23/09/2026

Veneza assiste a drama sobre fanatismo religioso e documentário sobre Michael Jackson

A competição em Veneza tomou dois rumos bem distintos em seu segundo dia,contrapondo a radicalidade contundente do austríaco Ulrich Seidl, com o segundo capítulo de sua mais recente trilogia, Paradise: Faith – depois de Paradise: Love, apresentado em concurso em Cannes em maio – e a diluição pasteurizada do drama familiar norte-americano At Any Price, dirigido pelo norte-americano de origem iraniana Ramin Bahrani (Goodbye Solo).

Seidl compartilha com o compatriota Michael Haneke um estilo duro e sem concessões, embora ainda mais áspero e desesperado diante de aspectos doentios do ser humano, aqui em confronto com a fé religiosa. A protagonista é Anna Maria (Maria Hofstätter), mulher madura e só, obcecada pela fé católica. Participa de um grupo que, entre outras coisas, deseja tornar a Áustria “católica novamente”. De férias, passa seus dias percorrendo a periferia de sua cidade, batendo em portas e levando consigo uma imagem da Virgem Maria, numa insistente tentativa de conversão de imigrantes e marginais da sociedade.

Essa rotina imaculada é rompida com o retorno do marido de Anna, Nabil (Nabil Saleh), um muçulmano e paraplégico, cuja presença cria uma verdadeira guerra na esfera íntima da mulher. Nabil deseja retomar a vida sexual com a mulher, que nega qualquer espaço ao prazer físico em sua vida, fustigando-se diariamente diante de um Cristo crucificado na parede, no mais puro estilo medieval fanático.

Ainda que se possa ressentir no filme de alguma falta de nuance, ou mesmo de sua duração – o mais duro e puro estilo de Seidl -, a interpretação de Maria Hofstätter, atriz de filme anterior do diretor, Dias de Cão (2001), é impressionante. Esta edição de Veneza parece que não terá falta de atrizes para disputar o prêmio feminino de interpretação.

Coração rural

Quanto a At Any Price,, não há como deixar de se surpreender com o desperdício de um bom leque de bons temas, do choque de gerações à crise econômica que balança há tempos a maior economia do mundo, inclusive este seu coração rural, em Iowa, centro produtor de milho.

Mesmo os protagonistas masculinos, interpretados por Dennis Quaid e Zac Efron, são tão estereotipados e monocórdicos, que a força de seus conflitos escapa facilmente num mar de clichês diluídos. Nesse contexto, sobra pior ainda para as personagens femininas, reduzidas a chavões tradicionais, da mãe santificada (Kim Dickens), a moça vulgar da cidadezinha (Heather Graham) e a menininha-inocente-que-vai-escapar-de-tudo-isso (Maika Monroe). A pergunta que não cala é: o que este filme faz aqui, exceto trazer algumas caras famosas de Hollywood, como Zac Efron? A resposta é simples de adivinhar.

Michael Jackson

Em compensação, como previsto, o documentário Bad25, de Spike Lee (foto), celebra não só os 25 anos do lançamento do famoso álbum Bad – que são comemorados exatamente hoje (31-8), data das sessões do filme no festival – como enfatiza o lado genial do cantor, compositor, dançarino, produtor, pianista/tecladista, cinco dos muitos talentos de Jackson.

Extremamente bem-produzido, o filme é uma festa para os fãs do artista, com várias imagens inéditas de bastidores,de ensaios, de conversas, de filmes feitos por ele mesmo, além de conversas com seus mais próximos colaboradores e admiradores, como Martin Scorsese e Stevie Wonder.

Nem se esperava outra coisa de um cineasta qualificado como Lee, que mergulhou num mar de imagens e conversas para contrapor toda e qualquer satanização que em vida tenha cercado o cantor, morto há 3 anos. O circo da mídia da pior espécie em torno das supostas esquisitices de Jackson foi banido do documentário, exceto pelas ocasiões em que o próprio Michael as exorcizou de algum modo através de sua música.

Também aparecem algumas referências nem sempre devidamente mencionadas no trabalho de Jackson, que tinha grande admiração por dançarinos como Fred Astaire e Gene Kelly, motivo pelo qual são inseridos trechos de musicais como Band Wagon, de Vincent Minnelli.

Na coletiva desta tarde, Lee disse: “Esta é a época de apenas tocar no seu gênio, na sua música. Você em geral não vê o sangue,suor e lágrimas que há por trás de um trabalho da qualidade do dele”.

O cineasta definiu seu documentário como “uma carta de amor a Michael”. Lee, que nasceu um ano antes do cantor, em 1957, contou que “cresceu com ele” e que ao vê-lo no show de Ed Sullivan, “quis ser ele”.

Bad25 circulará em duas versões, a vista neste festival, com 123 minutos, e uma outra, ligeiramente editada, destinada à TV. O álbum também será relançado internacionalmente em três versões, com material inédito.