06/06/2026

Joias chilenas e a força do veterano Marco Bellocchio

Post Mortem e La Noche de Enfrente, dois trabalhos recentes de dois chilenos bem diferentes, Pablo Larraín e Raul Ruiz (falecido em 2011), são duas das joias da programação desta terça (30) – que também reserva as últimas sessões de filmes imperdíveis, como o italiano A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio, o francês 38 Testemunhas, dirigido pelo belga Lucas Belvaux, e o documentário Miradas Múltiplas, recuperando a importância do diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa.


A bela que dorme
O grande cineasta italiano Marco Bellocchio (Vincere) parte de um fato real para abrir um leque de discussões sobre a eutanásia e investigar a vida pessoal de um grupo de personagens. Eluana Englaro ficou em coma por 17 anos, sobrevivendo com ajuda de aparelhos, quando sua família resolve pedir para desligá-los em 2009, provocando uma onda de protestos na Itália – contra e a favor da decisão. Roteirizado pelo diretor, Veronica Raimo e Stefano Rulli, o filme acompanha os últimos dias da moça e como esse fato se reflete na vida de pessoas que nem a conheceram.
Maria (Alba Rohrwacher) é uma jovem muito religiosa que vai até Udine para rezar na porta do hospital com um grupo de amigas. Ela tem problemas com seu pai, o deputado Uliano Beffardi (Toni Servillo), e se recusa a atender suas ligações. Em sua viagem, conhece Roberto (Michele Riondino), rapaz que cuida do irmão instável, Pipino (Fabrizio Falco, premiado como ator estreante em Veneza). No passado da moça, um trauma e a causa do desentendimento com o pai: a perda da mãe depois de um longo coma.
Já Isabelle Huppert é uma mulher chamada “Divina Madre”, ex-atriz que abandonou a carreira para cuidar da filha comatosa na Itália e rezar desesperadamente por sua cura – por mais que ela mesma duvida da fé. Nesse processo de isolamento para dedicar-se à garota, deixa de lado o marido (Gian Marco Tognazzi) e o filho (Brenno Placido), que também pensa em ser ator e reivindica obstinadamente a atenção da mãe.
A última história acompanha a jornada de um médico Dr. Pallido (Pier Giorgio Bellocchio), que tenta a todo custo salvar uma viciada, Rossa (Maya Sansa), que tentou várias vezes o suicídio e está se autodestruindo.
Em seu filme, Bellocchio não toma posições mas, como em boa parte de sua obra, investiga o choque entre o público e o privado, o processo como a política procura interferir na tomada de decisões pessoais de cada indivíduo. No filme, uma nova lei está sendo votada, podendo afetar o destino de Eluana, e exigindo uma tomada de decisão para Uliano, que tem mais a ver com a sua consciência do que com sua filiação política de extrema-direita.
Aliás, a extrema-direita da região de Friuli Venezia Giulia, onde o filme foi rodado, fechou a comissão de cinema local para que esta não concedesse €150,000 para a produção do filme. Uma decisão que acaba sendo irônica, uma vez que o longa não toma partido a favor da eutanásia – como suspeitavam os políticos locais – nem contra, apenas levanta um debate bastante pertinente. (A.O.)

ÚLTIMA SESSÃO: Terça (30/10) - Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3 - 21:30.

Post Mortem
Um dos mais promissores cineastas latino-americanos da nova geração, o chileno Pablo Larraín realiza neste filme de 2010, premiado em vários festivais – Havana, Cartagena, Los Angeles e Lima – e até aqui inédito no Brasil o segundo capítulo de uma densa e dolorosa trilogia sobre a herança maldita da ditadura chilena de Augusto Pinochet.
Como no primeiro filme da trilogia, Tony Manero, o protagonista é seu ator-fetiche, Alfredo Castro, aqui interpretando Mário, um obscuro auxiliar administrativo do serviço de medicina legal de um grande hospital de Santiago. Cabe a Mário descrever nos relatórios os detalhes das autópsias, as características físicas dos mortos, as causas de morte, que lhe são passadas pelo médico legista.
Vivendo mergulhado nessas minúcias da morte, Mário leva uma vida solitária, observando os vizinhos que parecem levar uma existência mais movimentada. É o caso de Nancy (Antonia Zegers), dançarina do cabaré Bim Bam Bum, cujo irmão e pai realizam frequentes reuniões políticas em sua sala. É 1973, pouco antes do golpe, e a agitação cresce em toda parte.
Nem Nancy nem Mário tem interesse na política e parecem nem mesmo enxergar a iminência de uma ditadura no país. Mário cultiva uma paixão escondida pela vizinha, mas este é um casal extremamente disfuncional.
O golpe cai sobre todos de repente e Mário não tem como ignorar as centenas de cadáveres que congestionam os corredores do hospital, sobrecarregando seu serviço – são imagens impressionantes do filme que consolidam esta crônica de um massacre, do qual fará parte também o suicídio do próprio presidente Salvador Allende. Aliás, mencionam-se no filme detalhes até então
inéditos de sua autópsia.
Nancy, o pai e o irmão desapareceram. Sua casa foi depredada. Podem fazer parte dessa multidão de mortos ou dos milhares de desaparecidos que o regime produz em massa cotidianamente. Mas Mário não identificou Nancy entre os cadáveres no hospital e não desiste de procurá-la. O segmento final do filme soma horror à crônica daqueles dias sombrios no Chile. Um horror frio, que sintetiza o pensamento do diretor e roteirista sobre o perigo potencial dos supostos apolíticos, o veneno oculto da maioria silenciosa. (N.B.)

Terça (30/10) - CINE LIVRARIA CULTURA 1- 17:40.















Quarta (31/10) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
- 14:00.


