Documentários retratam interpretações do cinema, fascismo e bullying
- Por Neusa Barbosa, Alysson Oliveira e Rodrigo Zavala
- 30/10/2012
- Tempo de leitura 8 minutos

No penúltimo dia da programação, hora de ver vários documentários, como o divertido duo O Guia Pervertido do Cinema e O Guia Pervertido da Ideologia, de Sophie Fiennes;o inquietante Bully (foto), de Lee Hirsch; O Sorriso do Chefe, em que Marco Bechis investiga a estética do fascismo italiano, e a última sessão de Dirigido por Andrei Tarkovsky, um mergulho nos bastidores de O Sacrifício, último filme do celebrado diretor russo.
O Sorriso do Chefe
Mergulhando em rico material de arquivo do tempo do fascismo na Itália, o cineasta chileno Marco Bechis (Garage Olimpo, Terra Vermelha) recupera igualmente as memórias de seu próprio pai, o italiano Riccardo Bechis, que chegou a ser soldado fascista.
Entremeadas pelos comentários de Riccardo, um lúcido homem de 81 anos, surgem na tela imagens não só de Benito Mussollini em vários discursos, montando sua habitual performance histriônica diante de multidões em delírio, como também de escolas, hospitais, fábricas e comícios, em atividades febris e patrióticas.
Nesses filmes, provenientes do Instituto Luce que Mussollini criou, imaginando eternizar sua própria glória, evidencia-se um processo de verdadeira lavagem cerebral do povo italiano, levado a acreditar ser o centro do mundo e conduzido a guerras, como na Etiópia, que semearam ruína e miséria. (N.B.)
Quarta (31/10) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 3
- 20h30.
- 20h30.
Quinta (1/11) - FAAP – 19h00.
Na Neblina
O bielo-russo Sergei Loznitsa foi um dos cineastas destacados na programação da Mostra, que exibiu seus documentários e
as duas ficções, inclusive esta mais recente, que concorreu em Cannes 2012 e venceu ali o prêmio da Federação Internacional dos Críticos.
as duas ficções, inclusive esta mais recente, que concorreu em Cannes 2012 e venceu ali o prêmio da Federação Internacional dos Críticos.
Com a habitual economia narrativa e uma contundência mais sóbria do que sua estreia ficcional, Minha Felicidade (2010), Loznitza assina também o roteiro, que parte do romance de Vasili Bykov e retrata o dilema do ferroviário Sushenya (Vladimir Svirskiy). Em plena II Guerra, em 1942, com a URSS ocupada pelos nazistas, ele foi capturado depois de uma ação de sabotagem, junto com vários colegas. Perversamente, o comandante nazista poupa-lhe a vida e o solta, o que leva a resistência soviética a suspeitar que se trata da recompensa a um traidor.
Impotente contra a situação, Sushenya volta para casa, ao lado da mulher e dos filhos e fica à espera. Não demoram a chegar dois militantes da resistência, seus velhos conhecidos Burov (Vladislav Abashin) e Voitik (Sergei Kolesov), que vêm para executá-lo na floresta.
A partir deste tenso enredo mínimo, Loznitsa elabora um relato moral que evoca o melhor da literatura russa, com toques entre Dostoievski e Tchecov. (N.B.)
Quarta (31/10) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 – 21h00.
Quinta (1/11) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 – 14h00.
Bully
O inquietante documentário do norte-americano Lee Hirsch é cortante como faca e oportuno até a medula. Afinal, trata de um dos temas mais complexos do mundo atual, o bullying nas escolas, que pode até não ser novidade, mas cuja violência está assumindo uma proporção inimaginável, produzindo inclusive vítimas fatais.
É com precisão cirúrgica que o documentarista escolhe seus casos emblemáticos, começando por um adolescente bonito e inteligente, de 17 anos, amado pelos pais, que se suicidou por conta dessa pressão insuportável do assédio de colegas. Assédio que se traduz em xingamentos, pancadas, humilhações, numa escalada que parece incontrolável, especialmente porque continua fora dos muros das escolas.
Outros casos mostram o cerco a uma garota de 16 anos que se assumiu homossexual; uma garota de 14 anos que, não suportando mais, recorreu a um ato violento; e um garoto de 12 anos que é diariamente submetido a constrangimentos no trajeto do ônibus escolar, o que leva o documentarista a compartilhar as imagens filmadas com seus pais e com a diretora da escola.
O filme focaliza o intenso debate sobre o tema nos quatro cantos daquele país, envolvendo pais, alunos, educadores e policiais. Acompanha, assim, um movimento de resistência a esses impulsos violentos e desumanizadores, cujas raízes estão certamente fincadas na sociedade, e que transformam a vida escolar num pesadelo ao qual vários não sobrevivem. (N.B.)
Quarta (31/10) - CINESESC – 14h00.
Quinta (1/11) - CINEMARK - SHOPPING METRÔ SANTA CRUZ 2 – 19h00.
