Brasília encerra competição num ano de novos diretores e personagens femininas
- Por Neusa Barbosa
- 24/09/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
O Festival de Brasília 2012 chegou ao final, esperando hoje (24) à noite suas premiações. O balanço é positivo, promissor na revelação de bons nomes de uma nova geração, especialmente pensando nos longas pernambucanos – embora tenha sobressaído, mais uma vez, a questão da dificuldade de estabelecer, se é que isso é preciso, uma fronteira entre ficção e documentário. Nos curtas, de animação ou não, o otimismo é menor – não foi um ano especialmente instigante na seleção do formato.
A última noite competitiva, no domingo (23), reforçou a sensação de que, na ficção, Era Uma Vez Eu, Verônica (foto acima), de já veterano Marcelo Gomes, é o favorito aos prêmios principais – embora se possa pensar com justeza em premiações de algum tipo a filmes como os cariocas A Memória que me Contam, de Lúcia Murat, ou mesmo Noites de Reis, de Vinicius Reis. De todo modo, um dos longas marcantes de novos diretores foi Eles Voltam, de Marcelo Lordello, arriscando – aliás, como outros pernambucanos, Marcelo Gomes incluído – entrar na voragem do contemporâneo, do aqui e do agora, na pele de uma personagem tão jovem quanto a vivida pela pré-adolescente Maria Luiza Tavares.
Emoções e luto
Já que foi feita a divisão, é justo comentar em separado os filmes desta seleção, onde se destacou a emocionalidade do último concorrente exibido no domingo, Elena, de Petra Costa (SP), que faz um réquiem à irmã da diretora e, ao mesmo tempo, incorpora seu desejo não só de elaborar este luto como de reconstruir sua própria identidade diante do trauma.
No documentário – mas não só -, foi um ano de abordar a diversidade sexual e também fortes personagens femininas, ambas as questões unidas na protagonista de Kátia (foto acima), de Karla Holanda, retrato de Kátia Tapety, uma travesti política e carismática do Piauí. O feminino ressurgiu na quase totalidade das personagens de Doméstica, de Gabriel Mascaro, desvelando o que fica escondido entre a cozinha e a sala do jantar nas relações sociais e trabalhistas de tantos lares brasileiros; e também Flor, a mulher uruguaia do diretor mineiro Cao Guimarães que ocupa quase todos os fotogramas de Otto, o filme que ele fez para desvelar o processo de amor que levou ao nascimento do filho dos dois.
Mas figuras masculinas também polarizaram outros documentários, especialmente Olho Nu de Joel Pizzini, que gira em torno do carismático Ney Matogrosso – o mais famoso personagem retratado num filme documental este ano. Ao seu lado, Um filme para Dirceu, da estreante em longas Ana Johann, recoloca o foco num protagonista que emerge do comum, da vida diária.
Personagens femininas
Também na ficção, personagens femininas fortes não faltaram – a começar pela sempre visceral Hermila Guedes de Era uma vez eu, Verônica (foto ao lado), sem dúvida uma forte candidata ao prêmio de melhor atriz. Mas Simone Spoladore (em A Memória que me Contam), Bianca Byington (em Noites de Reis) e as novatas Christiana Ubach (de Boa Sorte, Meu Amor) e Maria Luiza Tavares (Eles Voltam) ficaram na memória também.
Mesmo mostrando fôlego entre os novatos revelados neste festival, Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão (PE), parece destinado a prêmios técnicos – como sua esplêndida fotografia em preto-e-branco, de Pedro Sotero.
Entre os atores, Enrique Díaz, em Noites de Reis, parece uma aposta segura, defendendo uma interpretação sensível, num filme dramaticamente muito lacunar.
Entre as ficções, o concorrente que mais encarnou a fluidez da fronteira entre documentário e ficção foi o último exibido, o delicado O Amor que nos Consome, do estreante Allan Ribeiro (RJ) - que, aliás, inscreveu-se nos dois gêneros, sendo aceito como ficção.
Revisitando os personagens de um de seus curtas premiados, Ensaio de Cinema, Gatto Larsen e Rubens Barbot, companheiros de vida e de arte há cerca de 40 anos, Ribeiro colocou na tela uma história profundamente entremeada de realidade, sobre a luta de sobrevivência de sua companhia de dança, ocupando um casarão no centro velho do Rio de Janeiro, sob constante ameaça de deslocamento, já que o casarão está à venda - o que não impede Larsen e Barbot de levarem adiante seus projetos.
Revisitando os personagens de um de seus curtas premiados, Ensaio de Cinema, Gatto Larsen e Rubens Barbot, companheiros de vida e de arte há cerca de 40 anos, Ribeiro colocou na tela uma história profundamente entremeada de realidade, sobre a luta de sobrevivência de sua companhia de dança, ocupando um casarão no centro velho do Rio de Janeiro, sob constante ameaça de deslocamento, já que o casarão está à venda - o que não impede Larsen e Barbot de levarem adiante seus projetos.
Curtas
Dos 18 curtas exibidos em três seções competitivas – ficção, documentário e animação -, muito pouco restou no final. Na ficção, o melhor foi A Mão que Afaga, de Gabriela Amaral Almeida (SP), já exibido em outros festivais, assim como Uma Canção para Minha Irmã, de Pedro Severien, a se elogiar por sua elaboração estética e o intenso monólogo da atriz Sandra Possani.
Nos documentários, o melhor segmento entre os curtas, sobressaiu A Cidade, em que a diretora gaúcha Liliana Sulzbach elaborou uma versão mais curta de seu trabalho premiado pelo É Tudo Verdade 2012; a experiência (embora a realização deixe a desejar) de Câmara Escura, de Marcelo Pedroso;
a paixão do ativismo de A Ditadura da Especulação, do coletivo Zé Furtado (DF) e a liberdade de experimentar nas fronteiras dos gêneros de A Onda Traz, o Vento Leva, de Gabriel Mascaro (diretor do longa Doméstica).
a paixão do ativismo de A Ditadura da Especulação, do coletivo Zé Furtado (DF) e a liberdade de experimentar nas fronteiras dos gêneros de A Onda Traz, o Vento Leva, de Gabriel Mascaro (diretor do longa Doméstica).
A animação, por sua vez, foi o setor mais fraco. Apenas Linear, de Admir Admoni (SP), também exibido em outros festivais, ficou muito acima da média. Destimação, de Ricardo de Podestá (GO) tem seu valor mas padece do vício comum à maioria das animações: falta maior elaboração no roteiro.
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