16/09/2026

O dia das últimas chances

No último dia da programação normal, é hora de correr para não perder as últimas sessões de vários filmes – incluindo dois dos mais expressivos títulos de Andrei Tarkovsky, Nostalgia e Andrei Rublev.

Nostalgia
Filmado na Itália, o penúltimo filme de Andrei Tarkovsky encharca-se do sentimento que lhe fornece o título, com ecos profundamente autobiográficos.
O personagem central é Gorchakov (Oleg Iankovski), um poeta em viagem à Itália para pesquisar a vida de um compositor russo do século 18 que ali se exilara. O tema do exílio, que já se insinuava na vida do próprio Tarkovsky, entra em cheio na história, tocando também as dificuldades de compreensão entre o Oriente e o Ocidente, entre os quais a Rússia se divide.
A explosão da feminilidade, como sempre disruptiva nas histórias de Tarkovsky, está a cargo de Eugenia (Domiziana Giordano), a tradutora que se apaixona pelo poeta mas não encontra correspondência, já que os pensamentos dele continuam enraizados em sua casa, sua mulher, seus filhos, sua pátria.
Outra figura desagregadora da normalidade é Domenico (Erland Josephson). Tido como louco na pequena cidade italiana em que mora, por ter-se trancado em casa com a família por 7 anos – para “salvá-los” -, ele ronda as termas locais, obcecado por uma nova missão, da qual pretende encarregar o poeta russo.
Humanista, lírico e sensorial, Nostalgia é sobre essas pontes inexplicáveis que se erguem entre os sonhos e os sentimentos das pessoas. O roteiro foi assinado por Tarkovsky e o italiano Tonino Guerra, parceiro de Fellini em filmes como Amarcord. (N.B.)
Quinta (1/11) - MATILHA CULTURAL - 18:10.

Andrei Rublev
Um dos grandes filmes do russo Andrei Tarkovsky – numa filmografia que, apesar de reduzida, incluiu tantas obras-primas – Andrei Rublev é um mergulho de mais de três horas num universo próprio. Um filme tão absorvente quanto emocionante e empolgante. Uma viagem pela Rússia – ou, mais do que isso, uma viagem pelo que é ser russo.
Rublev (circa 1360-1430) foi um monge que, acredita-se, deu novos rumos para a arte russa, libertando-a da tradição bizantina e trazendo mais beleza e poesia às pinturas. Pouco se sabe sobre sua vida – apenas alguns detalhes. Por isso, Tarkovsky (que co-escreveu o filme com Andrei Konchalovsky) teve liberdade para criar em cima do pouco que se sabe e fazer uma meditação sobre o poder da arte, o papel do artista. A narrativa se abre de forma lenta, acumulando momentos – mais do que um encadeamento propriamente dito, com uma cena chamando a outra – de forma quase etérea.
Andrei Rublev foi um filme com uma trajetória peculiar. Suas primeiras exibições aconteceram em sessões privadas na URSS em 1967. Dois anos depois, a pedido do distribuidor francês, foi exibido fora de competição em Cannes – onde recebeu o prêmio da FIPRESCI, Federação Internacional dos Críticos. Ainda assim, os soviéticos não queriam que o filme circulasse porque o seu tema – do artista lidando com um mundo cruel – permitia paralelos incômodos com a realidade local.
A figura de Rublev no filme transita entre ser o protagonista da cena – cuja imagem aparece num primeiro plano, grande – ou um mero coadjuvante do momento – uma figura pequenina perdida em meio a tantos outras.
O filme é em preto e branco – a cópia em 35mm exibida na Mostra vem da Itália – mas seus momentos finais mostram a Trindade – ou os Três Anjos de Abrão – pintada pelo russo. É o momento em que o longa explode em cores, e quando todo o esforço do pintor pela sua arte, mais do que nunca, faz sentido. (A.O.)

Quinta (1/11) - Cinemateca - Sala Petrobras – 19h20.

Sonata Silenciosa
Raridade nas telas brasileiras, este sutil drama esloveno, terceiro filme do diretor e roteirista Janez Burger, ousa não recorrer a diálogos e, ainda assim, dá perfeitamente conta do recado que quer passar, com fortes imagens e atuações empenhadas.
A falta de diálogos resolve, também, o dilema que seria encontrar um idioma em comum entre atores e artistas de circo de tantos países diferentes – há eslovenos, russos, bósnios, chineses, alemães, croatas, finlandeses, um holandês e um suíço nesta expressiva Babel pacifista.
O filme começa com uma tragédia – a mãe de uma família (Marjuta Slamic) foi morta por uma granada na porta de sua casa, no meio de uma dessas muitas guerras que abalam o mundo. O marido (Leon Lucev) recolhe os filhos (Luna Mijovic, de Em Segredo, e Devi Bragalini) dentro de casa e fica de prontidão com uma espingarda, disposto a salvá-los de qualquer perigo.
A aproximação de um caminhão coloca a família em pânico. Mas trata-se apenas da trupe do Circus Fantasticus, perdida em meio aos tiroteios, levando seu velho patriarca doente (Rene Bazinet).
A convivência entre a família e os vários artistas – como o homem forte e engolidor de fogo (David Boelee) e o ciclista (Yannick Martens) – cria uma nova comunidade, que terá que conviver com resquícios de violência e esboçar o futuro. Recorrendo às vezes ao realismo mágico, consegue-se criar um clima de grande beleza. (N.B.)
Quinta (1/11) – Cine Olido - 15h00.

Transpapa
Escrito e dirigido pela alemã Sarah Judith Mettke, como filme de conclusão de curso da faculdade de cinema Baden-Wuerttemberg, Transpapa é uma sensível história sobre uma adolescente que está disposta a conhecer seu pai transexual, que agora se chama Sophia.
Em segredo, embarca para Colônia, onde encontra não apenas sua nova “mãe”, mas também sua feminilidade. Maren não dá apoio à decisão do seu, então, pai, mas entra em seu mundo, onde descobre a pessoa por trás do homem que a abandonou ainda criança.
Investigando uma relação nada fácil de entender, a diretora surpreende pela dureza e racionalização a que a personagem se entrega. O encontro não traz mais revelações além das que já são dadas no início e Mettke não cria uma história de tolerância. Ela explora a linha tênue entre aceitação e resignação, com a qual deve ter passado no curso com louvor.
(R.Z.)

Quinta (1/11) - Cinemark Eldorado - Sala 7 – 19h00.

Laura
O diretor carioca Fellipe Gamarano Barbosa fez um documentário sobre a vida inusitada de sua amiga Laura, uma argentina-brasileira que vive como diva em Nova York, onde é convidada (ou simplesmente entra) nos eventos e restaurantes mais célebres e badalados da cidade.

Embora more num hotel decadente, mum exíguo apartamento repleto de lixo e roupas em Manhatan, que muito faz lembrar as Bouvier Beale de Grey Gardens, Laura mantém uma postura altiva, como se a realidade não se refletisse em seu estilo de vida – uma incógnita mesmo após o fim da sessão.
Barbosa, que além de diretor é também personagem do documentário, não consegue ser imparcial – detalhe confessado durante a divulgação do filme. No entanto, este é um dos trunfos de sua produção, ao demonstrar o paradoxo entre a ficção e o fato. Laura é uma personagem de sua própria vida e Barbosa traz ao espectador, a partir de uma acertada edição, a contradição como argumento. (R.Z.)

Quinta (1/11) - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 1 – 18h35.