23/09/2026

"A última estação" aborda sonhos e decepções dos libaneses no Brasil

Uma coprodução entre Brasil e Líbano – a primeira coprodução internacional do cinema brasiliense -, A última estação, de Márcio Curi, abriu nesta segunda (17), fora de competição o Festival de Brasília.
Com roteiro de Di Moretti e baseado em relatos de diversos imigrantes libaneses – inclusive do sogro do roteirista, o jornalista e escritor Georges Bourdoukan -, e locações em diversas regiões do Brasil (São Paulo, Bahia, Belém do Pará) e no Líbano, o filme coloca em primeiro plano um capítulo importante da imigração no Brasil, a colônia libanesa – que hoje, segundo o ator e protagonista libanês Mounir Maasri, atinge 9 milhões de pessoas, três vezes mais do que a população do próprio Líbano.
O enredo segue a história de dois irmãos, Tarik e Karim – na maturidade interpretados por Maasri e João Antônio, respectivamente -, que viajam ao Brasil ainda garotos, conhecendo no navio alguns outros imigrantes sírios, libaneses ou árabes, que, 50 anos depois, Tarik procurará reencontrar.
Na coletiva do filme, Di Moretti contou que a pesquisa do filme ouviu 47 imigrantes, cujas histórias nutriram os episódios que ganharam a tela. Entre os aspectos importantes que nortearam a produção,
o roteirista destacou a comunhão de culturas e o resgate de um orgulho de ser libanês. “Muitos deles revelaram esse desejo depois da quase humilhação sofrida após os atentados de 11 de setembro de 2001”.
Por esse motivo, Di achou importante situar nesse momento, no 11 de setembro, a nova diáspora de Tarik, quando, após a morte da mulher, decide partir ao encontro desses amigos do passado, levando consigo a filha Samia (Klarah Lobato), que funciona como contraponto ao conservadorismo e ao machismo do pai, proporcionando alívio cômico em diversas situações.
Distribuição internacional
Por conta dessa coprodução com uma empresa libanesa, a Day Two, o filme de Márcio Curi – um produtor experiente, com 15 títulos a seu crédito, aqui em sua segunda experiência na direção – deverá chegar às telas não só do Líbano, como do norte da África. Para o resto do mundo, segundo Curi, já existe um acordo com a empresa Tropical Storm. Mas ainda não há uma data fechada para este lançamento.
Importante elo para que a coprodução com o Líbano se viabilizasse, o ator Mounir Maasri, que é casado com uma brasileira, comentou que aquele país “trabalha muito com a Europa ou com os EUA, mas não conhece o cinema nem a cultura brasileira”. Segundo ele, “na cabeça do libanês a imigração é uma cicatriz aberta”, apesar de que vivem fora do país o equivalente a cinco vezes a população interna.
Isto acontece, na visão do ator, porque, “apesar das histórias fantásticas contadas pelos próprios imigrantes em suas cartas, relatando terem encontrado dinheiro no chão ou nas árvores no Brasil, muitos deles fracassaram, como o próprio Tarik”.