Kiarostami, Von Trotta e Gitai são as atrações do fim de semana
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 26/10/2012
- Tempo de leitura 14 minutos
Um alguém apaixonado
O iraniano Abbas Kiarostami mais uma filmou longe de casa, desta vez no Japão, o delicioso e envolvente Um Alguém Apaixonado, uma coprodução franco-japonesa. Impressionantemente à vontade dentro do ambiente e da psicologia nipônicas, Kiarostami construiu um relato em que as aparências confundem, os fios se desfazem e o espectador é levado a deixar-se conduzir pela própria imaginação, que é a melhor viagem que se pode fazer no encontro com uma obra de arte.
A história dispara com Akiko (Rin Takanashi), jovem garota de programa, que namora um mecânico ciumento (Ryo Kase). Uma noite, em que ela pretendia encontrar sua avó, que está na estação de trem para uma brevíssima visita, ela é desviada para um encontro com um velho professor e tradutor (Tadashi Okuno).
A partir daí, outros personagens interferem e a relação entre Akiko e o professor muda ao sabor de inúmeros incidentes, que fazem o espectador perder todas as suas certezas pelo caminho – o que realmente está acontecendo aqui? Pouco importa, já que o percurso é estimulante.
A fotografia de Katsumi Yanagijima introduz cenários da cidade de Tóquio a todo momento, diretamente ou por janelas, neste que é quase um road movie pela capital japonesa, passando-se boa parte dentro de carros – tão ao gosto de Kiarostami, como se viu em Gosto de Cereja (Palma de Ouro em Cannes, em 1997) e Dez . Um Alguém Apaixonado, por sua vez, é o tipo de filme que melhora quanto mais se pensa nele.
O cineasta iraniano vem especialmente este ano a São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff e deverá apresentar algumas sessões do filme. (N.B.)
Domingo (28/10) - 20:20 - Sessão: 931 - CINESESC
Segunda (29/10) - 21:30 - Sessão: 1015
- RESERVA CULTURAL 1
- RESERVA CULTURAL 1
Quarta (31/10) - 16:50 - Sessão: 1134 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
Quinta (1/11) - 21:00 - Sessão: 1306 -
CINEMARK - SHOPPING CIDADE JARDIM 6
Renoir
Uma complicada relação entre pai e filho que se transforma ao longo do tempo é o eixo de sustentação desta cálida cinebiografia de dois artistas, o pintor impressionista Pierre Auguste Renoir (Michel Bouquet) e seu filho, o cineasta Jean Renoir (na fase adulta, interpretado por Vincent Rottiers, de Feliz que Minha Mãe Esteja Viva).
Filho temporão, o pequeno Jean (Thomas Doret, de O Garoto da Bicicleta) cresce meio largado, vagando pela ampla casa da família no campo, onde seu pai reina absoluto, num pequeno mundo habitado por muitas mulheres – tanto as várias empregadas da casa como as sucessivas esposas ou amantes do velho pintor.
A mais recente personagem desse ambiente é a jovem Andrée (Christa Theret), que se torna musa e também amante de Auguste. Impulsiva, a moça rivaliza com o pintor nas explosivas manifestações de seu forte temperamento, abalando a paz local.
Esses conflitos passionais, no entanto, alimentam e inspiram o talento de Auguste que, se tem sua saúde visivelmente deteriorada, nem por isso perde a energia e a criatividade, que continua inalterada em suas telas, retratando nuances de uma natureza exuberante, que entra pelas janelas.
O grande acerto do filme é delinear esse ambiente multifacetado do grande artista, que alimentou o imaginário do filho, futuro cineasta, autor de obras-primas como A Regra do Jogo (39). Mas, bem antes disso, o jovem Jean rebelou-se contra a autoridade paterna, indo contra a sua vontade lutar na I Guerra Mundial. Salvou-o ter sido ferido e voltado de licença para casa. Neste momento, está pronto a assimilar as lições do pai e amadurecer sua relação com ele. (N.B.)
Sexta (26/10) - 18:30 - Sessão: 685 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
Sábado (27/10) - 22:40 - Sessão: 789 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
Por enquanto
O cineasta norte-americano Hal Hartley foi, por muito tempo nos anos 1990, o rei do circuito independente, com filmes delicados e incisivos, como Confiança (90), Amador (94), As Confissões de Harry Fool (97) e o recente Fay Grim (2006).
Com o tempo, Hartley parece ter-se tornado mais modesto, o que acontece nesta sua mais recente produção, bem minimalista, em torno de um personagem, John Fulton (o habituê de seus filmes, D.J. Mandel). Baterista de jazz cuja grande chance não aconteceu, John sabe consertar qualquer coisa – torneiras, máquinas de escrever. Só parece não ter solução para a própria vida. Sua última grande ideia inclui a importação de janelas da Alemanha, para o que ele precisa associar-se a um investidor.