Dirigido por Andrei Tarkovsky
Complementando a retrospectiva de Andrei Tarkovski, a 36ª Mostra programou alguns filmes sobre a obra do cineasta russo. Dirigido por Andrei Tarkovsky, do polonês Michal Leszczylowski, é um olhar sobre a última obra do mestre, O Sacrifício, de 1986. Uma espécie de making of poético, o documentário traz imagens das filmagens do longa, o que nos permite observar o cineasta trabalhando, concebendo cenas, dirigindo atores (entre eles, Erland Josephson e Susan Fleetwood), comemorando resultados e até desesperado por alguns incidentes.
O documentário de 1988 – narrado pelo inglês Brian Cox – foi filmado no set de O Sacrifício, na Suécia e conta com depoimentos da viúva do cineasta, Larissa Tarkovskya, que compartilha alguns trechos dos diários do marido que fornecem preciosas informações sobre o processo de criação deste último projeto.
Um dos momentos mais tensos é quando, no último dia de filmagem, numa cena complicadíssima – a do incêndio da casa -, a câmera emperra, deixando de captar parte da sequência. O desespero toma conta do diretor. Mas, graças à extraordinária cooperação dos produtores e de toda a equipe, consegue-se refilmar a cena, reconstruindo o cenário da casa. O resultado de Dirigido por Andrei Tarkovski é fascinante exatamente por essa exposição das alegrias e dificuldades da produção de um filme e também por alguns depoimentos do próprio diretor. (A.O.)
ÚLTIMA SESSÃO: Quarta (31/10) – CINUSP – 14h.
O Guia Pervertido do Cinema e O Guia Pervertido da Ideologia
A documentarista inglesa Sophie Fiennes, irmã dos atores Ralph e Joseph Fiennes, participa da
36ª Mostra com duas produções irmãs: O Guia Pervertido do Cinema (2006) e O Guia Pervertido da Ideologia (2012). Estreladas pelo filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, as produções são, de forma simples, as interpretações dele sobre um sem número de obras cinematográficas.
A documentarista inglesa Sophie Fiennes, irmã dos atores Ralph e Joseph Fiennes, participa da
36ª Mostra com duas produções irmãs: O Guia Pervertido do Cinema (2006) e O Guia Pervertido da Ideologia (2012). Estreladas pelo filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, as produções são, de forma simples, as interpretações dele sobre um sem número de obras cinematográficas.
Nas divertidas e apuradas análises do esloveno no primeiro filme, revisita-se locações e exibe-se cenas antológicas para desvendar ao espectador os enigmas do cinema. Por que as aves passaram a atacar os personagens no clássico de Alfred Hitchcock, Os Pássaros (1963)? O que o espectador precisa entender sobre a mente de David Lynch? Qual a simbologia por trás de Andrei Tarkovsky?
Já na segunda produção, uma sequência direta, Zizek e Fiennes se concentram no imaginário coletivo e suas fantasias para entender o caldeirão cultural no qual o cinema bebe. E o que se vê ao final da projeção é uma profunda análise sobre as ideologias escondidas nas mais diferentes produções. Como ambos filmes têm mais de 2 horas cada, é melhor ir descansado. (R.Z.)
O Guia Pervertido da Ideologia
ÚLTIMA SESSÃO: Quarta (31/10) – Cine SABESP – 20h.
O Guia Pervertido do Cinema
ÚLTIMA SESSÃO: Quarta (31/10) - CINEMARK - SHOPPING CIDADE JARDIM 6
- 21h10.
- 21h10.
Não estou Morto
Com participação especial da atriz portuguesa Maria de Medeiros, a produção Não Estou Morto mistura sobrenatural e crítica social ao contar a curiosa história de um estudante de filosofia de origem argelina, Yacine, em Paris. Quando seu professor Richard morre repentinamente, o rapaz acorda convicto de que é Richard, para assombro das famílias dos personagens.
Se de um lado a inusitada situação leve o espectador à fantasia, as escolhas de Yacine/Richard, que passa a se resignar sobre a situação e ver, aí, uma oportunidade de mudar de vida, incorporam o contexto francês e uma camada de ironia sociológica. O personagem não é nada além do que parece: um jovem estrangeiro, independentemente de seu cérebro fazer parte da fina flor do pensamento parisiense.
Quando esteve no Brasil para divulgar o filme a convite da Mostra, o diretor tunisiano Mehdi Ben Attia chegou a afirmar que não pretendia criar uma discussão política com este longa-metragem. Para ele, trata-se de uma história de perda, redescoberta e romance. Mas a crítica está lá, fingir que não existe
causa tanto estranhamento quanto o próprio personagem.
(R.Z.)
causa tanto estranhamento quanto o próprio personagem.
(R.Z.)
ÚLTIMA SESSÃO: Quarta (31/10) – MIS – 15h50.
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