Kim Ki-duk agrada em Veneza com sua tragédia de vingança em "Pietà"
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 04/09/2012
- Tempo de leitura 4 minutos
A religiosidade ressurgiu na competição em Veneza sob uma chave dessacralizante, no título, aliás enganoso, de Pietà, um drama duro, tingido das cores da tragédia grega, assinado pelo sul-coreano Kim Ki-duk. O nome da famosa escultura de Michelangelo remete, na verdade, a uma dilacerante e profana relação entre mãe e filho, que oculta o mecanismo de uma temível vingança, um dos temas favoritos do possante cinema da Coréia do Sul.
Vencedor do Leão de prata de melhor diretor em Veneza em 2004, com Casa Vazia, Ki-duk instala um clima de tensão e impiedade no retrato de um cobrador a serviço de agiotas, Kang-do (Lee Jung-jin). O jovem é o retrato do mal, ao pressionar endividados que não honraram os juros escorchantes, levando-os a se auto-mutilarem, para que o chefão receba as indenizações.
A chegada de uma mulher misteriosa, Mi-sun (Cho Min-soo), dizendo-se mãe do rapaz, rompe o padrão dessa rotina doentia. Kang-do não aceita facilmente a estranha, duvidando do que ela afirma – é mesmo sua mãe que o abandonou no nascimento? Por que voltou agora?
Há um clima de suspeita, que a direção precisa de Kim Ki-duk sustenta em favor de uma história que, como ele disse na coletiva de hoje (4/9), procura abraçar a humanidade – este o significado do título que escolheu – e também denunciar o capitalismo extremo, do qual o cobrador do filme é um dos algozes.
Sacrifício
O tom de tragédia grega que impregna Pietà é mantido também por uma sucessão de imagens fortes, envolvendo mutilações e estupro. Mas é uma violência perfeitamente orgânica neste universo do filme, que foi extremamente bem-recebido na sessão de imprensa, como um possível candidato ao Leão de Ouro.
Na coletiva, o cineasta sul-coreano admitiu que ainda é conhecido em seu país como “um diretor famoso na Europa”, em cujos festivais é frequentemente acolhido e premiado. Em sua própria terra, embora assinale que tem um grupo de fãs fieis, ele reclama que seu trabalho não é muito distribuído – fruto da ação de produtoras, a serviço das majors internacionais, que são também donas dos multiplexes e que preferem projetos de entretenimento de massa. Um dilema que se repete em outras partes do mundo, inclusive no Brasil.
Guerra portuguesa
Num ano em que não há um único longa brasileiro selecionado, nem nas mostras paralelas (apenas um curta, O Afinador), foi bom poder ouvir português, no caso de Portugal, na produção Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento.
Viúva de Raul Ruiz, montadora de seus filmes, a também chilena Valeria herdou o projeto que ele começou a preparar, mas morreu antes. Felizmente, foi adiante, tocado com o produtor português Paulo Branco, numa coprodução Portugal/França, com roteiro de Carlos Saboga e um elenco dos sonhos, frequentado por John Malkovich, Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Marisa Paredes, Mathieu Amalric, Melvil Poupaud e um notável grupo de atores portugueses, como Nuno Lopes, Soraia Chaves, Victoria Guerra e Diogo Dória.
Ambientado em 1810, o enredo mostra a invasão francesa sofrida por Portugal, que foi ajudado pelos ingleses a defender-se, enquanto o rei D. João VI fugia para o Brasil. D. João, na verdade, não é citado neste filme, que fecha o foco totalmente no impacto desta invasão e no sofrimento causado pela guerra, vista de vários pontos de vista.
Uma notável galeria de personagens carrega o interesse da história, fugindo ao ranço que tantas vezes contamina os filmes de época. Várias destas personagens são femininas e a diretora salientou, na coletiva, que foi através delas que conseguiu criar uma ligação emocional com esta história, tornando-a sua. Valeria contou ter-se inspirado em várias histórias de mulheres perseguidas pela ditadura chilena para compor sua galeria – em que se destacam a espanhola Marisa Paredes, como dona Filipa, e a prostituta Martírio (Soraia Chaves), esta última um delicioso alívio cômico de algumas situações.
O interesse nas mulheres, que acompanhavam os maridos na guerra, ou fugiam, ou combatiam os invasores, além das prostitutas, já estava, aliás, no roteiro original de Saboga – que contou ter procurado falar mais das pessoas que sofreram a guerra do que dos fatos bélicos, que, no entanto, não são desprezados.
É uma grande e digna produção, que também se desdobrou numa série de TV – reproduzindo a situação de Mistérios de Lisboa, uma das últimas grandes obras de Raul Ruiz.
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