Dia de ver Tarkovski e dar chance aos gregos
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 22/10/2012
- Tempo de leitura 7 minutos
Nesta terça (23), acontece a última exibição de dois dos mais belos títulos da filmografia do russo Andrei Tarkovski, A infância de Ivan e O Sacrifício. Também começa a ser exibido um dos mais interessantes filmes da nova geração de cineastas gregos, o intrigante Alpes, de Yorgos Anthimos. Confira os detalhes:
A infância de Ivan
Baseado num conto do escritor Vladimir Bogomolov, o cineasta russo Andrei Tarkovski iniciou decisivamente sua trajetória – embora não tenha sido este, a rigor, seu primeiro filme, foi aquele que venceu o Leão de Ouro em Veneza e o projetou internacionalmente.
É neste trabalho que começa a soltar-se a poderosa imaginação do artista, criando imagens inesquecíveis para delinear a vida de um menino, Ivan (Nikolay Burlyaev), que tem apenas 10 anos mas já perdeu o direito a uma infância, por conta do sofrimento na II Guerra. A perda de sua família o fez crescer repentinamente. Corajoso, Ivan realiza missões de alto risco para ajudar o exército soviético, enfrentando a invasão nazista.
O contraponto da dura realidade da URSS naqueles dias são os sonhos do menino – que é visto voando, andando com a mãe, que morreu, em cenários míticos, de grande beleza. Uma dessas belas cenas mostra Ivan e uma menina numa carroça carregada de maçãs, que, à medida que caem pelo caminho, são comidas por cavalos. Mas é da consistência do retrato humano do menino e dos oficiais com quem convive que o filme extrai sua matéria sublime. (N.B.)
Última sessão nesta terça (23), às 14h, na Cinemateca – Sala Petrobras.
O Sacrifício
Filmado na Suécia, falado em sueco, este que foi o último filme do diretor Andrei Tarkovski tem ecos de Ingmar Bergman, não só pelo ambiente, como pela presença de alguns de seus atores-fetiche, caso do protagonista Erland Josephson, e de seu diretor de fotografia, Sven Nykvist.
Josephson interpreta Alexander, famoso jornalista e crítico teatral, que vive com a mulher (Susan Fleetwood) e filhos, inclusive um caçula (Tommy Kjellqvist), de quem ele não se separa e a quem chama somente de “Pequeno Homem”.
A partir daí, é possível enxergar neste roteiro original de Tarkovski uma reflexão sobre o tempo, a passagem de gerações e a iminência da morte – um assunto crucial para alguém que, como o cineasta, estava morrendo de câncer.
Na história, Tarkovski infiltra temas de implicação maior, caso do temor de uma catástrofe mundial a destruir o planeta, que perspassa o dia do aniversário de Alexander. Entre realidade e fantasia, o cineasta espalha pistas sobre suas ideias e sentimentos, instaurando um clima entre realidade e fantasia, a necessidade da cultura, a loucura das relações humanas, a persistência e o renascimento do sonho. Um belo testamento cinematográfico. (N.B.)
O filme tem sua última sessão nesta terça (23), às 16h15, no Cinusp, na Cidade Universitária.
Alpes
A Grécia pode estar vivendo uma de suas piores crises econômicas, mas de seu cinema jovem chegam boas notícias – como este original filme de Yorgos Lanthimos, que havia estreado com o contundente Dente Canino (premiado em Cannes 2009).
Alpes concorreu ao Leão de Ouro em 2010 e venceu o prêmio de roteiro – merecido, pois trata-se de história bastante original, descrevendo uma estranha sociedade em que pessoas interpretam papeis substitutos na vida de outras. Um desses filmes estranhos mas criativos, que ficam na memória tempos depois que a projeção terminou. (N.B.)
23/10/2012 - 15:00 - Sessão: 444 (Terça)
CINE SABESP
25/10/2012 - 16:15 - Sessão: 600 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 3
30/10/2012 - 22:20 - Sessão: 1094 (Terça)
Reality
O novo trabalho do italiano Matteo Garrone (de Gomorra), acerta em cheio no tema, ao criar uma ficção em torno do sonho de celebridade desencadeado pelos reality shows – uma praga mundial, na Itália chamado de Grande Fratello (Grande Irmão).
O roteiro, a partir de ideia original de Garrone e Massimo Gaudioso, desenvolve o drama de Luciano (Aniello Arena), peixeiro napolitano, casado, pai de três filhos que enlouquece pouco a pouco pela obsessão de ser escolhido para integrar o programa. Ele fez um teste e vive na esperança de ser chamado. Enquanto isso, desarticula toda a sua rotina, sua vida familiar, seu trabalho, hipnotizado pela esperança vã.
Há muitos acertos na história, a escolha do protagonista um dos maiores. Arena, um presidiário que começou sua carreira dentro da prisão de Volterra, é vigoroso, carismático, comovente. Mas isto não sustenta até o final o ritmo do filme que, apesar da nítida e assumida homenagem à tradição da comédia italiana, de Vittorio De Sica a Fellini, perde força ao longo do caminho, por deficiência de roteiro, especialmente. Apesar disso, saiu de Cannes 2012 com um consistente Grande Prêmio do Júri. (N.B.)
CINESESC
23/10/2012 - 21:15 - Sessão: 433 (Terça)
CINE SABESP
24/10/2012 - 21:40 - Sessão: 502 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
25/10/2012 - 21:30 - Sessão: 584 (Quinta)
A memória que me contam
Em seu novo filme, a cineasta Lucia Murat constrói novamente uma intersecção entre o cinema e o seu próprio passado – como fez em alguns de seus melhores trabalhos, Que bom te ver viva (1989) e o recente Uma longa viagem. Em A Memória que me contam, uma mulher está morrendo num hospital, enquanto seus amigos da vida toda sofrem na sala de espera e revisitam o passado em comum.
Todos lutaram contra a ditadura, e agora – com a morte iminente de Ana (Simone Spoladore) – reveem suas vidas, sonhos e utopias. O filme tem o tom assumidamente melancólico, pois é, afinal, uma despedida. Irene Ravache interpreta uma cineasta chamada Irene Constantino – não por acaso, sua caracterização lembra muito a diretora.
O grupo de amigos ainda inclui personagens interpretados por Otávio Augusto, Clarice Abujamra, Hamilton vaz Pereira é ZeCarlos Machado, que vive um ministro da justiça. O período de reunião desse grupo coincide também com a discussão do governo – na qual o amigo ministro está envolvido – da abertura dos arquivos da ditadura.
Essa geração estabelece também um diálogo com seus filhos. O filho de Irene (Miguel Thiré) e seu namorado (Patrick Sampaio) representam os novos tempos. O primeiro também tem a sua própria memória de Ana, com quem ele conviveu na infância e que se torna uma figura mítica, especialmente para sobrinha dela que vive na França e chega ao Brasil para visitar a tia.
Em A Memória que me contam, Lúcia partiu da experiência de seu irmão nos anos de 1970 para fazer um retrato de sua família e da geração deles. Aqui, novamente, o presente olha para o passado, pondera e melancolicamente se questiona até que ponto valeu a pena lutar pelos seus ideais.
A última sessão do filme acontece nesta terça (23), às 18h, na sala 3 do Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca. (A.O.)
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