06/06/2026

"The Master", de Anderson, eletriza Veneza com sua crônica sobre um culto místico

The Master, do norte-americano Paul Thomas Anderson (três primeiras fotos), não decepcionou quem esperava um novo filme forte, consistente, cheio de imagens e diálogos envolventes do diretor de Sangue Negro e Magnólia. É um digno concorrente ao Leão de Ouro ou outras premiações em Veneza, inclusive para a dupla de atores, Philip Seymour Hoffman, como o personagem-título, e Joaquin Phoenix, eficaz como há muito não se vê na pele do marinheiro Freddie, que toma Dodd como mentor, dentro de um culto místico.
A livre inspiração do roteiro original de Anderson na biografia de L. Ron Hubbard, criador da cientologia, que tanto se discutiu nos últimos tempos foi, afinal, assumida pelo cineasta. “Não conheço muito sobre cientologia, mas o início daquele movimento serviu como inspiração para o cenário desta minha história. Este assunto não é um ‘elefante na sala’”, afirmou na coletiva, respondendo à questão de um jornalista.
Anderson também confirmou ter mostrado seu filme a Tom Cruise (um adepto conhecido da cientologia e ator em Magnólia) e que “continuam amigos”. Mas não quis entrar em mais detalhes sobre o que conversaram: “Isto fica entre nós”.
A Causa
Ambientado em 1950, The Master certamente não se limita a uma abordagem sobre um culto. Philip Seymour Hoffman interpreta com a habitual energia Lancaster Dodd, o líder de uma seita chamada A Causa, formada em torno de suas idéias sobre viagens no tempo, reencarnação e vida em outros planetas. A Terra, aliás, teria trilhões de anos.
Lancaster aproxima-se de pessoas ricas, que submete a hipnose em sessões em que, supostamente, elas recordam suas vidas passadas. Vive uma vida muito confortável com sua mulher (Amy Adams), filhos e alguns colaboradores. Um dia, o desgarrado Freddie, um ex-marinheiro alcoólatra que voltou da II Guerra, entra como clandestino no barco de uma milionária que está sendo usado por Lancaster, no casamento de sua filha.

A partir daí, contra a aparente lógica, Lancaster toma Freddie como seu protegido, desconsiderando seus evidentes sinais de descontrole, com surtos violentos. Há uma atração mútua entre os dois, que tem vários sentidos – e que tanto Anderson quanto Seymour Hoffman descreveram na coletiva como “amor”. O diretor do filme rejeitou inclusive a colocação de uma jornalista, que enxergou na relação entre os dois homens algo como pai e filho, ou mesmo mestre e servo. Ele não concorda com nenhuma delas.
Embora a situação descrita no filme possa realmente se passar em qualquer lugar, há muito de norte-americano em todo o seu clima – e não há como negar que The Master dialoga com o próprio conceito fundamental do EUA, a mítica terra da liberdade e da oportunidade. Como descreveu Anderson, falando sobre a época da história, 1950: “Era o pós-guerra, quando havia muitas esperanças, mas havia muitos cadáveres por trás de tudo”.
De algum modo, pelo mesmo período, por uma percepção de fratura de um sonho americano, The Master dialoga com A Árvore da Vida, de Terrence Malick – outro diretor que está na competição aqui, com o novo To The Wonder, que será exibido neste domingo (2-9), por aqui. São, de fato, dois dos cineastas mais interessantes daquele país, vindos de duas gerações diferentes, mas com diversos pontos em comum.

Amarga Sicília, amarga Itália
Causou uma boa impressão o primeiro concorrente italiano, È Stato Il Figlio (foto ao lado), de Daniele Ciprì (diretor de fotografia de Vincere, de Marco Bellocchio). Baseado no romance homônimo de Roberto Alajmo, o filme tematiza, em tom surrealista, com um humor no limite do patético, a história de uma família simples siciliana, encabeçada por Nicola Ciraulo (Toni Servillo, o excepcional protagonista de Il Divo).
A história parte de um homem misterioso, Busu (o ator chileno Alfredo Castro, de Tony Manero), que passa seus dias numa agência de correio, contando casos estranhos. Como o dessa família, que vivia um cotidiano pobre, sustentada pelo trabalho do pai (Servillo) numa fabriqueta de reciclagem de restos de metal, recuperado de navios velhos.
A vida do pequeno clã toma um rumo imprevisto quando sofre uma tragédia, é convencida a pedir indenização à justiça e, uma vez, vitoriosa, vive na espera desse dinheiro que nunca vem – o que leva Nicola a empréstimos com mafiosos.
O que concede originalidade ao filme é o tom irônico, de um humor negro ao qual não falta compaixão por seus personagens, nem a reflexão sobre uma região e um país decadente. O diretor, na coletiva, enfatizou essa face dupla de seu trabalho: ‘É um filme mortuário, mas sorridente”. E também um trabalho animador no panorama do cinema italiano recente.
Gitai e Rosi
Nas seções paralelas ontem, várias atrações de cineastas consagrados. Caso do israelense Amos Gitai, com um pungente documentário, esplendidamente filmado, sobre seu pai, o arquiteto Munio Weinraub, em Lullaby to my Father (foto ao lado). O filmede Gitai foi antecedido pelo curta Clarisse, da italiana Liliana Cavani, entrevistando freiras de clausura, da ordem das Clarissas, discorrendo sobre temas como uma relativa misoginia da Igreja Católica, que não permite às religiosas celebrar missas ou ter maiores cargos na hierarquia eclesiástica.
Do mestre italiano Francesco Rosi, vencedor do Leão de Ouro de carreira este ano, a programação exibiu não só o famoso O Caso Mattei, com a presença do cineasta para receber seu troféu, como o bem menos conhecido e lindamente restaurado Camicie Rosse – que Rosi codirigiu com Goffredo Alessandrini e apresenta a derrocada de Giuseppe Garibaldi (Ralf Vallone), ao lado de uma Anita Garibaldi interpretada pela magnífica, como sempre, Anna Magnani.