06/06/2026

Gângsters de Kitano invadem Veneza

Começando sua segunda e última semana, Veneza apontou para outros temas. No caso, o banditismo da Yakuza japonesa e sua ligação incestuosa com a polícia, na visão pessimista, mas divertida, do japonês Takeshi Kitano em Outrage – Beyond – a primeira sequência de sua carreira, prosseguimento de Outrage (2010) – e também um denso, sensível e complexo retrato de geração, visto no francês Après Mai, obra madura e envolvente de Olivier Assayas sobre a passagem à vida adulta e o desejo de mudança pessoal e política da juventude dos anos 1970, pós-maio de 1968.
Après Mai é um dos filmes mais universais de Assayas, um cineasta em franca evolução, como demonstrou em seu recente trabalho, a minissérie Carlos. No retrato de seus jovens ansiosos por mudanças, vividos com talento por atores como Clément Metayer, Lola Créton e Félix Armand, pode-se enxergar diversos pontos de contato com o Brasil – e certamente com muitos outros países – nas procuras e nas escolhas dos personagens. Tanto aqueles que buscam a transformação social a qualquer preço, enfrentando uma polícia extremamente violenta pau a pau, com bastões e coquetéis molotov, como entre aqueles que caem na estrada e viajam no sexo e nas drogas, aquilo que no Brasil dos anos 1970 se chamava “desbunde”.
Mas o tempo de Assayas tambèm aponta para hoje. O eco autobiográfico dos anos 1970, quando ele mesmo entrou na vida adulta, é evidente, especialmente nas linhas do protagonista, Gilles (Clément Metayer), um jovem pintor que se envolve com o movimento anarquista, mas sente como mais forte o chamado da arte, inclusive do cinema, que ele procurará fazer.
Em Après Mai, Assayas reabilita não só a utopia da juventude, utopia possível e concreta, sujeita a reavaliações e desvios de rota, como do eterno desejo de mudança da humanidade mesma. E também consegue ultrapassar o cânone, que muitas vezes virou um chavão intimidador, porque sacralizado, dos moldes da utopia política de 1968, recolocando-a em termos universais e atemporais. É um dos melhores filmes da seleção deste ano.

Rejeição ao 3D
Concorrendo novamente ao Leão de Ouro – que ganhou em 1997 com o poético Hana-Bi – Fogos de Artifício-, com um novo e violento filme sobre yakuzas (os mafiosos do Japão), Outrage - Beyond o diretor japonês Takeshi Kitano fez uma veemente crítica ao 3D na coletiva do filme, nesta segunda (3-9).
Indagado sobre o que pensava do formato, em alta no cinema mundial, Kitano declarou: “Se são 3D, são filmes pornográficos, o 3D não serve para outra coisa”.
Em Outrage - Beyond, Kitano assina, pela primeira vez em sua carreira, uma sequência de trabalho anterior, no caso Outrage, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 2010. Ele admitiu que pode haver um terceiro filme e já tem até um roteiro pronto. “Depende de eu conseguir produzi-lo”. Ao seu lado, o produtor Massayuki Mori descartou: “Neste momento não pensamos nisto, vamos ver”.
Em Outrage – Beyond, Kitano também atua, interpretando Otomo, um yakuza banido do clã Sanno que estava na prisão e se acreditava morto. Mas é solto por um policial corrupto, Kataoka (Fumiyo Kohinata), que recebe dinheiro dos gângsters e cria uma série de situações que levarão a um banho de sangue.
Embora seja menos violento do que o primeiro Outrage, o novo filme não deixa de conter cenas explícitas, bem ao gosto do humor negro peculiar de Kitano – caso do uso de uma furadeira como instrumento de tortura; quando um bandido (Hideo Nakano) arranca um pedaço do próprio dedo a dentadas; e particularmente numa execução usando-se uma máquina lançadora de bolas de beisebol contra uma vítima amarrada numa cadeira.
Todas estas situações foram recebidas com risadas nas sessões do filme, o que Kitano comentou assim na coletiva: “Quando criei estas cenas, não pensei especificamente em produzir risos. Mas é claro que eu procuro um certo tipo de excesso, de contraste. Se o público se diverte, melhor”.
Ele rejeitou cobranças de maior realismo, como numa sequência em que um chefão anda pela rua sem qualquer guarda-costas. “Este é um filme, uma forma de diversão”.
Mas o diretor admitiu que há mais realismo na ênfase na corrupção policial, mostrando agentes de alto escalão na folha dos pagamentos da Yakuza. “É o mesmo que acontece em todo o mundo. Aqui na Itália, também existe a Máfia, e ela está igualmente muito ligada à polícia. No Japão é a mesma coisa, algo que se vê todos os dias”.
Kitano também assumiu sem rodeios ter tido contatos com mafiosos reais, quando lhe perguntaram se algum dia eles reclamaram da maneira como são retratados em seus filmes. “No passado, eu cheguei a ter vários yakuzas por perto e ouvia muitas opiniões diferentes. Depois, no Japão baixou-se uma lei proibindo qualquer tipo de contato com eles. Agora, só posso dizer que não tenho mais esse acesso, não sei o que pensam de meus filmes”.