06/06/2026

Religião, grande tema do festival, reaparece em novo filme de Malick

Um dos temas deste 69º Festival de Veneza é indiscutivelmente a religião. Uma versão extremada, fanática, percorre o concorrente austríaco ao Leão de Ouro, Paradise: Faith, de Ulrich Seidl – em que uma mulher madura se fustiga diante do crucifixo e usa o silício para reprimir seus instintos eróticos. Numa chave muito diferente, à procura de um retrato da comunidade judaica ultra-ortodoxa hassídica, está o drama israelense Fill the Void, da diretora Rama Burshtein. E, finalmente, filtrada entre os personagens de To The Wonder, de Terrence Malick, uma fluida crônica sobre o amor, a decadência ambiental e a fé, interpretada por Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams e Javier Bardem – no papel de um padre em profunda crise.

De vários modos, To the Wonder (algo como “de encontro ao maravilhoso”), é uma espécie de novo capítulo do muito superior A Árvore da Vida (Palma de Ouro em Cannes em 2011). Neste novo filme, reaparecem questões como a família, aqui focalizada sob o aspecto da instabilidade da relação amorosa, envolvendo Affleck, um engenheiro norte-americano especializado em contaminação ambiental; Olga, como uma francesa e mãe separada por quem ele se apaixona numa viagem a Paris; e Rachel, uma americana que ele conhecia desde a adolescência, hoje divorciada e dona de um rancho arruinado (comentário sobre a crise econômica atual dos EUA? Talvez).

A religião entra a princípio sutilmente, já que a francesa, católica, quer se casar com o noivo americano – e não pode, porque já se casou na igreja antes. É sobretudo a figura do padre vivido por Javier Bardem a que se torna porta-voz do que o diretor Malick quer dizer sobre o assunto. Embora profundamente dedicado especialmente às populações marginais de sua paróquia, no interior dos EUA, o sacerdote debate-se com uma incontornável falta daquela fé inflamada, daquele lampejo divino que o inspirou a tomar a batina.

Dada a ênfase nas dúvidas do padre, não há como duvidar: neste filme, Malick faz um chamado à procura do maravilhamento espiritual, que tem a ver com uma busca de Deus, de enxergar o seu plano nas coisas deste mundo. E, neste sentido, parece mais redutor do que A Árvore da Vida, que convocava a questionamentos mais cósmicos, mais abrangentes. Mas repete-se aqui o zelo pelas belas imagens, a montagem dessincronizada (como sempre,com vários montadores) – aí, o encantamento de Malick continua intocado. Os personagens falando várias línguas também sinaliza uma busca de universalização, que a ênfase religiosa pode atrapalhar.

Mundo fechado

Nascida em Nova York, formada em cinema em Jerusalém, onde se tornou muito religiosa – como ela descreve no material de imprensa de Fill the Void -, Rama Burshtein é certamente uma insider da comunidade hassídica. Por isso, seu filme é extremamente belo na construção da riqueza de detalhes, que impressiona e ajuda a colocar o espectador dentro da história de Shira (Hadas Yaron). Um excelente trabalho do diretor de fotografia Asaf Sudry.

Garota de 18 anos, Shira está começando a cogitar seu casamento – aliás, a única função das mulheres dentro desta visão ultrarreligiosa do mundo, como o filme
ndeixa muito claro. Um casamento, que se não é imposto propriamente, já que os noivos devem concordar, é arranjado mediante contatos entre as famílias num círculo muito restrito – do qual estão excluídos judeus seculares, muito menos membros de outras religiões.

A morte de sua irmã, Esther (Renana Raz) no parto do primeiro filho confronta Shira com uma outra questão. Para evitar que o genro, Yochay (Yiftach Klein), parta com seu único neto para a Bélgica, onde encontrou uma nova mulher, sua sogra Rivka (Irit Sheleg) procura convencer a filha Shira a casar-se com ele.

É verdade que há negociações. O pai de Shira não deseja este casamento, ela mesma resiste ao arranjo que contraria seus sentimentos e tabus. Mas é muito difícil identificar o que ela pensa, o que ela sente. Fill the Void levanta um véu sobre este ambiente complexo, em que há muita comunhão e alegria, mas é também muito fechado em si mesmo.

No material de imprensa, a diretora justificou também não ter pretendido comentar outro tema crucial na sociedade israelense moderna, o confronto entre os judeus ultrarreligiosos e os seculares, o que é uma pena, pois enriqueceria o filme. Mesmo no retrato das mulheres, das quais Rama compôs uma notável galeria de várias gerações, sente-se uma certo refreamento. Talvez alguém de fora da comunidade pudesse infiltrar Fill the
Void
de uma reflexão mais ampla da condição feminina. Neste contexto, sua individualidade parece condenada à asfixia.