancos e explodindo prédios. Um desses assaltos resultou numa morte e colocou na clandestinidade os seus perpetradores, que mudaram de identidade e nunca foram encontrados – até agora, quando acaba de ser presa uma integrante que se preparava para entregar-se, Sharon (Susan Sarandon).
A verdadeira identidade de Jim Grant (Redford), advogado que se recusou a defender Sharon, acaba sendo exposta por um repórter ambicioso, Ben Shepard (Shia LaBeouf) – o que dá oportunidade a que o filme reflita não só sobre a militância política que parte para o extremismo, como sobre o próprio jornalismo.

Na concorrida coletiva do filme, hoje, Redford contou que sempre pensou em fazer um filme sobre o Weather Underground, mas há 30 anos atrás não lhe pareceu a hora certa. “Hoje você pode olhar para trás e ver com mais serenidade um período que pertence à história dos EUA”, comentou.
Muito calmo e ponderado, mas firme em suas notórias convicções esquerdistas de toda a vida, o ator e diretor não escondeu ter simpatia pelos militantes que seu filme focaliza. “Creio que a causa deles era justa. Eles se negavam a apoiar uma guerra injusta (do Vietnã), eram a favor da liberdade de expressão, da igualdade”. Para ele, o fato de terem recorrido à violência também se explica no contexto da época, embora ele não apóie. O que mais o interessou para fazer o filme foi justamente poder colocar as diferentes avaliações dos militantes diante de suas opções do passado – inclusive os que não se arrependem de nada, como a personagem de Julie Christie.

Peça do século 19
Adaptando peça de Raul Brandão, ambientada no século 19, o diretor Manoel de Oliveira vibrou um clima de Anton Tchecov,no minimalismo dramático e eficaz de O Gebo e a Sombra – que conta a história de um casal, formado por um velho contador (Michael Lonsdale) e sua mulher (Claudia Cardinale), que vivem na penúria, na companhia da nora (Leonor Silveira).
O filho deles (Ricardo Trêpa), desaparecido há oito anos, acaba voltando e provoca uma grande tragédia, já que se trata de um ladrão, um homem impiedoso, sem qualquer disposição para cuidar nem dos pais, nem da mulher. Participam deste fino elenco também o ator português Luís Miguel Cintra e a francesa Jeanne Moreau, tornando o filme mais uma daquelas pequenas jóias de dramaturgia e interpretação que o cineasta português consegue produzir como poucos.