John é também uma espécie de anjo profano, cultivando uma ética particular – o que o leva a ajudar as pessoas mas nem sempre aceitar dinheiro em certas situações, por mais que esteja precisando desesperadamente, já que o governo bloqueou sua conta bancária por uma suposta pendência de impostos. Ele também fica atormentado pela ideia de que uma mulher (Chelsea Crowe) que encontrou por acaso na ponte do Brooklin possa ter-se suicidado, afligindo-se para descobrir mais sobre ela. É um filme pequeno, certamente, mas doce. Ninguém perderá tempo assistindo-o, já que o velho estilo de Hartley continua afinado.
Sua última sessão acontece neste sábado (27), 19h10, no Espaço Itaú Augusta 3. (N.B.)
Amos Gitai
O diretor israelense é um grande amigo da Mostra e volta a São Paulo nesta 36ª edição para várias atividades, participando nesta sexta (26) de um debate no CINUSP após a exibição de dois filmes de alta carga autobiográfica: Carmel e Canção para Meu Pai.
Em Carmel (2009), Gitai examina as memórias de sua mãe, Efratia, através de suas cartas, contando com a narração da excepcional atriz francesa Jeanne Moreau. Ele mesmo visita acampamentos de soldados israelenses num momento em que seu próprio filho estava lutando num dos combates do que o diretor, ele mesmo ex-soldado, chama de “guerra sem fim” de seu país.
No recente Canção para meu pai, exibido no último Festival de Veneza, Gitai traça o perfil de seu pai, Munio Weintraub, arquiteto que estudou na vanguardista Bauhaus alemã nos anos 30, sendo depois perseguido pelos nazistas, exilando-se na Suíça antes de partir para a Palestina, engajando-se na construção de vários edifícios no Estado de Israel que se formaria a seguir.
A sessão de Carmel acontece às 16h. A de Canções para Meu Pai, às 19h, seguida do debate com o diretor. A entrada é gratuita, mas é necessário retirar senha no local uma hora antes de cada evento. (N.B.)
CTR – Escola de Comunicações e Artes. Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Prédio 4 – Cidade Universitária. Auditório A – 80 lugares. Entrada franca. Fone: 11-3091-3540.
Bergman & Magnani - A guerra dos vulcões
Este curioso documentário italiano, dirigido por Francesco Patierno, faz um bom uso de um excepcional material de arquivo, que lhe permite recuperar parte da tumultuada história de dois filmes e um rumoroso caso de amor: Stromboli, de Roberto Rossellini, que marca o início de sua paixão pela atriz Ingrid Bergman (que, como o diretor, era casada quando se conheceram) e Vulcano, de William Dieterle, que se torna uma espécie de revanche de Anna Magnani, a diva italiana que vivia com Rossellini e foi por ele abandonada em favor de Ingrid.
O documentário relembra o escândalo causado pela paixão entre Rossellini e Ingrid, que na época vivia nos EUA e brilhava em Hollywood e deixara para trás um marido e uma filha pequena. Durante as filmagens de Stromboli, ela engravida daquele que viria a ser seu primeiro filho com o diretor italiano, Robertino – que nasce no mesmo dia da fracassada première de Vulcano e rouba-lhe as manchetes dos jornais do dia seguinte. (N.B.)
Sábado (27/10) - 15:40 - Sessão: 831 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 3
Segunda (29/10) - 16:00 - Sessão: 1002 - CINE LIVRARIA CULTURA 2
Quinta (1/11) - 21:00 - Sessão: 1245 - ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
Hannah Arendt
O drama da alemã Margarethe von Trotta concentra-se em um período da vida da celebrada filósofa Hannah Arendt (Barbara Sukowa), quando esta vive exilada em Nova York com seu marido (Axel Milberg), Heinrich Blücher, e é convidada pela revista The New Yorker, a cobrir o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann em Israel – mostrado no filme em cenas reais da cobertura de televisão da época. Esse é o ponto de partida do roteiro assinado pela diretora e Pam Katz.
Raros flashbacks dão conta do polêmico caso entre Hannah, que era judia, e o filósofo Martin Heidegger (Klaus Pohl), que se filiou ao Partido Nazista, no período em ela foi sua aluna. Até mesmo o julgamento e a produção do artigo – que leva semanas – são a introdução para aquilo que o filme aborda. Para Hannah, Eichmann era, claro, culpado de crimes de guerra, mas ela encontra nele elementos para uma teoria que desenvolverá nos próximos anos, do que chamou de “banalidade do mal”. Mas o ponto mais polêmico de seus textos foi a acusação a líderes judeus de compactuar com ações nazistas.