La Noche de Enfrente
Chileno radicado há décadas na França, Raul Ruiz morreu, aos 70 anos, em 2011, no processo da montagem deste filme, realizada, como sempre, por sua mulher e montadora habitual, Valeria Sarmiento.
Como um filme-testamento, La Noche de Enfrente tem a marca que fez de Ruiz um dos cineastas mais estimulantes do cinema mundial – a história com clima de realismo mágico, em que o chão parece escapar dos pés do espectador a cada momento, diante da perda de suas certezas e da reversão de suas expectativas, sempre introduzindo um toque de ironia.
Levemente inspirado em livro homônimo do autor Hernán del Solar, Ruiz compôs o roteiro que acompanha as desventuras de um funcionário de escritório, don Celso (Sergio Fernandez), às vésperas da aposentadoria.
Engajado em aulas de poesia com um professor francês, Jean Giono (Christian Vadim), don Celso
começa a contar-lhes memórias de sua infância, que se transformam em sugestivos flashbacks em que o menino (interpretado por Santiago Figueroa) conversa ao vivo com ninguém menos do que Ludwig van Beethoven (Sergio Schmied), seu compositor favorito.
O músico alemão o acompanha na rua e descobre com perplexidade as diferenças de seu mundo e de um século inteiramente diferente do seu. Entre as novidades, estão o campo de futebol e o cinema – aonde o menino Celso informa a Beethoven que se vai “para se divertir, não para aprender nada”.
Don Celso vive numa pensão, atormentado pelo pressentimento de que será assassinado por um visitante num dia qualquer. Um presságio que abre o caminho para que a história incorpore uma série de novos personagens, um toque sinistro e uma convivência entre vivos e mortos. Uma típica fantasia de Ruiz, que nunca perdeu a chance de estimular a imaginação de seus espectadores. (N.B.)

Terça (30/10) - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2

- 20:20.
Quinta (1/11) - RESERVA CULTURAL 1 - 18:20.

38 Testemunhas
Nem só dos admiráveis irmãos Dardenne vive o cinema belga. O também ator Lucas Belvaux – da trilogia Um Casal Admirável, Em Fuga e Acordo Quebrado, de 2003 – é igualmente um diretor e roteirista cujos temas e estilo são muito dignos de acompanhar.
Em 38 Testemunhas, um roteiro original, Belvaux enfoca de maneira multifacetada e humanista o tema da desumanização numa grande cidade. Ocorre o bárbaro assassinato de uma moça, a facadas, diante do prédio onde ela morava, na cidade portuária francesa de Le Havre.
Apesar de o assassinato ter ocorrido na madrugada, pela localização do prédio – num largo cercado de vários outros prédios -, não há testemunhas. Interrogados, os moradores repetem a mesma ladainha: ninguém viu nem ouviu nada. O crime caminha para ser incorporado às estatísticas das mortes não esclarecidas.
Sem preocupar-se com a identidade do assassino, que seria o ponto crucial numa produção de Hollywood, Belvaux focaliza o drama interior de Pierre (Yvan Attal, protagonista de outro filme recente deste diretor, O Sequestro de um Herói). Ele ouviu os gritos lancinantes da vítima, como todos os demais vizinhos, e, como eles, calou-se. Até que a culpa não lhe permite calar mais e ele faz a escolha mais corajosa de sua vida – e que vai ter inúmeras consequências desagradáveis não só para ele, mas para todos os demais.
Sophie Canton interpreta a namorada de Pierre, que estava viajando no dia do crime e se torna participante involuntária de sua jornada moral. A veterana atriz e diretora Nicole Garcia defende o papel de uma jornalista, que investiga a história e tem, ela mesma, um dilema moral a resolver na publicação dos desdobramentos do caso. Aliás, é um dos papeis de jornalistas mais sólidos e realistas que o cinema recente produziu. E a história como um todo não poderia ser mais contemporânea e universal. (N.B.)

ÚLTIMA SESSÃO:
Terça (30/10) - CINEMARK - SHOPPING METRÔ SANTA CRUZ 2 - 21:00.

Miradas Múltiplas
Um dos maiores diretores de fotografia de todos os tempos, o mexicano Gabriel Figueroa (1907-1997) é o tema do documentário Miradas Múltiplas, do também mexicano Emilio Maillé. A carreira do fotógrafo, que durou mais de 50 anos e rendeu mais de 200 filmes, é esmiuçada por meio de imagens e depoimentos de profissionais da área – entre eles, os brasileiros Walter e Lula Carvalho, Lauro Escorel, Affonso Beato e o uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone.
Figueroa trabalhou com cineastas como Luis Buñuel (Os Esquecidos, O anjo exterminador, entre outros), John Huston (À Sombra do vulcão e A noite do Iguana), e até numa adaptação mexicana de O primo Basílio, dirigida por Carlos de Nájera. Parecia ser capaz de criar cores até mesmo em seus filmes em preto e branco, por meio de contraste, sombras e luz.
Ver o trabalho de Figueroa na tela, como bem aponta Walter Carvalho, faz pensar na banalização da imagem no mundo contemporâneo, em que qualquer aparelho é capaz de filmar. “Precisamos voltar a criar imagens, não simplesmente captar”, diz Walter. O trabalho do mexicano valoriza exatamente isso: o poder de uma imagem bem concebida.
Rodado inteiro em preto e branco, a força de Miradas Múltiplas está em combinar os depoimentos – que também incluem o veterano francês Raoul Coutard, os italianos Vittorio Storaro e Giuseppe Rotunno, o argentino Ricardo Aronovich e o polonês radicado nos EUA Janusz Kaminski. (A.O.)
ÚLTIMA SESSÃO: Terça (30/10) - Cinemateca - Sala BNDES - 20:40.