Retratos íntimos e familiares repercutem em Brasília
- Por Neusa Barbosa
- 21/09/2012
- Tempo de leitura 4 minutos
A quinta-feira (20-9) no Festival de Brasília foi uma noite conduzida por retratos íntimos na competição de longas. Como o premiado cineasta mineiro Cao Guimarães e seu novo documentário, Otto (foto), em que retrata sua nova paixão por uma jovem uruguaia, Flor, sua viagem com ela a Istambul – colhendo diversos instantâneos da capital turca – e finalmente o bebê que resultou do romance e dá nome ao filme.
O filme tem poucos diálogos e aposta nas belíssimas imagens que Cao, diretor de A Alma do Osso, Andarilho e Ex-Isto, é capaz de compor, combinando seus talentos de videoartista. É um filme de sensações, que segue a temperatura de uma paixão, com uma câmera enamorada da beleza de uma mulher e de uma cidade, com muita água ligando as cenas. Uma espécie de vídeo-álbum de retratos compartilhado, com uma sofisticação e um conceito muito maior, claro, do que aqueles colocados nas redes sociais.
O longa ficcional da noite, o pernambucano Boa Sorte, Meu Amor, do estreante Daniel Aragão, apresenta roteiro visivelmente inspirado numa história familiar. Com uma fotografia em preto-e-branco e referência dramática que remete a Cláudio Assis, Aragão contou a história de um jovem (Vinicius Zinn), que conhece e se apaixona por uma mulher rebelde e desenraizada, Maria (Christiana Ubach) – que, como seu parceiro, deixou para trás o sertão e procura romper suas ligações com a oligarquia rural e o atavismo de situações sociais de desigualdade e opressão ligados à própria história do Nordeste.
Assistente de Marcelo Gomes (que hoje mostra na competição aqui o aguardado Era uma vez eu, Verônica, com Hermila Guedes) em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e diretor de diversos curtas, como Solidão Pública (2008), Aragão empenha-se em escavar uma espécie de retrato a sangue quente de uma jovem classe média em choque com procuras existenciais e o seu contexto de origem, de famílias disfuncionais com um histórico, não raro de várias gerações, de exploração no campo e, rumando para a cidade, entrando na especulação imobiliária – aliás, é notável a insistência com que os cineastas pernambucanos nesta seleção têm procurado denunciá-la em Recife.
Esse acúmulo de temas relevantes, somados à bela fotografia do filme (de Pedro Sotero) e o bom desempenho dos atores são pontos fortes a elogiar no trabalho do diretor. No entanto, há uma certa predominância do estilismo que contamina um pouco o que se quer dizer, tirando-lhe ritmo e parte da contundência. Falta amadurecer um pouco mais a pegada deste diretor, mas é promissor.
Curtas
Um dos raros concorrentes paulistas nesta edição de Brasília, o documentário A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins, resgatou a história de diversos desenhistas nipo-brasileiros que sofreram perseguição e censura ao criarem, nos anos 1960, em São Paulo, um núcleo de sucesso popular e comercial de produção de quadrinhos eróticos em plena ditadura – com personagens como os hoje pouco conhecidos Maria Erótica, Chico de Ogum e Beto Sonhador, vistos em animações produzidas para o filme.
Outro paulista, o ficcional A Mão que Afaga, de Gabriela Amaral Almeida, demonstrou a procura de um humor amargo, na linha entre Wes Anderson e Todd Solondz, ao contar a história da festa de aniversário do filho de uma operadora de telemarketing, Estela (Luciana Paes). Em 19 minutos, a diretora conseguiu criar um flagrante preciso de um universo melancólico de uma personagem pertencente a esta que é uma das profissões mais aviltadas do mercado de trabalho atual.
A animação O Gigante, de Júlio Vanzeler e Luís da Matta Almeida (SC) – que é uma coprodução entre Brasil, Portugal, Espanha e Inglaterra – teve o mesmo defeito de outras produções do gênero, que tem premiação própria, apresentadas em dias anteriores – apuro técnico mas descuido no roteiro.
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