Publicado sob forma de livro em 1963, e chamado Eichmann em Jerusalém, seu trabalho repercutiu de forma negativa não apenas em setores do mundo acadêmico, mas também junto a pessoas comuns. A força do filme de von Trotta está em retratar uma Hannah firme, corajosa, que não acua e fala o que pensa – até porque esse é o seu trabalho, pensar além do senso comum -, mas nem sempre está preparada para todas as consequências.
A interpretação de Barbara Sukowa – que protagonizou Rosa Luxemburgo com a mesma diretora, vencendo o prêmio de melhor atriz em Cannes 1986 - é empolgante, especialmente à medida em que o drama de sua personagem se abre e ganha contornos mais profundos. O filme não consegue, e nem poderia, dar conta de toda a complexidade das ideias da filósofa – autora de livros como As origens do totalitarismo. Por outro lado, funciona bem no arco dramático que se propõe a relatar e serve como instigador para uma releitura da obra dela. (A.O.)
26/10 - Sexta-feira - 22:30
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
27/10 - Sábado - 17:00
Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 3
Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 3
Perder a razão
O novo drama do belga Joachim Lafosse se revela aos poucos. A história começa de forma quase banal – mostrando a paixão entre Mounir (Tahar Rahim, de O Profeta) e Murielle (Émilie Dequenne). Ele é marroquino adotado pelo médico André Pinget (Niels Arestrup) e vive na Bélgica.
Num primeiro momento, a relação entre Pinget e o rapaz faz parecer que está será o centro da ação. Eles dividem a mesma casa e o médico até o convida para continuar morando na mesma casa depois do casamento com Murielle. Há sempre uma tensão no ar, e o claro indício que isso pode não terminar bem.
O casal tem o primeiro filho, e Murielle continua dando aulas de francês. Mal passa o tempo,
e o casal já está com o terceiro filho, a caminho do quarto. Ela confessa se sentir emparedada, o marido não parece dar muita atenção. O médico, no entanto, dá atenção demais.
e o casal já está com o terceiro filho, a caminho do quarto. Ela confessa se sentir emparedada, o marido não parece dar muita atenção. O médico, no entanto, dá atenção demais.
Há um quê de O bebê de Rosemary na forma como a maternidade não chega a ser a representação de algo libertador (pelo contrário). Aos poucos, a alegria se transforma no sufoco, na perda da liberdade e até da própria identidade da personagem.
Em seus filmes – o mais conhecido é Propriedade Privada (2006) – Lafosse prima por um retrato realista, inclusive no tom das interpretações, de conturbadas relações familiares. Aqui a tensão custa a revelar sua verdadeira face, porque a opção dramática do diretor é retratar o quadro de Murielle passo a passo, em sua degradação. O resultado – em sua cena final – é tão assustador quanto verossímil.
O filme foi escolhido pela Bélgica para disputar uma vaga nas indicações ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. (A.O.)
26/10 - Sexta-feira - 15:50
Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 3
Chamada a cobrar
O novo filme da diretora Anna Muylaert parte de um projeto para a televisão, exibido na TV Cultura em 2009, como o título Para aceitá-la continue na linha. Não só isso difere este dos outros dois longas da cineasta (Proibido fumar e Durval Discos), aqui o tom não é de humor negro como nos outros – mas, sim de drama, um tanto melancólico, aliás.
Clarinha (Beth Dorgam) recebe um telefonema a cobrar, e do outro lado, uma voz diz que sequestrou alguém de sua família. Em pânico, a mulher começa a seguir todas as instruções do sequestrador. Dona de casa de classe média alta, a personagem é uma mãe controladora – embora as filhas já tenham saído de casa – e uma mulher solitária, que conta apenas com a companhia do cachorro e uma relação distante com a empregada.
No trote, o bandido (Pierre Santos) diz estar com sua filha Cristina (Maria Manoella). O filme se torna um road movie dessa mulher em direção ao cativeiro da moça. A diretora, que também assina o roteiro, estabelece relações entre esses dois personagens tão distantes (ele no Rio, ela em São Paulo), mas, ao mesmo tempo, tão próximos pelo telefone.
Como em toda jornada do herói – no caso, da heroína – ao final, ela terá se transformado, amadurecido, ganhado novos sentidos para a sua vida. Rodando o filme em digital, Anna deu mais liberdade para seu elenco improvisar e, com a interpretação de Bete Dorgam – consagrada atriz de teatro –, esse amadurecimento é um processo tocante.
(A.O.)
(A.O.)
26/10 - Sexta-feira - 17:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 3
28/10 - Domingo - 17:30
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 4
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca - Sala 4
Relacionadas
MOSTRA 2012: Repescagem vai até quinta-feira
- 02/11/2012
Mostra de SP anuncia suas premiações
- 02/11/2012
O dia das últimas chances
- 01/11/2012
Dia de ver Tarkovski e dar chance aos gregos
- 22/10/2012
