Brasília discute política e comportamento sexual no Brasil de hoje
- Por Neusa Barbosa
- 20/09/2012
- Tempo de leitura 4 minutos
A segunda noite competitiva em Brasília teve uma pegada contemporânea, com três filmes dirigidos por mulheres. O documentário Kátia (foto ao lado), de Karla Holanda, traça o perfil da primeira travesti eleita para um cargo público no Brasil, em pleno sertão piauiense, em Colônia. Na ficção, a carioca Lúcia Murat escreveu mais um capítulo de uma obra até aqui dedicada à análise da ditadura militar, em A Memória que me Contam.Nos curtas, quem mais se aproximou dessa vertente foi a gaúcha Liliana Sulzbach (O Cárcere e a Rua), que mostrou uma versão mais curta (15 min) de seu documentário A Cidade – exibido no É Tudo Verdade -, recontando as memórias dos últimos habitantes de Vila Itapuã, cidade em que, décadas atrás, eram segregados os pacientes de hanseníase. Trinta e cinco deles ainda vivem ali, no que hoje é uma cidade quase fantasma.
Desafio ao preconceito
O grande atrativo de Kátia certamente é a história inusual de sua protagonista, uma vencedora sorridente, triunfando sobre circunstâncias difíceis. Membro de uma família tradicional no Piauí, os Tapety, ela se tornou rapidamente um pária dentro do clã, diante da constatação de sua homossexualidade. Como ela conta no filme, o pai impediu até mesmo sua escolaridade, isolando-a dos parentes. Ele lhe dizia que “homossexual tinha que morrer”. Foi uma longa e doída trajetória até que José se transformasse em Kátia, três vezes eleita vereadora, uma vez vice-prefeita de Colônia (PI).
Com pouco mais de 50 anos hoje, Kátia é uma figura popular na cidade, visitando moradores, ouvindo e encaminhando queixas num país ainda assolado por deficiências sanitárias, educacionais, econômicas. O filme é também uma janela para vislumbrar um pedaço do país rural, que mescla um certo lado primitivo com uma evolução de costumes capaz, também, de integrar Kátia com eleitores que, em sua maioria, não são homossexuais. Oeiras, a cidade de 32.000 habitantes da qual Colônia se emancipou há 20 anos, hoje abriga até uma concorrida parada gay. O documentário revela um país complexo, multifacetado e ainda bem-humorado.
Adeus às utopias
Depois de Que Bom Te Ver Viva (1988), Quase Dois Irmãos (2003) e até Uma Longa Viagem (2011) – em que o tema da ditadura é o contexto -, Lucia Murat prossegue uma crônica sensível dos efeitos da ditadura em A Memória que me Contam (foto ao lado), cujo roteiro contou com a parceria da premiada escritora Tatiana Salem Levy (Prêmio São Paulo de Literatura em 2007 pelo romance A Chave de Casa).
É num tom de réquiem às ilusões de uma geração que participou da luta armada e se dividiu em torno de seus atos – indo da aceitação dos erros cometidos ao arrependimento – que a história situa um grupo de amigos, reunidos em torno de uma amiga que está morrendo.
Essa amiga, Ana – interpretada por Simone Spoladore -, aparece no filme sempre jovem, como uma figura onírica com que cada um dos participantes de duas gerações conversa em seus momentos de intimidade. Uma cineasta, Irene Constantino (Irene Ravache), funciona como alter ego da diretora. Os demais são um ministro da Justiça (ZeCarlos Machado), envolvido com os conflitos da abertura da Comissão da Verdade, os outros, vividos por Otávio Augusto, Clarisse Abujamra e Hamilton Vaz Pereira. O ator italiano Franco Nero interpreta Paolo, um ex-militante cuja história lembra a de Cesare Battisti.
Os filhos de várias destas pessoas também se relacionaram com Ana e guardam dela sua própria lembrança afetiva, já que Ana é uma figura mítica. Também é a partir deles, especialmente do casal gay formado por Miguel Thiré e Patrick Sampaio, que a história se propõe a discutir outras mudanças de comportamento da sociedade.
O filme é uma coprodução entre Brasil, Chile e Argentina e certamente contribui para uma discussão da história recente do país que ainda não está encerrada. Seu maior mérito é situar-se num momento de transição, como o atual, sem dúvida um risco a que a diretora se lança com bastante coragem.
Curtas
A ambição estética foi a característica mais marcante de Vereda, trabalho de conclusão de curso de cinema do paranaense Diego Florentino, com um tratamento de fotografia peculiar e imagens que remetem ao clássico Limite, de Mário Peixoto.
O aspecto técnico também foi o mais relevante a observar na animação Mais Valia, de Marco Túlio Ramos Vieira (MG) – já que o roteiro resultou bastante modesto ao ambientar-se num mundo habitado por animais, em que um chipanzé engravatado decide romper com a rotina massacrante, arrancando a camisa e a gravata.
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