Competição em Brasília destaca filmes buscando novas formas narrativas
- Por Neusa Barbosa
- 19/09/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Em seu primeiro dia competitivo, Brasília abriu espaço a filmes que tentaram, de algum modo, romper com uma narrativa tradicional, explorando novos caminhos, com índices variáveis de sucesso. Mas experimentação é bom e nenhum lugar melhor para isso do que o festival mais antigo do país, que nasceu sob a inspiração de Paulo Emílio Salles Gomes, homenageado nesta 45ª edição com livros e seminários.
Os dois longas da noite, ficção e documentário, foram assinados por novos diretores. No documentário, a estreante Ana Johann mostrou Um filme para Dirceu (foto), em que ela segue o músico Dirceu Cielinski – um jovem sanfoneiro (gaiteiro, no Paraná) que sonha viver da música e lida com as sequelas de uma mielite que o deixou paraplégico cerca de um ano.
A primeira inversão de expectativas foi o personagem ter encontrado a cineasta, não o contrário, como costuma acontecer. Ana foi conquistada para a ideia do filme no processo de sua construção, seguindo os desejos de Dirceu, jovem loquaz, impulsivo, conquistador, tudo normal em alguém de 23 anos que escapou da cadeira de rodas e continua dançando e querendo dançar nos bailões do país.
Expor na tela as próprias incertezas da filmagem, que se estendeu por três anos, e os ziguezagues da trajetória do personagem – que é divertido e carismático em vários momentos – não é novidade e nem sempre a diretora dá conta do mecanismo que escolheu. Ela mesma não se coloca propriamente no filme, optando por várias cenas em que conversa ao telefone com Dirceu – um recurso que se mostra repetitivo e não ajuda a clarear a proposta do documentário. No fim, Um filme para Dirceu é uma tentativa que não esgota suas muitas possibilidades.
Famílias disfuncionais
O longa de ficção da noite, Eles Voltam, do pernambucano Marcelo Lordello – que já exibira em Brasília dois curtas e seu longa de estreia, o documentário Vigias (2010) – disseca uma situação disfuncional e com uma ponta de surreal numa família de classe média alta do Recife.
Na primeira cena, são abandonados em plena estrada pelos pais os dois adolescentes Peu (Giorgio Kokkosi) e Cris (Maria Luiza Tavares). O tempo passa e os pais não voltam, criando o temor nos dois de que o castigo por terem brigado dentro do carro tenha, de algum modo, extrapolado suas previsões. Contra a vontade da irmã, Peu decide ir a pé sozinho até um posto de gasolina que não lhe parece tão longe.
Abandonada à própria sorte na noite que cai, Cris experimenta o medo, o desespero e finalmente o impulso de sair em frente, já que o irmão também não voltou. O filme acompanha essa experiência da garota de 12 anos, até então superprotegida, e tendo que fazer interações em ambientes que desconhece totalmente – como um acampamento de sem-terras, que permite ao filme expor a diferença social e até racial que norteia uma série de relações de discriminação no Brasil.
Sendo o ponto de vista da história o de uma menina rompendo o limite da infância, não é de estranhar que seja tão hesitante a maneira como a câmera (uma boa fotografia de Ivo Lopes Araújo) oscila sobre diferentes situações. É como se Cris fosse uma borboleta e revoasse de leve sobre as coisas, sem mergulhar de verdade, em encontros como com uma vizinha da casa de praia dos pais, uma colega de escola, mais adiante.
A revelação sobre a razão da demora dos pais, afinal, acumula mais uma camada de medo e dúvidas sobre Cris – cuja contenção encontra uma intérprete sensível na menina Maria Luiza Tavares.
Pensando bem, Eles Voltam pode ser, afinal, também um rascunho de retrato sobre uma, ou mais de uma
geração um tanto travada, um tanto perdida, mesmo dominando tanta tecnologia ao alcance da mão.
geração um tanto travada, um tanto perdida, mesmo dominando tanta tecnologia ao alcance da mão.
Curtas de acordo
Foi perfeita a integração entre os longas e os curtas da primeira noite, que também seguiram caminhos desconstrutivos, caso do pernambucano Câmara Escura, de Marcelo Pedroso, que executa uma experiência inusitada: o próprio cineasta monta algumas caixas, onde inclui uma câmera, que deixa na porta de algumas casas, sugerindo aos moradores que se trata de uma entrega. Sua intenção é descobrir o que essas pessoas, morando em verdadeiros bunkers, com muros altos, câmeras e interfones, farão diante de sua inesperada sugestão.
No final, o curta foi isso – uma experiência, que tem bons momentos, mas resulta insatisfatória e um tanto longa no resultado final.
Os dois curtas ficcionais andaram melhor – muito boa e contundente a animação Linear, de Admir Admoni (SP), seguindo uma criaturinha que pinta faixas nas ruas de São Paulo e cuja rebelião provoca um resultado dramático; e outro pernambucano lacunar, Canção para minha irmã, de Pedro Severien, cheio de sugestões em torno de um reencontro entre um presidiário (Tiago de Melo Andrade) e sua irmã (Sandra Possani), que defende um monólogo dos mais poéticos e inquietantes, num ambiente devastado por uma enchente.
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